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Os impactos de Glasgow

Reunimos as principais decisões da Cop26 e como elas podem impactar setores como pecuária, energia, sistemas financeiros e transporte

2 dez 2021 19h10
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Foto: iStock

As negociações da Conferência do Clima da ONU em Glasgow (COP26) foram encerradas no dia 13 de novembro, e a influência das principais decisões já começam a refletir em outras negociações internacionais e projetos de leis nacionais. Reunimos algumas das principais decisões da COP26 e como elas devem impactar o ano de 2022 em setores como pecuária, finanças, energia e transportes. 

Planos climáticos claros

Todos os principais emissores - o Brasil é sexto maior deles - serão obrigados a retornar em 12 meses e explicar na ONU como suas políticas e planos para toda a economia estão alinhados com os objetivos do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C - já está em 1,2°C. Os próximos meses serão cruciais para determinar se os países tomarão medidas alinhadas a 1,5°C - o que significa reduzir as emissões em 45% até 2030.

Combustíveis fósseis

Na reta final das negociações os maiores emissões do mundo - EUA, China, União Europeia e Índia - fizeram um acordo entre si para mudar o texto do acordo de "eliminar progressivamente" a energia do carvão e dos combustíveis fósseis (fase-out), para "reduzir progressivamente" (fase down). Isso tirou um pouco da força do texto, que ainda mantém um feito: pela primeira vez os combustíveis fósseis, principal causa da crise climática, foram nomeados pelos 198 signatários do Acordo de Paris.

Um acordo de 24 bilhões de dólares para parar o financiamento de combustíveis fósseis no exterior têm o potencial de empurrar o corte de emissões, mas isso ainda depende de ratificação pelos governos nacionais. 

Um acordo paralelo específico sobre eliminar a energia do carvão ganhou adesão de 77 países. O Brasil não é um deles, apesar de a energia do carvão ser produzida apenas nos estados Sul e de ser um dos principais fatores que encarecem a conta de luz em nível nacional.

Financiamento climático

Como na pandemia de COVID, a solidariedade global não estava presente em Glasgow. O que ficou acertado é que em 2025 os países desenvolvidos precisam duplicar seus fundos coletivos para adaptação à mudança do clima nos países pobres que já estão enfrentando as consequências das mudanças do clima. 

Isto representa uma pequena melhora - atualmente, apenas 25% do financiamento climático é usado para adaptação, com o restante sendo usado apenas na mitigação, ou seja, no socorro imediato às vítimas de eventos extremos. 

Apesar de ser um avanço, isso não proporcionará os bilhões necessários para a adaptação que os países mais pobres precisam. As nações africanas gastam em média até 10% do PIB por ano em adaptação à mudança do clima, enquanto os impactos poderiam atingir 20% do PIB das nações pobres até 2050, conforme estimativa da Christian Aid.

O tema do financiamento climático deve ser a principal arena de disputa diplomática na COP27, que será realizada no balneário Sharm El-Sheikh, no Egito, em novembro de 2022. 

Acordo de Floresta

Depois do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhecer a importância das florestas na regulação do clima global e limitar o aquecimento a 1.5˚C neste século, o mundo finalmente acordou. Mais de 100 países concordaram em destinar US$ 12 bilhões à conservação e restauração desses ecossistemas, responsáveis pela absorção de  aproximadamente 30% de todas as emissões de CO2. 

Com quase 60% da maior floresta tropical do planeta, a Amazônia, além de outros importantes biomas, o Brasil seria um destinatário natural desses recursos - beneficiando diretamente a população amazônida. Mas isso depende da capacidade do país de provar que pode combater o desmatamento. O Congo, segundo país mais central para os resultados do acordo, já saiu da COP26 com um fundo para conservação da Floresta da Bacia do Congo. 

Metano

Outro reflexo do Relatório do IPCC sobre a COP26 é o acordo para cortar em 30% as emissões de metano até 2030. Isto será um desafio para o setor de criação de gado bovino e pecuária, responsável por 44% das emissões deste poderoso gás causador do efeito estufa. A primeira tarefa é os produtores calcularem com exatidão seu montante de emissão de metano, já que os dados sobre isso ainda são considerados pouco confiáveis.  

Carros

Um acordo foi assinado por 24 países e por um grupo de fabricantes de automóveis, para encerrar a venda de carros movidos a combustíveis fósseis até 2040 "ou antes". Entre os mercados que se comprometeram com a meta estão Canadá, Nova Zelândia, Holanda, Irlanda e Reino Unido. Ford, Volvo e Mercedes-Benz estão entre as montadoras que prometeram atingir a meta até 2035 em "mercados líderes", assim como em várias cidades e governos regionais, como Nova York, Londres e Barcelona. 

O papel dos bancos

Os principais bancos agora se comprometeram a alinhar seu dinheiro à meta de emissão zero líquida ainda nesta década e enfrentarão um exame minucioso sobre como vão cumprir suas promessas ecológicas, cortando recursos aos combustíveis fósseis e outros ativos com alto teor de carbono.

Os tais créditos de carbono

O chamado livro de regras de Paris teve sua negociação finalmente concluída. Com isso ficará mais difícil dar "pedaladas" em planos climáticos nacionais.

Todos os países precisam relatar até 2024 dados detalhados sobre as emissões que formam a linha de base a partir da qual as futuras reduções serão calculadas.

A negociação sobre o mercado de carbono, outro ítem do livro, também foi encerrada, criando um regime de comércio estruturado entre países, mas a linguagem acordada não é suficientemente clara para impedir as empresas de trapacear.

Vigiando as empresas 

Em resposta aos temores de que as empresas continuem apresentando planos climáticos falsos - o chamado greenwash - um novo grupo de especialistas será criado em 2022 para avaliar os planos zero-líquidos corporativos (Net Zero), conforme anúncio do Secretário Geral da ONU, António Guterres. Uma questão-chave será se esses planos impulsionam realmente a redução de emissões, se fazem apenas compensações ou se são mentiras pintadas de verde. 

Foto: Climatempo
Climatempo
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