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Imaginando um futuro possível na convivência com o coronavírus

Acompanhando pessoas que foram infectadas pelo SarsS-CoV-2 após terem sido vacinadas, e os resultados da vacinação em massa em diversos países, me parece que talvez já seja possível imaginar como será nossa relação futura com a covid-19

11 set 2021 17h01
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"Meu interesse está no futuro porque é lá que vou passar o resto da minha vida." A frase, atribuída a Charles Kettering, já foi utilizada por Woody Allen. Entretanto, o futuro só existe na nossa imaginação. Por isso excita e amedronta. Durante a pandemia, meu interesse pelo futuro guiou essas crônicas, e à medida que ele se tornava presente descobri meus erros e acertos.

Nas últimas semanas, acompanhando pessoas que foram infectadas pelo SarsS-CoV-2 após terem sido vacinadas, e os resultados da vacinação em massa em diversos países, me parece que talvez já seja possível imaginar como será nossa relação futura com a covid-19.

Numa enorme simplificação podemos dizer que a relação entre os vírus, as vacinas e as pessoas se dividem em dois grupos. No primeiro, estão os vírus que deixaram completamente de nos preocupar quando vacinas foram desenvolvidas. A Hepatite B é um exemplo. Hoje, as crianças são vacinadas na maternidade e nunca mais precisam se preocupar com a doença. O tétano está no mesmo grupo, vacinados só precisam de uma dose de reforço a cada década. E há um segundo grupo de doenças, onde a vacina protege as pessoas da maioria das infecções, evitam que a doença se agrave, reduzem as mortes e casos sérios, mas não permitem que esqueçamos sua existência - porque a vacinação tem de ser repetida. O melhor exemplo é a gripe. Somos vacinados todos os anos, cada ano com uma vacina um pouco diferente, mas continuamos a ter gripes.

Atualmente, com as vacinas que temos e o conhecimento acumulado, o mais provável é que a covid se encaixe neste segundo grupo. Claro que isso pode mudar caso os cientistas desenvolvam vacinas melhores - mas tudo indica que conviveremos com o coronavírus como convivemos com a gripe.

E como será essa convivência? Ela vai depender em grande parte de como os países vão organizar e executar a vacinação da população. Num primeiro momento, estamos numa corrida para vacinar a todos, mas já existe em andamento uma transição para uma segunda etapa, onde começa o processo de reforço das vacinas, a vacinação de jovens e esquemas especiais para idosos e imunodeprimidos. Nos próximos meses, essa transição vai se consolidar. Países desenvolvidos estão avaliando cuidadosamente as vacinas que pretendem usar rotineiramente, escolhendo as mais adequadas.

A qualidade desses programas continuados é que vai determinar quantas pessoas morrerão de covid a cada ano. Mas podemos afirmar que esse número não será zero. Países mais organizados, que baseiam suas decisões em dados científicos, terão um número menor de infectados, de hospitalizados e de mortes. Países menos capazes, ou mais pobres, utilizarão vacinas de pior qualidade e conviverão com mais casos e mais mortes. Essa é exatamente a realidade com a gripe. O que isso significa é que precisamos lutar por um sistema de vacinação bem organizado que use as vacinas mais efetivas possíveis. E quando isso estiver implementado, precisamos de uma mudança radical de comportamento.

O pavor de sermos infectados tem de ser substituído pela certeza de que seremos todos infectados nos próximos anos por esse novo vírus. Mas, caso isso aconteça, simplesmente teremos casos leves ou até assintomáticos. Serão uma ou duas semanas em casa e a vida continua. O medo da covid será o mesmo de uma gripe. Mas o mais importante é começarmos a substituir o pavor pelo vírus, o que se justificava completamente no início da pandemia, por uma leve preocupação em manter a vacinação em dia. Essa é uma mudança de estado de espírito radical para quem passou o último ano tentando garantir que não seria contaminado. E então a vida voltará ao normal. É isso que já vem ocorrendo em alguns países.

Esse é o futuro que me interessa, aquele que passarei o resto da minha vida. Sim, serei contaminado, mas deixo de ter medo. É isso que indicam os dados da gravidade da doença nos vacinados com vacinas de alta efetividade e que se reinfectam. E é a melhor previsão que vislumbro. O tempo dirá se estou certo.

*BIÓLOGO, PhD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

Estadão
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