PUBLICIDADE

Google planeja nova estrutura de locais de trabalho para retorno aos escritórios

Empresa está criando espaços para funcionários que se acostumaram a trabalhar em casa durante a pandemia e não querem mais ficar no escritório o tempo todo

3 mai 2021
0comentários
Publicidade

MOUNTAIN VIEW, Califórnia - O primeiro escritório do Google foi uma garagem bagunçada no Vale do Silício com um amontoado de mesas apoiadas em cavaletes. Em 2003, cinco anos após sua fundação, a empresa mudou-se para um campus extenso chamado Googleplex. Os escritórios abertos e arejados e os espaços comuns extravagantes definiam um padrão para a aparência de um local de trabalho inovador. Com o passar dos anos, as amenidades aumentaram ainda mais. A comida era de graça, assim como os ônibus para ir e voltar do trabalho: chegar ao escritório e ficar lá o dia todo era fácil.

Agora, a empresa que outrora redefiniu como um empregador deveria tratar seus trabalhadores está tentando reformular o próprio escritório. O Google está criando um local de trabalho pós-pandemia que acomodará funcionários que se acostumaram a trabalhar de casa no ano passado e não querem mais ficar no escritório o tempo todo.

A empresa vai incentivar - mas não obrigar - que os funcionários sejam vacinados quando começarem a retornar ao escritório, provavelmente em setembro. À primeira vista, o interior dos edifícios do Google pode não parecer tão diferente. Mas, no próximo ano ou depois, o Google vai experimentar novos projetos de escritório em milhões de metros quadrados de espaço, ou cerca de 10% de seus espaços de trabalho pelo mundo.

Os planos se baseiam no trabalho que começou antes da pandemia de covid-19 mandar os trabalhadores do Google de volta para casa, quando a empresa pediu a um grupo diversificado de consultores - incluindo sociólogos que estudam a "geração Z" e como os alunos do ensino fundamental se socializam e aprendem - para imaginar o que agradaria aos futuros funcionários.

A resposta parece ser uma mistura entre Ikea e Lego. Em vez de fileiras de mesas ao lado de salas de reunião pré-fabricadas, o Google está projetando "cápsulas de equipes". Cada cápsula é uma tela em branco: cadeiras, mesas, quadros brancos e unidades de armazenamento sobre rodízios podem ser ajustados de várias maneiras diferentes e, em alguns casos, reorganizados em questão de horas.

Para lidar com uma combinação esperada de funcionários remotos e no escritório, a empresa também está criando uma nova sala de reuniões chamada Campfire (fogueira), onde os participantes se sentam em um círculo intercalado com enormes monitores impossíveis de ignorar. Os monitores mostram os rostos das pessoas que participam por videoconferência, de forma que os participantes virtuais fiquem em pé de igualdade com os presentes fisicamente.

Em alguns locais ao redor do mundo, o Google está construindo áreas de trabalho ao ar livre para responder às preocupações de que o novo coronavírus se espalhe facilmente em escritórios tradicionais. Em sua sede no Vale do Silício, onde o clima é agradável na maior parte do ano, a empresa transformou um estacionamento e uma área de gramado em "Acampamento Charleston" - uma área que mistura grama e piso de deck de madeira do tamanho de quatro quadras de tênis com Wi-Fi por toda parte.

Há grupos de mesas e cadeiras sob tendas ao ar livre. Nas tendas maiores, há áreas para reuniões com a decoração de um retiro na natureza da Califórnia e equipamentos de videoconferência de última geração. Cada tenda tem um nome que acompanha o tema de acampamento, como "lenha" e "canoa". O Acampamento Charleston está aberto desde março para as equipes que desejam se reunir. O Google disse que está construindo espaços de trabalho ao ar livre em Londres, Los Angeles, Munique, Nova York e Sydney, e possivelmente em mais locais.

Os funcionários podem retornar às suas mesas permanentes em um esquema de rodízio que designa as pessoas para irem ao escritório em um dia específico a fim de garantir que ninguém esteja lá no mesmo dia que seus vizinhos de mesa.

Apesar da cultura corporativa despreocupada da empresa, ir ao escritório regularmente era uma das poucas regras duradouras do Google.

Esse foi um grande motivo pelo qual o Google ofereceu suas vantagens luxuosas, disse Allison Arieff, uma escritora de arquitetura e design que estudou campi corporativos. "Eles conseguem manter todos no campus pelo maior tempo possível e estão mantendo alguém no trabalho", disse Allison, que foi colaboradora da editoria de opinião do jornal The New York Times.

Mas, como a força de trabalho do Google ultrapassava 100 mil funcionários em todo o mundo, a colaboração cara a cara costumava ser impossível. Os funcionários achavam mais difícil se concentrar com tantas distrações dentro dos escritórios abertos do Google. A empresa havia perdido o interesse por sua configuração de longa data.

Em 2018, o grupo para assuntos imobiliários do Google começou a considerar o que poderia fazer de diferente. Recorreu à equipe de pesquisa e desenvolvimento da empresa para "ambientes construídos". Era um grupo eclético de arquitetos, designers industriais e de interiores, engenheiros estruturais, construtores e especialistas em tecnologia liderados por Michelle Kaufmann, que trabalhou com o renomado arquiteto Frank Gehry antes de ir para o Google há uma década.

O Google se concentrou em três tendências: o trabalho acontece em qualquer lugar e não apenas no escritório; o que os funcionários precisam de um local de trabalho está mudando constantemente; e os locais de trabalho precisam ser mais do que mesas, salas de reunião e amenidades.

"O futuro do trabalho no qual pensávamos estava a 10 anos de nós", disse Michelle. "A covid-19 nos trouxe para esse futuro agora."

Nos primeiros dias da pandemia, "parecia assustador mover uma organização de mais de 100 mil pessoas para o ambiente virtual, mas agora parece ainda mais assustador descobrir como trazê-los de volta com segurança", disse David Radcliffe, vice-presidente do Google para serviços imobiliários e de locais de trabalho.

Em suas configurações atuais de escritório, o Google disse que seria capaz de usar apenas uma a cada três mesas para manter as pessoas a cerca de 2 metros de distância uma da outra. Radcliffe disse que essa distância permaneceria um limite importante no caso de uma próxima pandemia ou mesmo de uma gripe sazonal.

Psicologicamente, disse ele, os funcionários não vão querer se sentar em uma longa fileira de mesas, e o Google também pode precisar "tornar menos povoados" os escritórios, preenchendo os espaços em branco com móveis ou plantas. A empresa está essencialmente se desapegando da teoria de organização de escritório aberto popularizada há anos pelo Vale do Silício - que defende que enfiar mais trabalhadores em espaços menores e tirar sua privacidade leva a uma melhor colaboração.

Os custos imobiliários para a empresa não devem mudar muito. Embora haja menos funcionários no escritório, eles precisarão de mais espaço.

O Google está tentando entender como os funcionários irão reagir ao sistema de trabalho chamado de híbrido. Em julho, a empresa perguntou aos trabalhadores quantos dias por semana eles precisariam ir ao escritório para serem produtivos. As respostas foram divididas igualmente em um intervalo de zero a cinco dias por semana, disse Radcliffe.

A maioria dos funcionários do Google não tem pressa em voltar. Em sua pesquisa anual com funcionários chamada Googlegeist, cerca de 70% dos cerca de 110 mil funcionários entrevistados disseram ter uma visão "favorável" em relação a trabalhar de casa, em comparação com cerca de 15% que tinham uma opinião "desfavorável".

Outros 15% tinham uma perspectiva "neutra", de acordo com resultados vistos pelo The New York Times. A pesquisa foi enviada em fevereiro e os resultados foram divulgados no final de março.

Muitos funcionários do Google se acostumaram com a vida sem perder tempo a caminho do trabalho e com mais tempo para a família e para a vida fora do escritório. A empresa parece estar percebendo que seus funcionários podem não estar tão dispostos a voltar à velha vida.

"Equilibrar trabalho e vida pessoal não é comer três refeições por dia no escritório, ir à academia lá, ter todas as tarefas feitas lá", disse Allison. "No fim das contas, as pessoas querem flexibilidade e autonomia e, quanto mais o Google tirar isso, mais difícil será." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Estadão
Publicidade
Publicidade