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Como a Alemanha lida com os tremores de Merkel

11 jul 2019
16h44
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Após novo tremor, chanceler federal recebe premiê da Dinamarca sentada. Ao falar abertamente sobre sua saúde, líder alemã quebra paradigmas num país onde demonstrar debilidade já foi um tabu entre governos anteriores.Por que ninguém pensou mais cedo nesta simples solução? Durante a cerimônia de recepção à nova primeira-ministra dinamarquesa nesta quinta-feira (11/07), em Berlim, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e sua convidada Mette Frederiksen simplesmente se sentaram em cadeiras. Muito tranquila e sem apresentar tremores, Merkel escutou os hinos nacionais dos dois países.

Merkel (dir.) e Frederiksen escutam sentadas os hinos nacionais durante cerimônia em Berlim
Merkel (dir.) e Frederiksen escutam sentadas os hinos nacionais durante cerimônia em Berlim
Foto: DW / Deutsche Welle

Na véspera, a líder de 64 anos havia sofrido seu terceiro tremor dentro de poucas semanas, enquanto estava de pé no pátio principal da chancelaria recebendo o primeiro-ministro da Finlândia, Antti Rinne. Pouco tempo depois, ela se apresentou da forma como todos a conhecem por todos esses anos: calma, objetiva e sem grandes emoções.

Com um leve sorriso no rosto, ela afirmou: "Eu estou bem. Já disse outro dia que estou atualmente numa fase de tratamento desde as cerimônias militares ao lado do presidente [ucraniano Volodymyr] Zelensky", quando ocorreram os primeiros tremores, em meados de junho. "Aparentemente, essa fase ainda não terminou, mas há progressos. E eu tenho que viver com isso durante algum tempo ainda. Eu estou muito bem. Não é preciso se preocupar comigo." Merkel disse isso apenas uma hora depois de, mais uma vez, ter tremido intensamente.

A chanceler federal está doente? Suas forças estão chegando ao fim? No dia seguinte ao último episódio de tremores, o maior tabloide alemão escreveu em sua capa: "Simplesmente não para!"

De fato, Merkel recebeu o novo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em meados de junho e, no pátio da chancelaria, tremeu violentamente. Nove dias depois, aconteceu novamente, dessa vez no Palácio Bellevue, durante a posse da nova ministra da Justiça: a chanceler federal alemã tremeu, segurou as mãos na frente do corpo, mas logo voltou a seu estado normal.

Sobre o primeiro incidente, ao lado do presidente ucraniano, o governo alemão afirmou que Merkel havia bebido pouco líquido. De fato, o calor havia sido particularmente intenso naquele dia em Berlim. Após o segundo episódio, jornalistas souberam pela chancelaria que a causa poderia ser algum tipo de reação psicológica - o que Merkel agora confirmou oficialmente.

O que parece claro e muito compreensível, no entanto, foi tratado como assunto secreto de Estado pelo gabinete de imprensa do governo. Poucos minutos antes de Merkel afirmar abertamente que teria de viver com o tremor ocasionalmente, sua porta-voz, Ulrike Demmer, ponderou dizendo que estava tudo bem com a chanceler federal.

"Ela participou de todos os seus compromissos da melhor forma nas últimas três semanas", frisou Demmer. E isso é verdade: Merkel não cancelou nenhum compromisso e negociou até altas horas da noite durante a cúpula do G20, no Japão. A líder reiterou: "Estou bem!"

Político doente? Novidade na Alemanha

É novidade que exista uma discussão relativamente aberta na Alemanha sobre o estado de saúde da chanceler federal e sobre como ela se posiciona em relação a isso. Afinal, no passado, comunicações sobre a saúde dos chefes de governo eram uma exceção.

Willy Brandt, chanceler federal da Alemanha pelo Partido Social-Democrata (SPD) no início dos anos 1970, viveu longas fases de depressão sem que os alemães soubessem. Em 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim, Helmut Kohl sobreviveu a uma tentativa de golpe de críticos internos de seu partido numa conferência da União Democrata Cristã (CDU), e isso com uma dor infernal devido a uma doença na próstata. Na época, ninguém ficou sabendo da situação.

Aparentemente, os chanceleres federais sabiam o que estavam fazendo. Os alemães, para quem a confiança na política é um bem valioso, não gostam quando seus líderes ficam debilitados - e, normalmente, também não têm interesse em saber disso.

Na Alemanha, mais do que em outras democracias, os políticos usufruem ainda de uma esfera de privacidade. Em outros países, isso é visto de forma bem diferente: os Estados Unidos, por exemplo, divulgam relatórios com os níveis sanguíneos do presidente. Na França também não é impróprio falar sobre o estado de saúde do chefe de Estado, pelo menos não até hoje.

Mas o exemplo americano mostra também que nem sempre foi esse o caso: os presidentes Franklin D. Roosevelt e John F. Kennedy ficaram gravemente doentes durante seus mandatos, mas a população não ficou sabendo na época.

Agora, a relação entre opinião pública e doença está mudando também na Alemanha, e casos individuais contribuíram para isso. A popular governadora do estado da Renânia-Palatinado, Malu Dreyer, do SPD, sempre falou abertamente sobre sua esclerose múltipla. Ditaduras e democracias controladas dificilmente fazem isso.

Seja no Leste Europeu, Ásia, África ou América Latina, ditadores e autocratas não ficam doentes, pelo menos não oficialmente. Para sustentar essa imagem de líder saudável, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anda a cavalo com seu tronco à mostra em meio a paisagens rurais.

Na Alemanha, durante as honras militares, Merkel retirou o drama do debate sobre seu estado de saúde. Ela própria disse: "Tenho que viver com os tremores agora."

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