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Quantas vezes você pode se infectar com o coronavírus? A ciência ainda busca respostas

Com variantes capazes de driblar as defesas do corpo, pesquisadores acreditam que algumas pessoas podem contrair a covid-19 pela quarta vez este ano

19 mai 2022 10h10
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Um vírus que não mostra sinais de desaparecimento, variantes que são hábeis em driblar as defesas do corpo e ondas de infecções duas, talvez três vezes por ano: este pode ser o futuro da covid-19, temem alguns cientistas.

O problema central é que o coronavírus se tornou mais apto a reinfectar as pessoas. As pessoas infectadas com a primeira variante Ômicron já estão relatando segundas infecções com as versões mais recentes da variante - BA.2 ou BA2.12.1 nos Estados Unidos, ou BA.4 e BA.5 na África do Sul.

Essas pessoas podem ter terceiras ou quartas infecções ainda neste ano, disseram pesquisadores em entrevistas. E uma fração pode ter sintomas que persistirão por meses ou anos, condição conhecida como covid longa.

"Parece-me que este será um padrão de longo prazo", disse Juliet Pulliam, epidemiologista da Universidade Stellenbosch, na África do Sul. "O vírus vai continuar evoluindo", acrescentou ela. "E provavelmente haverá muitas pessoas sofrendo muitas, muitas reinfecções ao longo da vida".

É difícil quantificar com que frequência as pessoas são reinfectadas, em parte porque muitas infecções não estão sendo relatadas agora. Pulliam e seus colegas coletaram dados suficientes na África do Sul para dizer que a taxa está maior com Ômicron do que fora com variantes anteriores.

Não é assim que deveria ser. No início da pandemia, os especialistas pensavam que a imunidade da vacinação ou das infecções anteriores impediria reinfecções.

A variante Ômicron frustrou essas esperanças. Ao contrário das variantes anteriores, a Ômicron e suas muitas descendentes parecem ter evoluído para escapar parcialmente à imunidade. Isso deixa todas as pessoas - mesmo aquelas que já foram vacinadas várias vezes - vulneráveis a múltiplas infecções.

"Se gerenciarmos da maneira que estamos gerenciando agora, a maioria das pessoas vai se infectar pelo menos duas vezes por ano", disse Kristian Andersen, virologista do Scripps Research Institute em San Diego. "Vou ficar muito surpreso se as coisas não transcorrerem assim".

As novas variantes não alteraram a utilidade fundamental das vacinas contra a covid. A maioria das pessoas que recebeu três ou mesmo apenas duas doses não ficará doente a ponto de precisar de cuidados médicos se testar positivo para o coronavírus. E uma dose de reforço, assim como uma infecção com o vírus, parece diminuir a chance de reinfecção - mas não muito.

No início da pandemia, muitos especialistas basearam suas expectativas no histórico do vírus influenza, o inimigo viral que nos é mais familiar. Eles previram que, assim como acontece com a gripe, poderia haver um grande surto a cada ano, provavelmente no outono. A melhor maneira de minimizar sua disseminação seria vacinar as pessoas antes de sua chegada.

Em vez disso, o coronavírus está se comportando mais como quatro de seus primos próximos, que circulam e causam resfriados durante o ano todo. Ao estudar os coronavírus do resfriado comum, "vimos pessoas com múltiplas infecções no espaço de um ano", disse Jeffrey Shaman, epidemiologista da Universidade de Columbia em Nova York.

Se a reinfecção acabar se tornando a norma, o coronavírus "não vai ser simplesmente essa coisa de inverno, uma vez por ano", disse ele, "e não vai ser um incômodo leve em termos da morbidade e da mortalidade que vai causar".

Chegaram a ocorrer reinfecções com variantes anteriores, incluindo a Delta, mas foram relativamente infrequentes. Em setembro, porém, o ritmo de reinfecções na África do Sul pareceu aumentar e foi marcadamente alto em novembro, quando foi identificada a variante Ômicron, disse Pulliam.

As reinfecções na África do Sul, assim como nos Estados Unidos, podem parecer ainda mais perceptíveis porque muitas pessoas foram imunizadas ou infectadas pelo menos uma vez até agora.

"A percepção amplia o que de fato está acontecendo biologicamente", disse Pulliam. "A questão é que tem mais gente suscetível à reinfecção".

A variante Ômicron era diferente da Delta - e a Delta das versões anteriores do vírus. Por isso, algumas reinfecções já eram esperadas. Mas agora a Ômicron parece estar desenvolvendo novas formas que penetram nas defesas imunológicas com relativamente poucas alterações em seu código genético.

"É realmente uma surpresa para mim", disse Alex Sigal, virologista do Africa Health Research Institute. "Achei que precisaríamos de um tipo de variante totalmente nova para escapar desta. Mas, na verdade, parece que não".

A infecção por Ômicron produz uma resposta imune mais fraca, que parece diminuir rapidamente em comparação com infecções por variantes anteriores. Embora as versões mais recentes da variante tenham um parentesco próximo, elas variam o suficiente do ponto de vista imunológico para que a infecção por uma não deixe muita proteção contra as outras - e certamente não após três ou quatro meses.

Ainda assim, a boa notícia é que a maioria das pessoas que são reinfectadas com novas versões da Ômicron não desenvolverá quadros graves. Pelo menos no momento, o vírus não encontrou uma maneira de contornar totalmente o sistema imunológico.

"Provavelmente é o melhor possível por enquanto", disse Sigal. "O grande perigo pode vir quando a variante for completamente diferente".

Ainda assim, cada infecção pode trazer consigo a possibilidade de covid longa, a constelação de sintomas que podem persistir por meses ou anos. É muito cedo para saber com que frequência uma infecção por Ômicron gera covid longa, especialmente em pessoas vacinadas.

Para acompanhar a evolução do vírus, disseram outros especialistas, as vacinas contra a covid precisam ser atualizadas mais rapidamente, ainda mais rapidamente do que as vacinas anuais contra a gripe. Mesmo uma combinação imperfeita com uma nova forma de coronavírus, essa vacina hipotética ainda ampliará a imunidade e oferecerá alguma proteção, disseram eles.

"Toda vez que pensamos que já superamos a pandemia, toda vez que pensamos que estamos vencendo o vírus, ele nos engana", disse Andersen. "A maneira de controlá-lo não é dizer: 'Vamos todos nos infectar algumas vezes por ano e depois só esperar pelo melhor'". / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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