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Aposta econômica de Biden pende mais para a esquerda, apesar do discurso moderado da eleição

Já se sabe que uma parte dos programas de Biden serão compensados pelo aumento de impostos sobre a classe média alta e sobre as grandes empresas

8 mai 2021 04h10
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As propostas apresentadas por Joe Biden ao Congresso dos EUA reuniram elementos de surpresa e ousadia por parte de quem se elegera defendendo conceitos mais moderados. A nova postura reflete posições à esquerda do Partido Democrata, que sustentam a conveniência de uma revisão no papel do Estado, especialmente no tocante ao aumento de sua participação no processo econômico. Os projetos divulgados, com cifras de alguns trilhões de dólares, envolvem não apenas questionamentos estruturais sobre preceitos de higidez econômica, desenvolvidos ao longo de décadas, mas também ideias de ampliação da intervenção do Estado utilizadas com sucesso no passado, mas em circunstâncias distintas, nas quais era notória a falta de alternativas para lidar com as crises existentes. Isso ocorreu de forma emblemática com o "New Deal" empregado por Roosevelt para enfrentar a depressão econômica. O fato está longe, porém, de assemelhar-se ao caso presente, tanto porque a economia norte-americana já dá sinais de recuperação, quanto porque, até princípios de 2020, antes da crise provocada pela pandemia, essa mesma economia alcançara uma situação próxima ao pleno emprego, e lograra elevação nos níveis de renda das minorias, isto é, de camadas menos afluentes da população.

Esse raciocínio sugere, portanto, que a iniciativa de Biden decorre menos de reflexões de cunho econômico, e mais de objetivos políticos e ideológicos. Não obstante, as propostas anunciadas se assentam em difícil aposta econômica que precisará ser acompanhada com atenção, à medida que seus componentes deixem o plano conceitual e se materializem objetivamente. Já se sabe que uma parte do grande aumento da dívida pública deverá ser compensada, na expectativa de seus proponentes, pelo aumento de impostos sobre a classe média alta e sobre as grandes empresas. Presume-se que outras parcelas desse maior endividamento seriam neutralizadas pelo maior crescimento da economia e das receitas a obter. Experiências pregressas ou mesmo correntes, no entanto, sugerem que, com a robusta sobrecarga fiscal a ser imposta ao setor empresarial, este poderá mimetizar, em escala nacional, o que tem acontecido no âmbito interestadual, com a migração de empresas localizadas em estados de taxação alta (como Califórnia e Nova York) para estados com impostos reduzidos (como Texas e Florida), levando consigo os respectivos postos de trabalho. Ora, se isso ocorrer em todo o país, investimentos e empregos poderão ser deslocados, não para outro estado, mas para outro país, um efeito sentido durante a gestão Obama que, indiretamente, contribuiu para a eleição de Trump.

Há que se considerar, por outro lado, em relação à dívida pública, que o comportamento mais recente da economia dos EUA, antes da pandemia, chegou a oferecer novos padrões analíticos, no contexto do que alguns estudiosos denominaram "moderna teoria monetária". Esse princípio teórico, que parece embasar boa parte das propostas de Biden, faz uma revisão dos tradicionais parâmetros de controle do endividamento público e do equilíbrio fiscal. Sustenta, em relação aos EUA bem entendido, que o governo pode endividar-se e criar recursos adicionais para se autofinanciar, até o ponto em que se detectem efeitos inflacionários. Por tal raciocínio, o endividamento de uma economia como a norte-americana não seria nocivo se os recursos recebidos forem bem empregados, e se seus custos forem cobertos por receitas decorrentes de contínuas taxas de crescimento. A teoria não é muito bem vista pelos quadros mais tradicionais do próprio Partido Democrata (caso do ex-secretário do Tesouro Larry Summers), para quem a proporção do aumento do custo financeiro da dívida e o vultoso acréscimo de recursos injetados na economia levarão a inevitáveis pressões inflacionárias e elevações nas taxas de juros.

Por certo que os propósitos de aperfeiçoar padrões sociais devem ser perseguidos com regularidade, seja qual for o grau de desenvolvimento das economias, até porque os países só devem ser considerados realmente desenvolvidos quando conseguem fazer evoluir em harmonia os seus recursos humanos e econômicos. Se não pairam dúvidas sobre a necessidade de avanços sociais, convém, por outro lado, que o processo de buscá-los seja sempre avaliado à luz dos custos e benefícios que suas etapas, de fato, acarretem. Em outras palavras, o combate às disparidades não deve ocasionar novos desequilíbrios que se possam somar aos preexistentes.

*EMBAIXADOR E EX-SECRETÁRIO DE COMÉRCIO EXTERIOR

Estadão
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