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Ansiedade e medo de ser rejeitado não combinam com amizades sólidas

Pequenos detalhes, que podem não significar nada, às vezes disparam um alarme falso e uma pergunta: 'O que fiz de errado?'

27 nov 2021 05h10
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Em 2017, enquanto estudava na Irlanda, Laura Hirsch ficou ansiosa, achando que seus amigos a estavam excluindo. Solitária e sem uma rede de confidentes por perto, Hirsch, agora com 24 anos, enviava incessantes mensagens de texto para seus amigos e ficava cada vez com mais medo quando eles demoravam mais que uns poucos minutos para responder. Apesar de ouvir deles que não estavam chateados com ela, Hirsch caiu numa ansiedade profunda.

No fim das contas, alguns amigos deram um passo atrás nas suas relações com Hirsch - porque se sentiram sobrecarregados com a necessidade de estar sempre disponíveis para ela. "Muitos deles sentiram que tinham a responsabilidade de responder e cuidar de mim o tempo todo, o que não é o que eu queria", diz Hirsch.

A ansiedade ao suspeitar que um amigo está chateado conosco é comum, em parte por causa da comunicação moderna e da maneira como nosso cérebro funciona. A pandemia parece ter exacerbado o problema. "Quando estamos num estado de pandemia e crise existencial, é mais provável que apareça esse tipo de pensamento", observa Kat Vellos, coach de conexão, palestrante e autora. A boa notícia é que essa sensação pode ser passageira. Ao chegar à raiz desses medos, conseguimos aprender como combater os temores de rejeição e abordar com confiança nossas preocupações.

A relação se desviou do padrão

Toda amizade tem rotinas e regularidades: a frequência dos encontros, o meio de comunicação, os tipos de atividades realizadas em conjunto. Quando esses padrões são interrompidos, um alarme dispara no cérebro, sinalizando alguma desconexão, afirma Amir Levine, psiquiatra e professor-assistente na Universidade de Columbia.

Como não estamos cientes de quando nossas amizades se desviaram do padrão de normalidade, ressalta Levine, o que nos resta é a sensação de que algo está errado. Mas, antes de tirar conclusões precipitadas, analise as interações usuais com esse amigo. Se essa pessoa cancela planos no último minuto ou precisa de algumas ligações antes de atender ao telefone, é provável que uma situação semelhante não seja um desvio de seu comportamento.

Certas ações são mal interpretadas

Quando não temos clareza sobre o status de nossas amizades ou dos motivos por trás das declarações ou ações de nossos amigos, partimos dessa ambiguidade e acabamos projetando rejeição, explica a especialista em amizades e psicóloga Marisa Franco, de Washington D.C. "Tendemos a perceber rejeição mesmo quando ela não existe", explica. A tecnologia só amplia essa ambiguidade, segundo a coach de amizade Danielle Jackson. É difícil interpretar o tom da fala em mensagens de texto ou determinar a razão de uma mensagem atrasada. E isso nos leva a presumir o pior.

A escritora Elsa Cavazos sabe que seus relacionamentos estão sólidos quando os amigos interagem com ela nas redes sociais. "Eles sempre curtem todas as minhas fotos", conta a jovem de 26 anos. Quando ela percebe que seus amigos não estão tão rápidos em curtir um post ou reduzem o uso de emojis, um buraco se abre no seu estômago. "Tenho amigos que trocam mensagens muito secas, mas não são secos pessoalmente", garante. "Se você manda um OK, fico com a sensação de que pode estar brava comigo, mas para você talvez seja só um jeito de contar que está tudo bem."

As ações em si não são o problema, mas sim nossa interpretação. Podemos atribuir significado incorreto a uma mensagem de texto não respondida e internalizá-la como um sinal de que a amizade está por um fio - quando, na verdade, o amigo talvez esteja só sobrecarregado, lembra Levine. "É fácil interpretar a ausência de comunicação como a presença de sentimentos de contrariedade", diz Vellos. "É importante estarmos cientes de que nossa interpretação não conta toda a história."

Você tem um estilo de apego diferente dos seus amigos

Desde tenra idade, desenvolvemos certos padrões, comportamentos e abordagens de relacionamento, caracterizados por quatro estilos de apego: seguro, ansioso, evitativo e evitativo com medo. Os marcadores do apego seguro aparecem quando as pessoas confiam e aceitam facilmente o amor e não têm medo da intimidade. As com estilo de apego ansioso têm medo de abandono e são ágeis em identificar ameaças nos relacionamentos. Alguém com evitativo deseja mais distância em seus relacionamentos. E o evitativo com medo combina os estilos ansioso e evitativo.

Embora não seja um fator que inviabilize a amizade, a incompatibilidade de estilos de apego pode levar um amigo com apego ansioso, por exemplo, a perceber a necessidade de espaço do amigo evitativo como rejeição. Nenhum estilo de apego é melhor do que os outros, de acordo com Levine, mas perceber que somos mais sensíveis quando se trata de relacionamentos pode ajudar a determinar se está surgindo alguma rixa ou se cada lado tem necessidades diferentes. Se você perceber que exige um alto nível de proximidade e validação dos amigos, priorize aqueles que dão essa atenção prontamente, aconselha Lavine.

O passado influencia o presente

Relacionamentos anteriores podem dizer muito sobre a maneira como abordamos os atuais. Pesquisas demonstram que a exclusão social é uma forma de bullying adolescente e que nossas experiências negativas na infância podem influenciar nossas crenças de agora. "Se passamos por isso na juventude, fica comum na idade adulta ter essa mesma sensação de 'eles estão me evitando'", explica Vellos. Mas também podemos usar a história a nosso favor para tentar entender por que nos preocupamos tanto com o status de nossas amizades, enfatiza Franco. Refletir sobre o passado nos permite localizar a origem de nossos medos e nos dá confiança por saber que a história não precisa se repetir.

Pensamento autocentrado

Pensamentos que se centram no que fizemos para deixar algum amigo chateado ignoram o fato de que o problema talvez nem tenha nada a ver conosco. O amigo que fez um comentário ambíguo ou cancelou planos pode estar sobrecarregado ou lidando com alguma crise pessoal. Jackson diz para despersonalizar o problema e demonstrar generosidade - conselho que Hannah Eagle, garçonete de 29 anos, levou a sério: "Nem tudo gira em torno do meu umbigo". Desde a infância, ela muitas vezes teve medo de que os amigos ficassem chateados com ela: se notasse que algum não tinha entrado em contato depois de alguns dias ou que não tivesse dado risada de suas piadas, achava que havia algo errado. Retirar-se da equação ajudou a diminuir a ansiedade. "Na maioria das vezes, as pessoas não estão pensando em você tanto quanto você pensa nelas pensando em você."

A única maneira de garantir que um amigo não esteja bravo é perguntando. Jackson recomenda coisas bem específicas: "Deveríamos nos encontrar na quinta, mas, no último minuto, você disse que não poderia vir. Está tudo bem?". Fundamentar a pergunta com detalhes e empatia garante que o amigo não se sinta atacado e abre a porta para uma conversa construtiva. "Gosto de sugerir que você tenha uma atitude de curiosidade antes de desenvolver toda essa suposição e entrar no assunto, porque talvez esteja acontecendo algo de que você não estava ciente", conclui Jackson. / Tradução de Renato Prelorentzou

Estadão
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