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Desacreditar de tudo

Não nos iludamos: a única sociedade em que tudo é verificável é a das cavernas

14 jun 2021 05h13
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"A verdade, meu amor, mora num poço. É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz", canta a letra do samba Positivismo, de Noel Rosa. O verso faz referência à pergunta de Pôncio Pilatos para Jesus - "Que é a verdade?" -, já naquela época questionando se seria possível encontrar a exata correspondência entre as versões dos fatos e a realidade.

Essa formulação remete a Aristóteles, cuja filosofia ensinava que dizer a verdade era dizer sobre o que é, que é, e sobre o que não é, que não é. Parece simples. E pode ser que em algum momento da nossa história tenha sido possível verificarmos pessoalmente a verdade das coisas. Mas depois da descoberta da agricultura, da invenção do dinheiro, da criação das cidades e do desenvolvimento tecnológico tornou-se impossível para qualquer um de nós checar tudo o que nos é apresentado como verdade.

Para chegar onde chegamos nós precisamos construir uma sociedade que se baseasse numa cadeia de verificações tão complexa e extensa que àqueles na ponta só resta acreditar se quiserem se inserir na vida comum. Quando monto meu prato num restaurante por peso, imagino que ali os padrões de higiene sejam seguidos. Isso porque acredito que tenham autorização para funcionar. E claro que é necessário crer que haja fiscalização adequada. Crendo-se ainda que os parâmetros fiscalizados são os mais adequados para minha saúde. Na primeira porção de arroz que coloco no prato, começa tudo de novo, dessa vez com relação ao fornecedor daquele alimento. Enfim, deu para pegar a ideia: se eu quisesse verificar por mim mesmo todas as afirmações que estão por trás de um simples prato de comida, levaria alguns meses antes de dar a primeira garfada.

Expanda o raciocínio para a vida como um todo, do nascimento à morte, e veremos que nossa realidade é baseada muito mais em pressupostos do que em conhecimento. Eu presumo que o diploma da professora dos meus filhos seja verdadeiro. Que o cinto de segurança do carro foi testado. Que o remédio que estou tomando não seja placebo. Presumo muito mais do que sei.

Raça imperfeita que somos, não é possível confiar cegamente em tudo, porque sempre haverá quem queira aproveitar da nossa confiança. Para isso existe fiscalização. Oficial, promovida pelo governo. Não oficial, feita pela sociedade - na figura da imprensa, por exemplo. Acadêmica, quando os cientistas são fiscalizados pelos pares. Eles podem também ser fiscalizados, claro, mas nesse processo igualmente é preciso pressupor algumas coisas: uma foto de satélite só serve como prova se acreditarmos que veio do espaço. Podemos perguntar para o técnico para ter certeza, mas aí temos de acreditar em sua resposta. Ou, se ele mostrar algum documento, confiar em sua legitimidade. E assim por diante.

É aí que entra a estratégia política de desacreditar de tudo. O alvo é toda forma de verificação da verdade. Não é por acaso que minam a credibilidade da imprensa, dos cientistas, dos órgãos fiscalizadores. Sabendo ser impossível verificarmos pessoalmente a maioria das coisas, enfatizam a possibilidade de estarmos sendo enganados. Com um objetivo muito simples: uma vez rompido o pacto de confiança construído ao longo da história da civilização, fica fácil questionar qualquer verdade que lhes seja inconveniente.

A economia está ruim? Não acredite em números mentirosos. Surgiu um escândalo? Desconfie dos jornais. Os dados são prejudiciais? Não confie em cientistas. Perdi as eleições? Foi fraude. A ofensiva contra as urnas eletrônicas é só mais um capítulo. Não é por as urnas serem eletrônicas, mas para desde já retirar a confiança no processo eleitoral. Por acaso Trump precisou de urnas eletrônicas para alegar fraude em sua derrota? Não nos iludamos: a única forma de termos uma sociedade em que tudo é verificável individualmente é voltando a morar em cavernas, abrindo mão de um avanço por vez. Primeiro os votos eletrônicos, depois os de papel, chegará a hora de abrirmos mão desse complicado avanço chamado democracia.

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO E INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (FMUSP)

Estadão
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