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Perdendo cabelo? Você pode culpar a grande fuga das células-tronco

Observando folículos capilares de ratos, cientistas descobriram um mecanismo inesperado de envelhecimento

8 out 2021 15h10
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Cada pessoa, cada rato, cada cachorro, tem um sinal inequívoco de envelhecimento: perda de cabelo. Mas por que isso acontece? Rui Yi, um professor de patologia na Northwestern University, está começando a responder a pergunta.

Uma hipótese geralmente aceita sobre células-tronco diz que elas repõem tecidos e órgãos, incluindo o cabelo, mas eventualmente ficarão exaustas e morrerão no local. Esse processo é visto como uma parte integral do envelhecimento.

No entanto, Yi e seus colegas fizeram uma descoberta surpreendente de que, pelo menos nos pelos de animais envelhecidos, as células-tronco escapam das estruturas que as abrigam.

"É uma nova forma de pensar sobre o envelhecimento", disse o Dr. Cheng-Ming Chuong, um pesquisador de células da pele e professor de patologia na University of Southern California, que não estava envolvido no estudo de Yi, publicado na segunda-feira na revista Nature Aging.

O estudo também identifica dois genes envolvidos no envelhecimento capilar, abrindo novas possibilidades para interromper o processo através da prevenção do escape das células-tronco.

Charles K.F. Chan, um pesquisador de células-tronco na Stanford University, chamou o artigo de "muito importante", observando que "na ciência, tudo sobre envelhecimento parece tão complicado que não sabemos por onde começar". Mostrando um caminho e um mecanismo para explicar o envelhecimento capilar, Yi e seus colegas podem ter fornecido um apoio.

As células-tronco desempenham um papel crucial no crescimento capilar de ratos e humanos. Folículos capilares, órgãos minúsculos em forma de túneis por onde os cabelos crescem, passam por períodos cíclicos de crescimento nos quais uma população de células-tronco vivendo em uma região especializada chamada bulge divide-se e transforma-se em células capilares de crescimento rápido.

Sarah Miller, diretora do Instituto Black Family Stem Cell da Escola de Medicina do Monte Sinai, que não estava envolvida no artigo de Yi, explicou que essas células dão origem à haste do cabelo e à sua bainha. Então, depois de um tempo, que é curto para os pelos do corpo humano e muito maior para o cabelo, o folículo torna-se inativo e sua parte mais baixa se degenera. A haste capilar para de crescer e cai, apenas para ser substituída por um novo fio na medida em que o ciclo se repete.

Mas enquanto o resto do folículo morre, uma coleção de células-tronco continua no bulge, pronta para se transformar em células capilares e gerar um novo fio de cabelo.

Yi, como a maioria dos cientistas, presumia que com a idade as células-tronco morriam em um processo conhecido como exaustão das células-tronco. Ele esperava que a morte das células-tronco de um folículo capilar significasse que o cabelo ficaria branco e, quando células-tronco suficientes fossem perdidas, o fio de cabelo morreria. Mas essa hipótese não foi completamente testada.

Com um aluno de graduação, Chi Zhang, Yi decidiu que para entender o processo de envelhecimento capilar, ele precisava observar fios individuais de cabelo conforme cresciam e envelheciam.

Geralmente, os pesquisadores que estudam o envelhecimento pegam pedaços de tecido de animais de diferentes idades e examinam as mudanças. Existem duas desvantagens nessa abordagem, disse Yi. Primeiro, o tecido já está morto. E não está claro o que levou às mudanças que são observadas ou o que virá depois delas.

Ele decidiu que sua equipe usaria um método diferente. Eles observaram o crescimento de folículos capilares individuais nas orelhas de ratos utilizando um laser de ondas longas que consegue penetrar profundamente no tecido. Eles marcaram os folículos capilares com uma proteína fluorescente verde, anestesiaram os animais para que eles não se mexessem, colocaram suas orelhas no microscópio e voltaram várias vezes para observar o que estava acontecendo com o mesmo folículo capilar.

O que eles viram causou surpresa: Quando os animais começavam a envelhecer, ficar grisalhos e perder cabelo, suas células-tronco começavam a escapar de suas casinhas no bulge. As células mudavam sua forma redonda para o formato de amebas e saíam de minúsculos orifícios no folículo. Então elas recuperavam suas formas normais e fugiam.

Às vezes, as células-tronco fugitivas saltavam longas distâncias, em termos celulares, do nicho onde viviam. "Se não tivesse visto com meus próprios olhos não teria acreditado", disse Yi. "Fiquei quase maluco."

As células-tronco então desapareciam, talvez consumidas pelo sistema imunológico. Chan comparou o corpo de um animal a um carro. "Se você roda muito e não substitui as peças, as coisas ficam gastas", disse ele. No corpo, as células-tronco são como um mecânico, fornecendo peças de reposição, e em alguns órgãos como cabelo, sangue e ossos, a reposição é contínua.

Mas com o cabelo, é como se o mecânico - as células-tronco - simplesmente abandonasse o emprego um dia. Mas por que? O próximo passo de Yi e seus colegas foi perguntar se genes estão controlando o processo. Eles descobriram dois - FOXC1 e NFATC1 - que eram menos ativos nas células foliculares de cabelos mais velhos. Seu papel era prender as células-tronco no bulge. Então os pesquisadores criaram ratos que não tinham esses genes para ver se eles eram os controladores principais.

Quando os ratos chegavam aos 4 ou 5 meses, eles começavam a perder cabelo. Com 16 meses, a meia idade desses animais, eles pareciam velhos: Tinham perdido muito cabelo e os esparsos fios restantes estavam grisalhos.

Agora os pesquisadores querem salvar as células-tronco capilares de ratos envelhecidos. Esta história da descoberta de um processo natural completamente inesperado faz Chuong se perguntar o que ainda podemos aprender sobre as criaturas vivas.

"A natureza tem infinitas surpresas esperando por nós", ele disse. "Você pode ver coisas fantásticas." /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Estadão
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