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Por que máscaras são necessárias mesmo para vacinados e pessoas que já foram infectadas?

Especialistas explicam que, mesmo que parte da população já esteja com anticorpos contra a covid-19, proteção facial é fundamental para controlar transmissão do vírus. Presidente solicitou parecer para desobrigar uso de máscaras

10 jun 2021 22h55
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O uso de máscaras pela população continua sendo necessário mesmo para aqueles que já foram vacinados contra a covid-19 e para quem se recuperou da doença. Essa necessidade já foi provada cientificamente e é defendida por especialistas, que destacam o risco imposto pela alta transmissão da doença no País e avaliam a nova oposição do presidente Jair Bolsonaro à proteção facial como "próxima de criminosa" e uma "conspiração".

Nesta quinta-feira, 10, Bolsonaro afirmou ter solicitado um parecer ao Ministério da Saúde para que desobrigasse o uso de máscaras a todos os brasileiros que já estejam vacinados ou tenham contraído o vírus. "É uma posição próxima de criminosa. Quem já teve a doença, está provado, pode ter a doença novamente. O tipo de imunidade conferida por ter a doença não é a mesma obtida pela vacina", afirma o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. "O que o presidente está propondo é uma conspiração contra todas as medidas sanitárias que estamos conseguindo adotar."

"No cenário que a gente tem no Brasil, com a transmissão descontrolada, leitos de UTI lotados, iminência de uma terceira onda e porcentagem muito baixa de pessoas vacinadas, é fundamental que a gente reforce e redobre a atenção nas máscaras fornecendo itens de melhor qualidade", diz Vitor Mori, membro do Observatório Covid-19 BR. Ele avalia que o uso da proteção facial foi tratado no Brasil como uma questão secundária e sem a devida atenção desde o início da pandemia.

O pesquisador reitera que não é porque alguém está vacinado que tem o passe livre. "É claro que a vacina funciona, a vacina é uma ferramenta importante, mas ela depende de ter muita gente vacinada para controlar a transmissão", destaca Mori. "Se todos se vacinarem, o efeito protege a todos. Então, temos que buscar a vacinação em massa, inclusive para aqueles que já tiveram a doença. E rezar para que não apareça uma nova variante, que seja resistente a todas as que já existem no mercado", complementa Vecina.

O epidemiologista Pedro Hallal vai na mesma linha. Segundo ele, a vacinação tem dois objetivos: o da proteção individual e o da proteção coletiva. "O uso de máscara pelos já vacinados mira na proteção coletiva, porque as vacinas previnem contra infecção e casos graves. Mas não, na mesma medida, contra a transmissão. Então, se os vacinados não usarem máscara, eles podem contribuir para a disseminação do vírus. Essa é a questão central", comenta.

De acordo com o epidemiologista, o abandono do uso das máscaras tem que ser quando a população estiver perto de alcançar a imunidade de rebanho. Ou seja, quando cerca de 70% da população tiver anticorpos. "Aqui, no Brasil, a estimativa é que nós não tenhamos nem 30% com anticorpos. Então, estamos muito longe ainda", diz, frisando ainda que a proposta de Bolsonaro não teria como ser fiscalizada. "Na prática, é uma carta branca. Vai fiscalizar como se a pessoa já teve covid, se já tomou vacina… Vai parar a pessoa na rua para pedir carteirinha? É uma piada."

Durante um evento no Palácio do Planalto, em Brasília, Bolsonaro disse ter solicitado ao ministro Marcelo Queiroga um parecer desobrigando pessoas vacinadas ou que já tenham sido contaminadas a usarem máscaras, em mais uma medida do presidente que contraria orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras autoridades sanitárias.

"Acabei de conversar com um tal de Queiroga. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscaras por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados. Para tirar este símbolo (segurando uma máscara descartável na mão) que tem a sua utilidade para quem está infectado", disse, enquanto era aplaudido pelos presentes.

Mais tarde, o ministro afirmou em vídeo publicado nas suas redes sociais que Bolsonaro acompanha o cenário internacional e viu a flexibilização das máscaras "em outros países onde a campanha de vacinação está avançada".

No Brasil, entretanto, apenas 11,11% da população havia recebido a imunização completa até o dia em que o presidente resolveu se opor ao uso da proteção facial. "Vamos atender essa demanda do presidente Bolsonaro, que está sempre preocupado com pesquisas em relação à covid", disse Queiroga, que também declarou à CNN não haver prazo para a conclusão do suposto estudo. "Para isso precisamos vacinar a população brasileira e avançar", afirmou.

Para Vecina, o ministro deve tomar cuidado antes de recomendar o abandono total da máscara para vacinados e já infectados. "Espero que o Queiroga, que quer ser um sobrevivente no cargo, consulte os colegas imunologistas, sanitaristas, epidemiologistas e especialistas em moléstias infecciosas, antes de tomar essa decisão. Senão ele vai ocupar um lugar terrível na história da saúde pública brasileira", alerta.

Estadão
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