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Coronavac tem efetividade de 71% contra mortes em idosos com mais de 70 anos e protege da P.1

Estudo divulgado nesta semana mostra que imunizante foi efetivo mesmo em região com predominância de variante de preocupação, mas sugere queda de proteção entre idosos com 80 anos ou mais

23 jul 2021 20h46
| atualizado às 20h51
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SÃO PAULO - A Coronavac tem alta efetividade contra casos graves e mortes mesmo no grupo de idosos mais velhos e em locais em que a variante gama (P.1) é predominante, indica um estudo divulgado na quarta-feira, 21. Na pesquisa, que analisou dados de pacientes com 70 anos ou mais, a proteção do imunizante contra óbitos foi de 71,4%.

A pesquisa também confirma que são necessárias duas doses da vacina para conferir alguma proteção e sugere que a efetividade da Coronavac pode cair entre os idosos com 80 anos ou mais - esses dados, no entanto, ainda são preliminares e não têm poder estatístico para se mostrarem definitivos.

O estudo foi realizado pelo grupo Vebra Covid-19, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros de instituições como Fiocruz, Incor e Instituto Global de Saúde de Barcelona para avaliar a efetividade das vacinas em uso no Brasil. Ele foi publicado na plataforma MedRxiv e ainda está na fase pré-print - não foi revisado por outros cientistas.

Os testes de efetividade são considerados os "estudos de vida real", ou seja, medem a taxa de proteção da vacina quando ela é aplicada em massa na população e fora do ambiente controlado de uma pesquisa clínica.

O trabalho avaliou o desempenho da vacina em idosos de 70 anos ou mais que tiveram suspeita de covid no Estado de São Paulo entre os dias 17 de janeiro e 29 de abril. Foram considerados os dados de 43.774 indivíduos, entre pessoas com infecção confirmada ou teste negativo. Os pesquisadores avaliaram a evolução dos casos entre os grupos de vacinados e de não vacinados.

A efetividade geral da vacina, ou seja, para qualquer grau de infecção, foi de 41,6%, enquanto a proteção contra hospitalizações foi de 59%. A efetividade contra óbitos foi de 71,4%, mas, quando detalhada por faixa etária, variou de 87,1% (no grupo de 75 a 79 anos) a 49,9% (entre os que têm 80 anos ou mais). No grupo de 70 a 74, a taxa foi de 86%. Os índices referem-se a pessoas já imunizadas há mais de 14 dias com a segunda dose da vacina.

Esse dado, embora sugira uma queda de proteção com a idade, não tem precisão e, por isso, não deve gerar pânico nem ser usado como argumento para a defesa de uma revacinação, explicou ao Estadão um dos autores do estudo, o infectologista Julio Croda, da Fiocruz. Em maio, um artigo do mesmo grupo já apontava a queda da efetividade da Coronavac contra qualquer grau de infecção em idosos com mais de 80 anos.

"Até 79 anos, a efetividade da vacina foi excelente, de mais de 80%. A queda ocorreu a partir dos 80 anos, em uma população que já responde mal a qualquer vacina. Podemos afirmar que essa queda de efetividade mostra uma tendência, mas não podemos ser categóricos que esse índice é o correto porque os cálculos da amostra não têm poder estatístico", disse Croda.

Ele afirmou ainda que a efetividade da Coronavac contra mortes em idosos com 70 anos ou mais é maior do que a da vacina da gripe, que fica entre 50% e 60%. O infectologista contou que, para ter resultados mais precisos, o grupo de pesquisa do qual participa vai passar a monitorar mensalmente idosos mais velhos e profissionais de saúde vacinados com a Coronavac para observar se a imunidade se mantém.

Outros especialistas em vacinas destacaram que a queda de proteção entre idosos mais velhos é esperada e que não justifica agora a administração de uma dose de reforço nesse público.

"É questão de tempo termos que dar uma terceira dose não só para a população que tomou Coronavac, mas para todos os imunizados, mas ainda não sabemos quando isso será necessário nem qual vacina será utilizada. O importante agora é vacinar toda a população com ao menos uma dose", disse Rosana Richtmann, membro do comitê de imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, ressalta que a efetividade contra casos severos e óbitos é alta, mas não pode ser alardeada como infalível.

"A vacina é boa para prevenir mortes, mas não é 100% porque nenhuma vacina é 100%. Agora, temos que acompanhar para ver o melhor esquema de reforço para ser feito no futuro. Anunciar qualquer ação de revacinação agora é um tiro no escuro, uma irresponsabilidade", disse ela. Nesta semana, o governo paulista disse que começará a revacinar todos os adultos do Estado em janeiro de 2022.

Questionado pelo Estadão sobre estudos da efetividade da Coronavac em idosos e a possibilidade de uma dose de reforço, o Ministério da Saúde informou que "até o momento, não há evidência científica que confirme a necessidade de doses adicionais das vacinas covid-19". Segundo o órgão, a recomendação é que Estados e municípios "sigam o que é definido pela Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis, que é pactuada entre União e gestores estaduais e municipais, e pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO)".

O Instituto Butantan, que produz a vacina no Brasil, também foi questionado sobre a possível queda de efetividade em idosos e sobre estudos que avaliem a necessidade de uma terceira dose do imunizante, mas não respondeu.

Efetividade da AstraZeneca contra mortes pode chegar a 93,6%

Outro estudo conduzido pelo mesmo grupo de pesquisadores avaliou a efetividade também da vacina Oxford/AstraZeneca para prevenir casos graves e mortes por covid-19 em idosos (indivíduos com 60 anos ou mais) no Brasil. A pesquisa, porém, não mediu os índices por faixa etária detalhada.

Os testes, que também confirmaram o bom desempenho do produto contra a variante gama, analisaram os dados de 61.164 moradores do Estado de São Paulo que tiveram suspeita de covid entre 17 de janeiro e 2 de julho de 2021.

De acordo com o artigo, que também foi publicado na plataforma pré-print MedRXiv, a efetividade do imunizante foi de 87,6% contra hospitalizações e 93,6% contra óbitos. Os índices referem-se a pessoas imunizadas há mais de duas semanas com as duas doses. A proteção com apenas uma dose é significativamente menor (37,5% contra mortes 14 dias após a primeira dose, por exemplo), o que reafirma a importância de tomar a segunda dose no prazo.

Estadão
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