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Entenda os principais pontos do depoimento de Mandetta na CPI

Ex-ministro descreveu um cenário em que o Bolsonaro contrariou recomendações científicas e tentou mudar a prescrição da cloroquina para tratar covid-19

4 mai 2021
20h24 atualizado às 22h26
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BRASÍLIA - Primeiro a depor na CPI da Covid, no Senado, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, respondeu nesta terça-feira, 4, uma série de questionamentos sobre a forma como o governo federal tratou da pandemia logo nos seus primeiros meses. Mandetta foi demitido em abril do ano passado, após se desentender com o presidente Jair Bolsonaro.

Aos senadores, o ex-ministro descreveu um cenário em que o presidente contrariou recomendações científicas, tentou mudar a prescrição da cloroquina para incluir covid-19 mesmo sem estudos que comprovem sua eficácia e ignorou alertas sobre a gravidade da doença que já matou mais de 400 mil pessoas no País.

Veja abaixo os principais pontos do depoimento do ex-ministro na CPI, que tem como foco os erros e omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia.

  • Presidência avaliou mudar a bula da cloroquina

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta revelou que auxiliares do presidente Jair Bolsonaro e médicos bolsonaristas convidados para uma reunião no Palácio do Planalto, em meados de abril de 2020, tentaram mudar a bula da cloroquina por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e incluir uma recomendação de uso para tratar a covid-19.

Na reunião, foi distribuída aos presentes uma minuta de decreto presidencial que forçaria a mudança. A proposta não avançou, segundo a versão de Mandetta, diante das reações do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, e de Jorge Oliveira, então ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

"Havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de decreto presidencial para que fosse sugerido naquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação para coronavírus", disse.

O remédio não tem eficácia cientificamente comprovada contra o novo coronavírus, mas é propagandeado por Bolsonaro como solução para a doença. Como o Estadão já mostrou, a campanha do presidente a favor do medicamento ajudou a alavancar negócios de cinco laboratórios - alguns comandados por apoiadores do presidente.

Nesta terça, durante conversa com apoiadores na porta do Alvorada, Bolsonaro ironizou seu ex-ministro. "Mandetta é aquele do 'Fique em casa e continue sem ar'", declarou, em referência a orientações da gestão Mandetta para que as pessoas procurassem atendimento somente em casos de sintomas graves. À época, a medida era defendida por especialistas como forma de evitar o colapso no sistema de saúde.

  • Aglomerações e postura negacionista aumentaram mortes

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta foi taxativo ao dizer que a maneira como o presidente Jair Bolsonaro lidou com a pandemia e com as recomendações sanitárias ajudou a piorar o quadro de contaminação no País e, consequentemente, ajudou a ampliar o número de mortes.

Mandetta foi chefe da Saúde de 1.º de janeiro de 2019 a 16 de abril de 2020. Portanto, foi o responsável pela área quando surgiram os primeiros casos de covid no Brasil. Diante de questionamentos de senadores da CPI, Mandetta afirmou que era "constrangedor" conviver com as contradições nas recomendações feitas por ele e pelo presidente.

"Se a postura trouxe um impacto? Sim. Em tempos de epidemia, você tem que ter a unidade. Você tem que ter uma fala única. O raciocínio não é individual. Esse vírus ataca a sociedade como um todo. Ele ataca a educação, a cultura, o esporte, o lazer. Ele ataca tudo: a economia, o emprego, microempresas", disse, em resposta à pergunta objetiva do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) insistiu na pergunta sobre a contribuição de Bolsonaro para o agravamento da crise e Mandetta reiterou a crítica. "Posso lhe dizer que o Brasil podia ter feito muito melhor, eu acho que esse é o ponto. É o meu sentimento como gestor, e a minha frustração de não ter sido capaz de explicar isso de uma maneira ainda mais clara, mesmo escrevendo, desenhando, explicando: 'Olha, o vírus é um bichinho que está no ar'. Foi realmente lamentável", afirmou.

  • Ausência de campanha de comunicação nacional para orientar a população

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou que o governo federal não quis fazer uma ampla campanha institucional para informar e orientar a população na fase inicial da disseminação do novo coronavírus no Brasil. Essa estratégia deveria ser a praxe, na avaliação do ministro, assim como foi quando outras doenças infecciosas surgiram repentinamente no País.

"Não havia o plano. O normal, quando se tem uma doença infecciosa, é você ter uma campanha institucional, como foi, por exemplo, a da Aids. Havia uma campanha onde se falava sobre AIDS, como se pega, e orientava as pessoas a usarem preservativo. Era difícil para a sociedade brasileira fazer, mas havia uma campanha oficial.

Ainda segundo Mandetta, a não existência de campanhas o obrigavam a manter as entrevistas coletivas diárias que liderava no Ministério da Saúde. "(Na crise da covid) Não havia como fazer uma campanha, não queriam fazer uma campanha oficial. Então, havia necessidade de manter a questão das informações", disse.

A megaexposição do ex-ministro nessas entrevistas coletivas foi um dos motivos que intensificaram o desgaste na relação dele com o presidente. Mandetta também falou que a campanha "O Brasil não pode parar" não passou pelo ministério e ficou poucos dias no ar porque foi totalmente inspirada em Milão, que pouco depois de lançá-la experimentou um colapso em seu sistema de saúde.

  • Alertas de que País poderia ter alto número de mortes

Luiz Henrique Mandetta afirmou que, logo no início da pandemia, levou ao presidente Jair Bolsonaro um conjunto de projeções sobre a dinâmica da doença, mas ele ficou com dúvidas diante delas. Uma delas apontava que o total de mortos no Brasil poderia ultrapassar os 180 mil até 31 de dezembro de 2020 - o total de vítimas no período ficou perto dos 190 mil.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta durante pronunciamento na CPI da Covid
O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta durante pronunciamento na CPI da Covid
Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado / Estadão

"Eu levei, expliquei. 180 mil óbitos, para quem tinha na época menos de mil, era um número muito difícil de você fazer uma assertiva dessa. Eu acho que ali ficou dúvida, porque tinha ex-secretários de saúde, parlamentares que falavam publicamente: 'Olha, essa doença não vai ter 2 mil mortos, essa doença vai durar de quatro a seis semanas'", disse.

A dúvida expressada por Bolsonaro, na visão de Mandetta, existia por causa das pessoas com as quais o presidente se aconselhava. Entre elas, algumas que apostavam que o número de mortes seria reduzido e que a crise sanitária não duraria mais do que algumas semanas.

"Havia uma construção também de pessoas que falavam absolutamente o contrário. E eu acho que, naquele momento, o presidente entendeu que aquelas outras previsões poderiam ser mais apropriadas", disse.

  • Governo engavetou estratégia de testagem em massa

Mandetta afirmou que, antes de deixar o cargo, deixou as bases para a estruturação de um programa de testagem em massa na população brasileira. No entanto, a partir de sua saída a estratégia foi deixada de lado.

O ex-ministro disse que não bastava adquirir os testes, mas também ter meios para processá-los de maneira automatizada. A ideia era reunir uma estrutura central de laboratórios que poderiam processar os testes de todo o País e informar resultados imediatamente, o que não ocorreu após a saída dele.

"Disparamos o processo de aquisição com todas as dificuldades, mas isso só foi recebido, só foi assinado o recebimento dos testes... Já era o Ministro subsequente, o Nelson Teich. Depois eu soube que os testes não foram... essa estratégia não foi utilizada", disse.

  • Filhos prejudicaram relação com a China

O ex-ministro da Saúde disse ter encontrado os três filhos de Bolsonaro com carreira política - o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) - reunidos no Palácio do Planalto. Eles teriam vetado uma reunião com o embaixador da China, Yang Wanming, país de onde Mandetta contava importar insumos para combater a pandemia.

"Eu fui até o Palácio do Planalto um certo dia, e eles estavam todos lá, os três filhos do presidente da República, e mais os assessores, que são assessores de comunicação. Disse a eles: 'Olha eu preciso conversar com o embaixador da China, preciso que ele nos ajude. Pedi uma reunião com ele. Posso trazer ele aqui (no Palácio)?'. 'Não, aqui não (responderam os filhos de Bolsonaro)'. Tive que fazer por telefone (a conversa)", descreveu.

"Eu tinha dificuldade, por exemplo, nas relações com a China (...). Tinha dificuldade com o Ministério das Relações Exteriores. O outro filho do presidente que é deputado, o Eduardo (Bolsonaro), ele tinha rotas de colisão com a China, através do Twitter, (criava) um mal estar", disse.

Mandetta também contou que Carlos costumava participar de reuniões ministeriais no Planalto tomando notas sobre as decisões.

  • Ignorou apelos e recomendações do ministério da Saúde

Em vários momentos do seu depoimento, Mandetta descreveu o comportamento errático de Bolsonaro: num momento o presidente dizia concordar com as orientações do Ministério da Saúde, mas, em seguida, fazia declarações públicas defendendo tratamentos e estratégias que não foram corroboradas pela evidência científica, como o uso da cloroquina e o chamado "isolamento vertical". Este último é a ideia de manter em isolamento apenas pessoas idosas ou com comorbidades, liberando as demais para transitar normalmente.

"A equipe (do Ministério da Saúde) ficava desconfortável de ver, depois de explicar uma, duas, três vezes… a gente explicava, as pessoas (governo) entendiam, e passados um ou dois dias, faziam o contrário do que tinham entendido. Então isso era desconfortável (...). Era o ministro dando as suas orientações e o presidente fazendo outra coisa que ele achava que era", disse Mandetta.

Mandetta também entregou ao comando da CPI uma carta pessoal escrita por ele a Bolsonaro, datada do dia 28 de março de 2020. Na missiva, ele diz que o Ministério não estava contando com o apoio do governo federal no enfrentamento à pandemia e alertou para a possibilidade de colapso do sistema de saúde.

"Em que pese todo esforço empreendido por esta Pasta para proteção da saúde da população e, via de consequência, preservação de vidas no contexto da resposta à epidemia da Covid-19, as orientações e recomendações não receberam apoio deste Governo Federal, embora tenham sido embasadas por especialistas e autoridades em saúde", diz o texto de Mandetta.

Estadão
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