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Governos cuidaram da saúde física e se esqueceram da saúde mental, diz neurocientista

Para o pesquisador Facundo Manes, saúde mental 'é tão importante quanto a vacinação'

21 out 2021 19h46
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A saúde mental foi o principal tema do quarto dia do Summit Saúde 2021, evento realizado pelo Estadão para discutir o futuro da saúde no Brasil pós-pandemia. Para o principal palestrante do dia, o neurocientista argentino Facundo Manes, o assunto foi negligenciado por vários governos durante o combate à pandemia, inclusive o governo brasileiro. "Não se pode separar saúde física da saúde mental, saúde é uma só", afirmou Manes, autor do livro Ser Humanos. Para o pesquisador, a saúde mental "é tão importante quanto a vacinação".

Segundo Manes a definição de saúde para a Organização Mundial da Saúde (OMS) é o bem-estar completo: físico, mental e social. "Lamentavelmente, muitos governos da América Latina, e também no resto do mundo, concentram seus esforços na saúde física, deixando de fora a saúde mental", conclui.

Para Facundo Manes, neurocientista argentino, a saúde mental foi um assunto negligenciado por vários governos durante o combate à pandemia
Para Facundo Manes, neurocientista argentino, a saúde mental foi um assunto negligenciado por vários governos durante o combate à pandemia
Foto: Reprodução/Summit Saúde 2021 / Estadão

O tema também foi discutido no painel "Saúde mental e trabalho", mediado por Ana Paula Boni, editora de Carreira do Estadão, e que teve como participantes Clarissa Orberg, que é head de Parcerias de Conteúdo de Saúde, Educação e Família no YouTube Brasil, Daniel Martins de Barros, psiquiatra e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, Pedro Pittella, diretor de Recursos Humanos da Sanofi, Rui Brandão, CEO e cofundador do Zenklub, e Silvia Maria Cury Ismael, psicóloga e gerente de Saúde Mental do Hcor.

Para o psiquiatra Daniel Martins de Barros, a "pandemia não causa problemas, ela revela ou potencializa os problemas". Na visão de Barros, a pandemia "colocou uma lente de aumento" nos problemas da sociedade como falta de UTI, problemas de gênero, sobrecarga em mulheres, estresse no trabalho, entre outros.

O aumento do número de horas de terapia online foi um fenômeno durante a pandemia. Levantamento elaborado pela Zenklub, plataforma de orientação psicológica online, revelou um crescimento de 1856% de horas de terapia online do primeiro trimestre de 2019 para o mesmo período em 2021.

Para o cofundador da Zenklub Rui Brandão, a explicação disso está no medo constante que a sociedade vive. "A gente viveu 20 meses com um mal que a gente não consegue ver, que a gente não consegue identificar com certeza", relata. Brandão ainda comenta que, por causa da pandemia, saúde mental é assunto também no trabalho. "A gente conseguiu trazer um tema que era tão delicado, tão tabu, para ser falado e visto como uma ferramenta de liderança, de desenvolvimento, mais do que ferramenta de doença, de tratamento de ansiedade", conclui.

O diretor do Itaú Cultural Eduardo Saron comentou as ferramentas que a companhia encontrou para melhorar a saúde mental no ambiente de trabalho. "Para nós o tema saúde mental precisava ser tratado de maneira organizada, permanente e com profissionais que nos ajudassem nessa jornada", conta. Além de palestras e oficinas, a organização trabalhou para treinar lideranças para identificar possíveis sinais de que os colegas estavam passando por momentos difíceis.

Pedro Pittella, diretor de Recursos Humanos da Sanofi, também compartilhou ferramentas utilizadas pela empresa. Pittella comentou que a Sanofi criou regras para o uso do aplicativo de reuniões Zoom, com o objetivo de diminuir a fadiga causada pelo excesso de reuniões online. "Fizemos uma semana sem Zoom em março. Delimitamos regras para as reuniões e liberamos as tardes de sexta-feira", disse. Além disso, a empresa oferece plataformas online de saúde física e mental, recursos que os funcionários têm aderido e usado. Para Pittella, o gradual retorno ao trabalho presencial também terá os seus desafios.

Segundo Clarissa Orberg, head de Parcerias de Conteúdo de Saúde, Educação e Família no YouTube Brasil, 2021 foi o ano que os brasileiros mais buscaram sobre saúde mental, ansiedade e depressão no Google, desde que o dado começou a ser coletado, em 2006. "A gente trabalha com parceiros, que são especialistas e autoridades nesse tema, para destacar essas informações, ajudando as pessoas a encontrarem respostas confiáveis sobre saúde mental", esclarece.

Clarissa afirmou que o tema ainda é tabu para algumas pessoas. "Nem todo mundo tem acesso a essas informações dentro do seu ambiente de trabalho, então a gente vê que muitas vezes as pessoas não têm coragem de falar sobre isso, mas pesquisam sobre isso", conclui.

Para a psicóloga e gerente de Saúde Mental do Hcor Silvia Maria Cury Ismael, a decisão da ginasta Simone Biles, de se retirar de várias provas nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a fim de se concentrar em sua saúde mental, foi a conclusão de um processo. "Acredito que todo o tempo de treino, preparação e competição a fez chegar em uma conclusão que para ela seria muito agressivo", observa.

Estadão
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