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Transformações precisam de rumo

Ano de 2020 contribuiu para o combate ao racismo estrutural, diz consultor, citando pandemia, caso Floyd, pauta ESG e campanha presidencial americana

27 jun 2021 15h05
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O debate sobre o racismo estrutural, um dos temas importantes quando se discute a temática ESG, serve de exemplo para mostrar que, além de velocidade de transformação da sociedade como um todo, onde se quer chegar também é importante. Se há 20 anos a negação do problema era quase unânime no País, políticas públicas como a das cotas e, principalmente, quatro episódios registrados de forma simultânea no ano passado podem ser considerados como divisor de águas, na avaliação do consultor de diversidade e inclusão Ricardo Sales.

"Na questão de um maior engajamento contra o racismo estrutural, o ano de 2020 foi um ponto de inflexão, como nenhum outro, basicamente por quatro razões. A primeira é a pandemia. A segunda o assassinato do George Floyd, que provocou mudanças importantes no próprio mundo empresarial. O terceiro é o avanço de toda a pauta ESG. O quarto ponto foi a campanha eleitoral nos Estados Unidos, onde a chapa vencedora Biden-Harris colocou o enfrentamento ao racismo estrutural como ponto central da administração", afirma Sales.

O Sócio da Mais Diversidade, há 15 anos no ramo, explica que um termômetro da transformação é o próprio dia a dia dele. "Até 2018, o meu principal interlocutor nas empresas era o vice-presidente de Recursos Humanos. Desde o ano passado, é a liderança mais sênior e o conselho de administração, o que mostra uma mudança importante na visão das empresas", avalia.

Para Sales, mesmo no Brasil, aqueles tempos em que a maioria das empresas negava a existência do problema do racismo estrutural ficaram para trás. "É verdade que estou falando com base em um recorte, de um grupo de empresas que representa a elite do setor. Neste contexto, a consciência sobre o racismo estrutural é maior."

Apesar de existir todo um caldo de cultura empurrando a sociedade para uma mudança estrutural, a velocidade com que ela ocorre pode ser avaliada com base em alguns números apresentados por Sales durante o Summit ESG Estadão, realizado entre os dias 15 e 18 de junho. "Além da velocidade da transformação, também é preciso ter rumo. Muito ritmo sem direção pode nos consumir anos e nos levar a lugar nenhum. A pesquisa que fizemos no ano passado com 300 organizações brasileiras mostrou que 65% delas não têm uma estratégia para diversidade e inclusão e isso é sintomático quando queremos falar sobre onde se quer chegar."

Na academia

Os desafios para incluir e promover a diversidade, e não apenas dos negros, estão presentes tanto nas organizações privadas quanto no universo público, como é o caso da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que nos últimos 20 anos também passou por uma revolução em todos os sentidos.

Além de uma expansão física, com o surgimento de câmpus nas cidades de Diadema, Guarulhos, Osasco, Santos e São José dos Campos, além de um outro na zona leste de São Paulo, o arrocho orçamentário, nos últimos anos, coincidiu com uma mudança no perfil dos ingressantes na escola. Mais da metade dos alunos da instituição federal tem uma renda mensal de até 1,5 salário mínimo. O que faz com que as mudanças no ensino precisem ser acompanhadas por mudanças internas, de processos e de gestão.

"Na gestão da Unifesp existem pessoas, nos altos cargos de gestão, que representam os diversos grupos. A discussão sobre inclusão e diversidade é uma diretriz sempre presente", afirma a cientista social Raiane Assumpção, vice-reitora da Unifesp. Segundo ela, a partir desse cenário uma grande reestruturação passou a ocorrer.

"Hoje, por exemplo, temos a comissão sobre diversidade de gênero e a de diversidade sexual. Para que essas mudanças também não dependam de uma iniciativa pessoal, e fiquem atreladas a quem está na gestão, tudo isso está embasado pelas políticas estruturantes da universidade." A instituição, a partir de 2013, criou rotinas profundas para que ideias sobre o papel da universidade fossem debatidas à exaustão. "O programa de desenvolvimento institucional da Unifesp prevê diretrizes, painel de acompanhamento de indicadores e comitês. Tudo para permitir que a comunidade acompanhe o que está ocorrendo. É uma tarefa bastante grande, mas que tem possibilitado um processo de mudança significativo", avalia a vice-reitora da Unifesp.

Estadão
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