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“Cemitério de cinzas” acolhe com leveza vítimas da covid-19

Locais que abrigam urnas de pessoas cremadas funcionam como um memorial e passaram a ter procura intensa após a chegada da pandemia ao Rio

31 jul 2020
13h12
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Columbário é o nome que se dá ao local específico dentro de determinados cemitérios, no qual são depositadas as cinzas de quem foi cremado. Engana-se quem imagina tratar-se de um espaço que carrega o peso da morbidez de túmulos espalhados por todos os cantos. Em cemitérios do Rio, por exemplo, a opção tem aumentado bastante nos últimos meses, notadamente por parentes de vítimas da covid-19.

Os salões com as cinzas são bem iluminados e, na medida do possível, acolhedores. As urnas ficam guardadas em prateleiras envidraçadas e alugadas para essa finalidade. Muitas delas contêm pequenos objetos que remetem à lembrança de quem partiu – bandeiras de clubes e de escolas de samba, insígnias de corporação ou de classe, terços, imagens religiosas etc.

Columbário do Cemitério da Penitência, no Rio, guarda as cinzas de muitas vítimas da covid-19
Columbário do Cemitério da Penitência, no Rio, guarda as cinzas de muitas vítimas da covid-19
Foto: Divulgação

Com a covid-19, o número de cremações em todo o Brasil deu um salto, até porque é expressivo o grau de transmissão da doença. No Rio, as estatísticas do Crematório e Cemitério da Penitência, um dos mais procurados, indicam um acréscimo de 121% nesse serviço, comparando-se o movimento entre março e maio deste ano com o do mesmo período de 2019 – 1.477 procedimentos ano passado e 669 mais recentemente.

“As famílias que estão optando pela cremação evitam retornar ao local para pegar as cinzas neste momento de pandemia e preferem deixar as urnas no columbário, independentemente da causa da morte. Assim ganham tempo para pensar no melhor destino para o ente querido”, disse o gerente de relacionamento do cemitério, Rogério de Oliveira.

Já o coordenador-geral do campo-santo, Alberto Brenner Junior, destaca outro aspecto que tem sido notado na conversa com clientes. “Ao escolher guardar as cinzas nesses nichos, acabam fazendo uma homenagem àquela pessoa, criando um memorial para a sua família.”

O columbário também pode ter outras utilidades. A bióloga Márcia Procópio de Oliveira, impactada pela perda repentina dos pais, Walter Procópio de Oliveira e Nair Lussana de Oliveira, ambos vítimas de covid-19 e que morreram no mesmo dia, em 13 de julho, no Rio, seguiu a recomendação de autoridades sanitárias e optou pela cremação deles.

A partir de então, veio a dúvida: o que fazer com as cinzas? Foi quando a família se lembrou de um desejo antigo de dona Nair. Ela dizia que queria ser levada para perto de onde seus pais haviam sido sepultados, no Rio Grande do Sul. No atual momento de pandemia, essa logística seria muito complicada, quase inviável, segundo avaliou Márcia.

“Eu nem sabia o que significava "columbário". É um ótimo serviço. As cinzas deles, que tinham 55 anos de casados, vão ficar lá até o fim da pandemia. Depois, com calma, vamos levá-las para onde eles queriam e prestar assim a nossa homenagem", disse Márcia ao Terra.

Família fez homenagem ao casal Walter e Nair - os dois não resistiram à ação do novo coronavírus.
Família fez homenagem ao casal Walter e Nair - os dois não resistiram à ação do novo coronavírus.
Foto: Divulgação

Enquanto aguardam o fim da crise sanitária e tentam lidar com a saudade e a dor da perda dupla, Márcia, sua irmã Ângela, e demais parentes de Walter e esposa decoraram o pequeno espaço alugado no columbário do Cemitério da Penitência com uma foto do casal, o relógio preferido do patriarca e o terço que era companhia de todas as horas de dona Nair.

 

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Fonte: Silvio Alves Barsetti
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