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A crise de despejo que se aproxima: 'É difícil pagar as contas sem nada'

Se o governo federal repetir os mesmos erros da última recessão, milhões de americanos vão perder seus apartamentos e casas

13 ago 2020
09h10
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Em Columbus, Ohio, os juízes realocaram as audiências de despejo para os cavernosos corredores do centro de convenções da cidade, para garantir que haja espaço suficiente para a árdua tarefa de jogar famílias na rua.

Em Nova Orleans, as pilhas de pertences pessoais nas calçadas - "lápides do despejo", na assombrosa expressão de Sue Mobley, membro da comissão de planejamento da cidade - são uma visão cada vez mais comum.

Em Savannah, Geórgia, o xerife do condado, John Wilcher, anunciou no início do mês que começaria a avançar com cerca de 500 despejos pendentes. Wilcher disse aos repórteres que não havia realizado despejos nos últimos cinco meses, mas que "depois desse tempo todo as pessoas deveriam ter sido capazes de chegar a algum tipo de acordo ou alguma outra coisa para não serem despejadas". O xerife não deu dicas sobre como encontrar emprego no meio de uma pandemia.

Na última vez em que a economia ficou à beira do precipício, em 2008, o governo federal embrulhou o sistema bancário em plástico bolha e permitiu que milhões de americanos perdessem suas casas. Agora, está prestes a cometer o mesmo erro, de novo.

Eu era repórter imobiliário durante a última crise. Passei longos dias com famílias jovens e senhoras de idade que tentavam desesperadamente se segurar, com agentes do xerife encarregados de removê-las de casas de empresas sem rosto, com dedetizadores enviados para evitar que as piscinas abandonadas se enchessem de mosquitos.

O governo tratou as desgraças de proprietários e locatários como meras tragédias pessoais que não mereciam a atenção do Departamento do Tesouro. O governo estava errado. As milhões de tragédias individuais exigiam ação. A nação é um coletivo de pessoas; a primeira tarefa do governo é proteger as pessoas.

Mesmo nos seus próprios termos, a indiferença do governo foi um erro. Os enormes deslocamentos destruíram comunidades, pois as famílias foram substituídas por casas vazias. As escolas sofreram para ajudar as crianças que se mudaram de um lugar para outro, cujas notas caíram e os problemas de comportamento aumentaram. As empresas perderam clientes. As cidades, famintas por receitas de impostos sobre a propriedade, reduziram os gastos: Colorado Springs desligou um terço dos postes de luz.

O acúmulo de tragédias individuais deixou cicatrizes duradouras na economia e na sociedade.

À medida que o coronavírus se espalhou pelo país na primavera, os parlamentares federais e as autoridades de muitos estados anunciaram proibições temporárias aos despejos, parte de um esforço mais amplo para enfrentar a pandemia suspendendo a atividade econômica. O governo federal também expandiu os benefícios para as pessoas que perderam o emprego, proporcionando a muitos os meios para continuar pagando a hipoteca ou o aluguel.

Mas a ajuda federal acabou no mês passado. Mais de 20% das famílias dizem que não vão conseguir pagar o próximo aluguel ou prestação da hipoteca, de acordo com uma pesquisa do Census Bureau. Algumas proibições de despejo se encerraram e outras terminarão em breve. Os americanos, mais uma vez, estão começando a perder suas casas.

Mas a situação pode ser pior do que da última vez. O país já enfrentava uma crise imobiliária mesmo antes da pandemia. Anos de baixa nas construções residenciais aumentaram os preços, principalmente nas áreas onde se concentram os empregos. Dezenas de milhões de famílias de baixa renda já vinham com dificuldade para conseguir um lugar onde morar. Milhões já eram despejadas a cada ano. E, desta vez, muitos mais americanos perderam seus empregos.

Em um memorando publicado na sexta-feira, um grupo de especialistas em política habitacional e de defensores das moradias populares disse: "Os Estados Unidos podem estar enfrentando a crise habitacional mais severa de sua história".

Alguns governos estaduais e locais estão tentando ajudar.

Em 2008, Aisha Wahab era uma estudante universitária de 19 anos que vivia na casa dos pais em Fremont, Califórnia. Ela viu a família perder sua loja de roupas nas proximidades de Oakland e, depois, sua casa. E testemunhou a ruína do casamento dos pais. Em 2012, Wahab e seu pai passaram a dividir um apartamento em Hayward, uma cidade próxima, com moradias mais baratas.

Wahab disse que a família nunca se recuperou. "Posso atestar 100% que minha família não está nem perto de onde estava antes de 2008", disse ela. Agora, aos 32 anos, ela é o membro mais jovem do Conselho Municipal de Hayward e está fazendo o que pode para prevenir outra crise. Hayward proibiu despejos até o fim de setembro. O condado de Alameda, onde fica a cidade, proibiu os despejos pelo menos até o fim do ano. Os inquilinos terão um ano para saldar os atrasos nos pagamentos do aluguel. Os proprietários, porém, devem negociar separadamente com seus credores. E não se sabe onde locatários e proprietários encontrarão dinheiro sem ajuda federal.

As autoridades locais estão simplesmente adiando o dia do acerto de contas. Mais cedo ou mais tarde, em Hayward e em todo o país, as moratórias de despejo vão chegar ao fim.

"O que vai acontecer no dia seguinte?", Wahab perguntou.

Matthew Desmond, sociólogo de Princeton, argumentou de maneira bastante convincente: o despejo não é apenas resultado da pobreza - é também uma causa da pobreza. A trajetória de queda, bem documentada em pesquisas sobre a última crise, é a mesma para proprietários e locatários. Pessoas que perdem suas casas também perdem também suas comunidades. Estudos mostram que elas geralmente se mudam para bairros menos caros e seus filhos acabam matriculados em escolas de qualidade inferior. O despejo prejudica a capacidade de manter o emprego. As pessoas que são despejadas sofrem taxas mais altas de problemas de saúde física e mental. Quando são casadas, o mais provável é que se divorciem. E é bem provável que acabem na rua.

Esta nova crise é uma continuação da última. Durante a última recessão, Renee Matthew foi demitida do escritório de advocacia onde trabalhava em Nova Orleans e, em seguida, perdeu sua casa para a execução hipotecária. Ela só conseguiu um novo emprego em 2015, como supervisora de um estacionamento no terminal de cruzeiros da cidade.

Em 15 de março, Matthew foi demitida mais uma vez. O seguro-desemprego federal permitiu que ela continuasse pagando os US $ 929 de aluguel mensal, mas o último benefício federal chegou no fim de julho. Agora ela está recebendo apenas $ 232 por semana em benefícios estaduais. Ela conseguiu pagar o aluguel de agosto e pode até pagar o de setembro, mas não vê como poderá pagar o de outubro.

"Minha vida está paralisada", disse Matthew. "Você fica deprimida. Começa a descontar as pequenas coisas nas pessoas ao redor".

O governo federal tem o poder de evitar a crise impondo uma moratória aos despejos de inquilinos em todos os estados até o fim do ano. Seria tempo suficiente para criar um programa de ajuda federal para pessoas que não conseguem pagar o aluguel. A abordagem mais direta seria dar vales-moradia federais a todas as famílias necessitadas.

(A aparente simplicidade das propostas de perdão de aluguel é enganosa. Isto apenas moveria os problemas para cima na cadeia alimentar. Aproximadamente metade dos apartamentos pertencem a pequenos proprietários, muitos dos quais enfrentarão a execução hipotecária se não conseguirem pagar suas próprias hipotecas, o que também acarretaria despejos de inquilinos).

Esta crise está afetando mais os inquilinos do que os proprietários, porque as perdas de emprego se concentram nas famílias de baixa renda, e a última crise reduziu drasticamente a propriedade de imóveis entre essas famílias. Mas muitos proprietários também precisam de ajuda. O Congresso pode facilitar as modificações nas hipotecas alterando as leis de falência que impedem os tribunais de reduzirem a maioria das dívidas hipotecárias. O presidente Barack Obama prometeu fazer a mudança durante a campanha de 2008, mas não o fez enquanto estava na Casa Branca. Joe Biden, o presumível candidato presidencial democrata, assumiu o mesmo compromisso - espero chegue a um resultado diferente.

Perguntei a Matthew se ela tinha alguma mensagem para os parlamentares em Washington.

"Preciso de ajuda", ela disse. "É difícil pagar as contas sem nada".

Também tenho uma mensagem: não há desculpa para cometer o mesmo erro duas vezes./TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Como as novas variantes do coronavírus podem afetar a vacinação contra covid
Estadão
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