PUBLICIDADE

Brasil já identificou ao menos 25 sublinhagens da variante Delta: quais são os riscos para o País?

Reino Unido monitora nova mutação e Belém alerta sobre tipo de vírus não identificado pelos testes; orientações de especialistas são completar o esquema vacinal contra a covid, manter distanciamento social e usar máscara

26 out 2021 22h04
ver comentários
Publicidade

A Delta é a variante do coronavírus predominante em grande parte dos países. Com isso, algumas sublinhagens da cepa, mais transmissível, preocupam autoridades. Diante de um aumento significativo nos casos diários de covid-19, o Reino Unido anunciou na última semana que monitora "de perto" uma nova mutação da Delta, a AY 4.2. Já a Secretaria de Saúde de Belém publicou alerta pela detecção da subvariante AY 33, que, segundo o município, "pode não ser detectada por testes rápidos e pelos protocolos padrões de RT-qPCR". Ao todo, já foram identificadas no Brasil pelo menos 25 sublinhagens da Delta.

Especialistas ouvidos pelo Estadão ponderam, contudo, que o surgimento de novas subvariantes não necessariamente indica que vai haver maior transmissibilidade do vírus ou letalidade entre os pacientes neste momento da pandemia. Segundo explicam, a não detecção de algumas sublinhagens pelos testes rápidos, como ocorreu com a AY 33 em Belém, pode estar mais relacionada a características da testagem do que a uma aparente agressividade da cepa.

Ainda assim, complementam que os alertas reforçam a necessidade de uma vigilância genômica mais estruturada e de adotar medidas não farmacológicas. As orientações para a população continuam sendo completar o esquema vacinal contra a covid-19, manter distanciamento social e usar máscaras como a PFF2, que conferem maior vedação.

"A lista de sublinhagens vai estar sempre crescendo. Algumas podem desaparecer, pois ficam raras. De forma contrária, outras podem mudar de frequência e se tornar mais prevalentes", explica o virologista e pesquisador científico do Instituto Todos pela Saúde (ITpS) Anderson Brito. Segundo ele, a variante Gama (P.1, identificada originalmente em Manaus), que foi predominante no pico da pandemia no 1º semestre deste ano no Brasil, passou a ser substituída pela Delta a partir de agosto.

Com o avanço, a cepa adquiriu um predomínio significativo: 91,4% dos casos sequenciados no País de 29 de agosto a 9 de outubro são da Delta, aponta levantamento feito pelo Instituto Todos pela Saúde com base em dados depositados por laboratórios brasileiros no banco de dados Gisaid. A região Norte, segundo as informações coletadas, é a única que ainda vê predomínio da variante Gama e de suas várias sublinhagens.

"O vírus, quando infecta outras pessoas, sofre mutações. Quanto mais ele circula, assim como em um jogo de dados ele está sempre formando novas combinações", explica Brito. Esse seria um dos motivos que, segundo o virologista, fazem com que novas nomeações sejam criadas para as sublinhagens à medida que os registros vão sendo feitos. Com base nisso, pode-se observar novas tendências, mas a análise deve ser feita com cautela, reforça o virologista.

"No momento, não dá para dizer tanta coisa sobre a AY 4.2. Quanto mais dados tivermos, mais consistentes serão as conclusões", diz Brito. Segundo ele, diante do fato de o Reino Unido ter um monitoramento genômico "exemplar", em breve será possível análise mais robusta da AY 4.2, entendendo se dá para associá-la à nova alta de casos de covid em alguns países da Europa, como a Rússia. Se for, de fato, uma sublinhagem preocupante, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pode classificá-la como tal e medidas mais específicas podem ser tomadas.

Atualmente, reforça o pesquisador, já foram designadas 75 subvariantes do tipo AY no mundo. Segundo o último levantamento do ITpS, 25 sublinhagens da Delta foram identificadas no País. Além da linhagem parental (B.1.617.2), que segue predominante.

Vacinas são eficazes contra a Delta, mas é preciso tomar as duas doses

Até agora, os imunizantes contra a covid-19 usados no Brasil se mostraram eficazes contra a Delta, conforme estudos científicos. Nos casos das vacinas da AstraZeneca e da Pfizer, porém, as pesquisas reforçaram a necessidade de duas doses para garantir a proteção contra a variante.

"Variantes sempre vão surgir enquanto tiver um número grande de casos de covid, mas até este momento todas as vacinas protegem contra todas as variantes conhecidas", destaca o pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de pesquisa e desenvolvimento da Dasa, José Eduardo Levi. Segundo ele, um dos exemplos que reforçam isso é que, embora os casos tenham aumentado no Reino Unido com a chegada da Delta, eles não estão relacionados a aumento em igual proporção no número de mortes.

No Brasil, a vigilância genômica evoluiu. Primeiro, porque o número de casos sequenciados e registrados no Gisaid saltou de 2 mil, no início do ano, para cerca de 45 mil. E, como o número de diagnósticos positivos diminuiu no País, os casos sequenciados passaram a ser ainda mais representativos em termos proporcionais.

Uma das consequências deste novo momento, reforça Levi, é justamente conseguir identificar novas sublinhagens, assim como aconteceu em Belém. Segundo ele, o fato de a subvariante AY 33 ter dado falso negativo não necessariamente indica que ela escapa das detecções. Pelo contrário, aponta que o tipo de teste utilizado deve ser investigado e que, a depender do diagnóstico, testes com uma maior quantidade de "alvos" devem ser utilizados, assim como é feito na rede pública de outros países. A prática, afirma ele, propicia detecções mais precisas.

Em nota técnica publicada no fim de semana, o Ministério da Saúde informou que "os kits utilizados na rede nacional de laboratórios de saúde pública guardam sensibilidade e especificidade adequadas para a detecção de Sars-CoV-2, e desta forma, o teste de RT-PCR em tempo real deve continuar a ser o ensaio de escolha para o diagnóstico da covid-19".

Para Levi, a preocupação não é necessariamente "quando um novo nome aparecer, uma nova letra grega, mas quando houver uma variante que escape dos mecanismos de controle". Até agora, complementa Levi, "nenhuma escapou".

Professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde, Jorge Kalil destaca que só é possível saber o impacto que as sublinhagens ainda podem ter na pandemia se houver o acompanhamento. "Se começar a aumentar a frequência (de casos de novas linhagens), vamos saber que estão presentes", explica.

Kalil reforça que, normalmente, a sublinhagem deve apresentar alguma vantagem para que se estabeleça em determinado ambiente. Se isso ocorrer e a subvariante se mostrar, de fato, como mais transmissível, o professor reforça que os passos seguintes são estudar a eficácia específica das vacinas em relação a ela e trabalhar imunizantes que ataquem as variantes de forma ainda mais específica.

Estadão
Publicidade
Publicidade