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Setor privado sai em defesa do clima

Grandes empresas brasileiras, de diversos setores, definiram prazos e planos de ação para zerar as emissões de gases de efeito estufa

27 jun 2021 15h11
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A iniciativa privada costuma ser mais ágil que o poder público quando o cenário pede adaptação a novos contextos. Além disso, na situação atual do Brasil, é notório que o governo federal não está alinhado às boas práticas de sustentabilidade. A soma desses aspectos amplia o protagonismo das empresas brasileiras no combate à crise do clima.

Para Carolina Genin, diretora de clima do instituto de pesquisas WRI Brasil, o País desfruta de situação privilegiada no processo de transição para uma economia de baixo carbono. Estudo recente liderado pela organização, intitulado "Uma nova economia para uma nova era - elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil", demonstra que o País pode levar adiante políticas de redução das desigualdades e de promoção do desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, fomentar a atividade econômica e a geração de empregos.

"Não precisamos começar do zero, reinventar a roda. É só dar sequência ao que já temos", afirmou Carolina. A modelagem econômica realizada para o estudo projeta que acelerar a transição para a economia de baixo carbono no Brasil poderia resultar, até 2030, na geração de 2 milhões de empregos e de R$ 2,8 trilhões adicionais no Produto Interno Bruto (PIB), além de ser um aspecto decisivo para a atração de investimentos estrangeiros. "Os principais setores da economia brasileira, especialmente o agronegócio, devem assumir o protagonismo desse processo", observou Carolina.

Net Zero, a missão

O setor do agronegócio esteve representado no debate por Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, um dos maiores players globais da indústria de alimentos. Ele lembrou que o mundo enfrenta o desafio de alimentar uma população que continuará crescendo, até chegar a quase 10 bilhões de pessoas por volta de 2050 - e isso terá de ser feito em paralelo à redução do ritmo do aquecimento global.

Tomazoni descreveu a meta Net Zero assumida pela empresa - zerar as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040. "Definimos esse objetivo não apenas porque é a coisa certa a fazer, mas porque é o único caminho que temos", afirmou o executivo. Para desenvolver as várias frentes de ação relacionadas à meta, a companhia projeta investimentos de US$ 2 bilhões no fomento da inovação interna.

O CEO da JBS reconheceu que a empresa tem grande responsabilidade como intermediária entre os produtores de carne e os consumidores. "Já monitorávamos os nossos fornecedores diretos, e agora criamos uma plataforma para monitorar os fornecedores dos fornecedores, algo que se tornou possível com a tecnologia de blockchain."

Outra das maiores empresas brasileiras, a Vale, também participou das discussões do Summit ESG Estadão. Hugo Barreto, diretor de Sustentabilidade e Investimento Social da companhia, lembrou que a mineração é um setor repleto de desafios e de riscos para administrar. "Ao mesmo tempo, é uma atividade essencial para a sociedade contemporânea e tem grande importância para a economia do Brasil. Representa 3% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) e contribui decisivamente para a balança comercial", descreveu.

A empresa anunciou recentemente o compromisso de recuperar e proteger 500 mil hectares de florestas até 2030, parte do esforço para alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Esse trabalho será realizado de forma integrada a outra linha de ação da Vale, o fomento de negócios com impacto socioambiental positivo, capazes de criar renda e empregos às comunidades que vivem em biomas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica.

Não há mais tempo

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) também contribuiu com as discussões sobre o protagonismo do setor privado no combate à crise climática. O superintendente de Comunicação, Fabio Toreta, lembrou que a sustentabilidade está naturalmente integrada ao core business da companhia. Para ele, a adoção pela Sabesp das melhores práticas exigidas pelo mercado tem sido impulsionada há muitos anos pela composição de capital misto - o principal acionista é o governo de São Paulo, mas 49,7% das ações pertencem a empresas privadas.

A segurança hídrica é uma questão de especial interesse para a Sabesp, pois afeta diretamente o setor de abastecimento de água. Depois da crise de 2014-2015, em que foi preciso acionar o volume morto do Sistema Cantareira, a companhia realizou uma série de obras para reduzir os riscos de que essas dificuldades voltem a ocorrer, a exemplo de interligações de mananciais e criação de outros sistemas para a produção de água. "Estamos neste momento com um índice pluviométrico menor do que naquele período e, ainda assim, a situação está tranquila", afirmou o executivo.

Para Carolina Genin, do WRI Brasil, há setores mais avançados na corrida pela sustentabilidade, enquanto outros parecem ainda não ter se dado conta da urgência do tema. Um exemplo citado por ela é a indústria automobilística brasileira. "É um setor que está tentando ganhar tempo ao manter padrões que não são mais aceitáveis", afirmou. O grande problema é que não há mais tempo a ganhar - só a perder.

Governo sem agenda

Se o Ministério do Meio Ambiente pretende "passar a boiada", a agenda econômica do governo brasileiro ainda está distante de adotar um perfil "verde". Questões como a tributação do carbono e o incentivo a programas de emprego sustentáveis, por exemplo, ainda não conseguem avançar com mais afinco no Brasil. Essas reflexões fizeram parte do último painel do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão, que teve como convidados Alberto Bombig, editor da Coluna do Estadão, e Pedro Fernando Nery, consultor de economia no Congresso e colunista do jornal, e mediação da jornalista Karla Spotorno.

Para Bombig, o atraso nas políticas sobre os temas não é surpresa porque a agenda ambiental do governo "vai na contramão" do que apontam os especialistas. "Pode parecer pouco, mas, para o meio ambiente, os resultados de uma coisinha pequena que mexe em Brasília são literalmente devastadores." Avançando para o social, entre discussões sobre o auxílio emergencial e o impacto econômico da pandemia, segundo Pedro Fernando Nery, "o difícil mesmo é pensar em uma política (assistencial) permanente".

Estadão
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