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'Se pararmos, vai ficar lotado de corpos': incerteza sobre contágio após morte causa medo em setor funerário

Funcionários de agências funerárias relatam medo de infecção diante da falta de equipamentos adequados e subnotificações de casos de covid-19; por outro lado, representantes de empresas dizem seguir recomendação da OMS.

1 abr 2020
06h01
atualizado às 07h38
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Trabalhadores de agências funerárias têm trabalhado sem equipamentos de proteção, segundo relatos à reportagem
Trabalhadores de agências funerárias têm trabalhado sem equipamentos de proteção, segundo relatos à reportagem
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Familiares de vítimas da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, têm sofrido com velórios rápidos e caixões fechados — sem a possibilidade de se despedir dos parentes.

Do outro lado dessa história, porém, estão os trabalhadores de serviços funerários, eles próprios sofrendo com a pandemia, afetados pela falta de equipamento de proteção e pela subnotificação das mortes por covid-19.

A BBC News Brasil ouviu relatos de trabalhadores que tiveram que manusear ou preparar corpos sem equipamento de proteção individual necessário ou sem saber se a morte havia se dado por covid-19.

Roberta trabalha em uma funerária no interior do Estado de São Paulo. Ela pratica a tanatopraxia, a preparação de um cadáver para velórios. Seu nome verdadeiro foi modificado para proteger sua identidade.

Ela conta que preparou dois corpos cujos motivos declarados para óbito eram "insuficiência respiratória", com uma observação que dizia "aguardando exames". "Como não dizia 'covid-19' e a família queria, fiz a preparação", conta. Ela estava sem o material de proteção adequado. "Se não está escrito na declaração de óbito, como é que vamos chegar na família e falar que não vamos fazer?"

Segundo ela, o velório foi a céu aberto e com aglomeração de familiares. Mais tarde, ela soube que a pessoa havia morrido por causa de covid-19.

Agora, Roberta está afastada do trabalho porque fez um exame cujo resultado deu positivo para coronavírus. Deixou de ajudar a mãe idosa, que precisa dela. Não há comprovação de que tenha sido infectada no trabalho, e especialistas divergem sobre o contágio por cadávares.

Em um hospital particular de São Paulo, na semana passada, um motorista de um serviço funerário foi buscar um corpo, relata um funcionário da categoria. A declaração de óbito dizia "causa indefinida", mas, chegando lá, o cadáver estava dentro de um saco, o que não é praxe.

Enfermeiras disseram ao motorista que, na realidade, a causa da morte havia sido covid-19, e não souberam explicar por que isso não constava na declaração de óbito. Ele não estava com o equipamento de proteção adequado.

Em uma funerária da região do ABC, na Grande São Paulo, um agente funerário conta como servidores do próprio IML (Instituto Médico Legal) e do SVO (Serviço de Verificação de Óbitos) têm avisado que mortes por "broncopneumonia", "pneumonia bilateral", entre outros, podem ter sido decorrência de covid-19, sem que testes tenham sido feito. Por isso, trabalhadores da funerária onde trabalha decidiram por conta própria usar equipamento de proteção que usariam para casos de covid-19.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou como principal estratégia de combate ao coronavírus medidas de prevenção e a massiva realização de testes para identificar os infectados. O gargalo de testes que o Brasil tem enfrentado, além de afetar no combate ao avanço da doença, impacta o trabalho das pessoas na linha de frente, pois acabam tendo de manusear cadáveres sem saber se a causa da morte foi covid-19.

A subnotificação de casos de covid-19 tem deixado funcionários do setor apreensivos, com medo de infecção
A subnotificação de casos de covid-19 tem deixado funcionários do setor apreensivos, com medo de infecção
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em São Paulo, por exemplo, o resultado de um exame na rede pública tem demorado no mínimo 10 dias, segundo relato de médicos.

"E se a gente parar, fizermos uma greve? Vai ficar lotado de mortos", diz Roberta, que preparou, sem saber, um corpo de uma vítima de covid-19. "A gente precisa se ajudar. Colocamos nossa vida em risco para cuidar dos mortos. Estamos abandonados."

"Na terça-feira (31/30, o Ministério da Saúde informou que o Brasil tinha registrado 201 mortes por coronavírus — eram 5.717 casos confirmados".

Manuseio dos corpos

Quando uma pessoa morre em decorrência da covid-19, há procedimentos estabelecidos pelo Ministério da Saúde antes mesmo do velório: a tanatopraxia não é recomendada, o corpo deve ser enrolado com lençóis e dois sacos exteriores e o saco deve ter a identificação da pessoa morta e a "informação relativa ao risco biológico: covid-19".

A urna (caixão) deve ser lacrada e desinfectada. E todos os profissionais envolvidos no manuseio e transporte do corpo devem usar equipamentos de proteção individual.

Velórios e funerais não são recomendados durante os períodos de isolamento social e quarentena. Caso sejam realizados, recomenda-se que o enterro ocorra com no máximo dez pessoas, "não pelo risco biológico do corpo, mas sim pela contraindicação de aglomerações", diz o texto da pasta. Em São Paulo, o tempo foi limitado a uma hora e o número máximo de atendentes foi limitado para dez.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é mais categórica: "o manuseio do corpo deve ser o menor possível" e "o corpo não deve ser embalsamado [tratado]", diz texto do órgão. Também dá preferência para a cremação dos cadáveres; para o Ministério da Saúde, os corpos podem ser enterrados ou cremados.

Mas a demora de resultados de exames para o coronavírus, mesmo após a morte da pessoa possivelmente infectada, tem afetado os procedimentos recomendados. Declarações de óbito devem incluir a infecção por coronavírus, caso tenha sido confirmada por exame, ou informar que há testes em andamento. Mas nem todos as declarações têm incluído essa segunda informação.

A BBC News Brasil teve acesso a cópias de pedidos de contratação de funeral. Alguns trazem a "suspeita de covid-19". Um deles diz apenas "insuficiência cardíaca" e "morte a esclarecer - aguardar exames".

Em Minas, por exemplo, 41 cadáveres chegaram em uma funerária em 48 horas. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, os laudos das mortes apontam causas de insuficiência respiratória aguda, pneumonia e covid-19, e o governo do Estado está investigando o caso. Dados oficiais apontam apenas para uma morte por covid-19 no Estado. Segundo o jornal, o governo admitiu que corpos estão sendo enterrados sem que se saiba se a morte se deu por causa da nova doença.

Segundo especialistas, agentes funerários deveriam usar equipamentos de proteção individual ao lidar com corpos e parentes
Segundo especialistas, agentes funerários deveriam usar equipamentos de proteção individual ao lidar com corpos e parentes
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Na semana passada, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, admitiu que pode haver demora nas notificações se o paciente morre rapidamente, antes de o resultado do teste sair. Nesses casos, afirmou ele, o registro é feito posteriormente, quando o resultado ou contraprovas confirmarem o coronavírus.

Para Marcos Sheffer, consultor funerário de Campo Belo, Minas Gerais, se a declaração de óbito não deixar claro que a morte pode ter se dado por covid-19, algo que vem acontecendo, a preparação do corpo e o velório podem ser feitos, e "expõe agentes, tanto pelo corpo sendo velado, quanto pela aglomeração de pessoas".

Também eleva o valor do velório, já que o preparo do corpo, ou tanatopraxia, pode custar entre R$ 300 e R$ 1200, dependendo da região. Significa que pode haver interesse de donos de funerárias em permitir que o preparo de corpos continue sendo feito, mesmo com o risco de que o óbito tenha se dado por covid-19.

Cadáveres contaminam?

Um argumento que tem sido usado nesse debate é o de que não há provas de que pessoas tenham se infectado com coronavírus a partir do contato com cadáveres.

A própria OMS reconhece, em uma nota, que "até o momento, não há evidências de pessoas que tenham sido infectadas pela exposição aos corpos de pessoas que morreram de covid-19", mas a organização diz ser necessário o equipamento de proteção individual para o manuseio do corpo.

A entidade afirma ainda que "a dignidade dos mortos, sua cultura e religião tradições e suas famílias devem ser respeitadas e protegido por todos os envolvidos. A eliminação apressada de mortos do covid-19 deve ser evitada".

Para o médico Julival Ribeiro, epidemiologia pela Universidade de Brasília, funcionários de serviços funerários devem obrigatoriamente utilizar equipamentos de proteção individual (EPI) ao lidar com cadáveres.

"A pessoa pode entrar em contato com secreções liberadas pelo corpo e se contaminar. Claro que os equipamentos não precisam ser os mesmos de uma Unidade de Terapia Intensiva, que são mais completos. Mas os EPI são estritamente necessários nesse setor", diz.

Lourival Panhozzi, presidente da Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), afirma que a orientação da entidade é que suas 13 mil empresas filiadas continuem a trabalhar desde que respeitem alguns procedimentos.

Entre eles, a entidade cita o uso de invólucro para remover o corpo do hospitale urnas lacradas para impedir a "troca de gases" e líquidos com ambiente externo. Recomenda, ainda, que os funcionários usem equipamentos de proteção, não apenas no trato com o corpo, mas também para conversar com familiares. Velórios, diz a associação, devem ter apenas 10 pessoas em salas de 20 metros quadrados, no mínimo.

Panhozzi se diz contra a suspensão da tanatopraxia e de cerimônias funerárias no país, como vem sendo ventilado por trabalhadores do setor.

"Somos contra a suspensão dos trabalhos de maneira irrestrita. O número de mortes por covid-19 é pequeno em relação ao total de mortes que ocorrem no Brasil. Por causa desses casos, nós vamos privar todas as pessoas de se despedirem dos seus parentes nesse momento tão difícil? Isso pode causar danos psicológicos e emocionais irreversíveis. Os caixões têm vidro, e ninguém prova que o vírus pode atravessar superfícies sólidas", afirma.

Segundo ele, agentes funerários que lidam com cadáveres usam equipamentos de proteção há pelo menos 20 anos, embora já existam agências funerárias relatando escassez do material no mercado por causa da alta procura, diz.

Associação de empresário do setor afirma que segue recomendação da OMS
Associação de empresário do setor afirma que segue recomendação da OMS
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Nunca ouvi nenhum caso de algum funcionário que tenha se contaminado trabalhando em um corpo. Também não há nenhum relato no mundo de que isso tenha ocorrido com a covid. O que pode estar acontecendo é que, na hora de lidar com um corpo, um agente use o material de proteção, mas, quando ele se aproxima da família, ele deixa de usá-los. A infecção pode vir daí", afirma.

A tanatopraxista Nina Maluf discorda. "Não devemos preparar os corpos por conta do risco de contágio da pessoa manipulando aquele corpo. É questão de bom senso. Embora a gente use equipamentos de proteção individual, a gente está exposto. E não são todas as funerárias e cemitérios que têm os equipamentos necessários", diz ela, que faz parte de um grupo de agentes funerários e tanatopraxistas que debatem essa questão.

Sobre a divergência entre a OMS e o Ministério da Saúde, ela diz que "o que deveria ter força de lei é aquilo que melhor atende às questões sociais, e o que atende melhor essa questão social do contágio, do medo, da pressão do trabalhador, é não preparar os corpos que vêm dos hospitais com essas patologias", como a pasta brasileira recomenda.

Transmissão entre cadávares

Em uma publicação no Facebook, o governador do Estado de São Paulo, João Doria (PSDB), publicou que "um cadáver infectado ainda pode transmitir a doença por até 72 horas", ao justificar um decreto feito para descongestionar o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), responsável por determinar a causa óbito, nos casos de morte natural, sem suspeita de violência.

A BBC News Brasil questionou a assessoria do governo do Estado sobre qual teria sido a base científica da afirmação.

"As autoridades sanitárias não recomendam a realização de autópsia em óbitos por covid-19, pelo risco epidemiológico de infecção dos profissionais envolvidos no manejo do corpo", respondeu a assessoria, sem esclarecer sobre o embasamento da afirmação e em seguida citando recomendações do Ministério da Saúde.

"As autópsias em cadáveres de pessoas que morrem com doenças causadas por patógenos das categorias de risco biológicos 2 ou 3 expõem a equipe a riscos adicionais. Por isso, devem ser evitadas."

Sob a condição de anonimato, um médico legista que atua no Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo afirmou à reportagem que os profissionais do setor de necropsia e verificação de óbitos temem a contaminação deles próprios e de outros cadáveres que estiverem em salas dos serviços, caso elas fiquem cheias.

"A sala de necropsia não é igual a uma sala cirúrgica, esterilizada. É uma área contaminada. Os corpos ficam um ao lado do outro. Os funcionários não lavam as mãos toda vez que pegam um cadáver. Os secreções espirram, sangue escorre. O que pode acontecer é que, nesse cenário, um cadáver com covid-19 contamine outro. Esse segundo corpo depois será velado e pode contaminar a família", diz.

Equipamento de proteção

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo (Sindsep), João Batista Gomes, falta material de proteção individual e disponibilidade de álcool em gel para os funcionários de cemitérios na cidade.

São Paulo tem 22 cemitérios, um crematório e agências que fazem a venda de caixões. As clínicas de tratamento do corpo são privadas.

Na semana passada, conta ele, funcionários do cemitério de Perus, na zona norte da cidade, se recusaram a fazer o sepultamento de pessoas desconhecidas (é lá onde as pessoas sem identificação normalmente são enterradas) porque não tinham roupa de proteção. No dia seguinte, diz, o material chegou, e os funcionários ligaram para o IML, que levou os corpos novamente.

A prefeitura de São Paulo diz que contratou temporariamente novos coveiros por meio de uma empresa terceirizada — já que cerca de 60% dos sepultadores foram afastados por terem 60 anos ou mais — e que alugou veículos.

Também diz que equipamentos de proteção estão disponíveis. "Todos os sepultadores e coveiros estão aptos a fazer os sepultamentos nos casos suspeitos ou confirmados de coronavírus e utilizam equipamentos de proteção individual como máscara, luvas e uma roupa apropriada para manejo dos corpos", diz o texto. Além disso, diz que disponibiliza álcool em gel para todos os funcionários.

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Foto: BBC News Brasil

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Os casos

O primeiro registro do coronavírus no Brasil foi em 24 de fevereiro. Um empresário de 61 anos, que mora em São Paulo (SP), foi infectado após retornar de uma viagem, entre 9 e 21 de fevereiro, à região italiana da Lombardia, a mais afetada do país europeu que tem mais casos fora da China.

De acordo com o Ministério da Saúde, o empresário de 61 anos tinha sintomas como febre, tosse seca, dor de garganta e coriza. Parentes dele passaram a ser monitorados. Dias depois, exames apontaram que uma pessoa ligada ao paciente também estava com o novo coronavírus e transmitiu o vírus para uma terceira pessoa. Todos permaneceram em quarentena em suas casas, pelo período de, ao menos, 14 dias.

Pacientes com coronavírus deverão ficar em quarentena
Pacientes com coronavírus deverão ficar em quarentena
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Após o primeiro caso, outros diversos registros passaram a ser feitos no Brasil. Muitos vieram de países com inúmeros casos do novo coronavírus, mas depois foram registrados casos de transmissão local e, por fim, comunitária.

Duas semanas depois, foi anunciado que o empresário de 61 anos está curado da doença provocada pelo novo coronavírus.

Cuidados

A principal recomendação de profissionais de saúde que acompanham o surto é simples, porém bastante eficiente: lavar as mãos com sabão após usar o banheiro, sempre que chegar em casa ou antes de manipular alimentos.

O ideal é esfregar as mãos por algo entre 15 e 20 segundos para garantir que os vírus e bactérias serão eliminados.

Se estiver em um ambiente público, por exemplo, ou com grande aglomeração, não toque a boca, o nariz ou olhos sem antes ter antes lavado as mãos ou pelo limpá-las com álcool. O vírus é transmitido por via aérea, mas também pelo contato.

Também é importante manter o ambiente limpo, higienizando com soluções desinfetantes as superfícies como, por exemplo, móveis e telefones celulares.

Para limpar o celular, pode-se usar uma solução com mais ou menos metade de água e metade de álcool, além de um pano limpo.

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