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Projeto brasileiro de agricultura sustentável é destaque em evento global na ONU

A propriedade rural da família de Otto de Oliveira Valadares, no noroeste de Minas Gerais, perdeu 60 cabeças de gado por falta de alimentos em 2016. Três anos depois, adoção de tecnologias sustentáveis mudaria o destino do lugar

28 set 2019
15h38
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Nova York - A propriedade rural da família de Otto de Oliveira Valadares, no noroeste de Minas Gerais, perdeu 60 cabeças de gado por falta de alimentos em 2016. Com a seca e as pastagens degradadas, os animais perdiam peso e a propriedade, lucro. "A fazenda estava na UTI", relata Valadares. Três anos depois, tudo mudou: nenhum animal morreu, a produtividade aumentou e os vizinhos se interessaram pela adoção de tecnologias sustentáveis de produção.

Essa é a história que Valadares contou neste sábado, 28, no Global Landscapes Forum, em Nova York, na sede da Organização das Nações Unidas, em um dos principais eventos mundiais que apresentam boas práticas e inovações no uso sustentável da terra. Desde a greve global do clima, no dia 20, a ONU tem sido palco de eventos com pessoas dos cinco continentes para discutir mudanças climáticas e apresentar soluções de desenvolvimento sustentável.

Valadares, que veio representar a mãe, a agricultora Antônia Luíza de Oliveira, de 76 anos, é um dos 7,8 mil produtores rurais brasileiros capacitados pelo projeto ABC Cerrado, uma parceria entre o Ministério da Agricultura, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que utilizam recursos do Fundo de Investimento em Florestas (FIP) para incentivar a adoção de tecnologias sustentáveis de produção agropecuária. No total, são US$ 10,6 milhões.

O projeto trabalha com quatro técnicas: integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), recuperação de pastagens degradadas, sistema de plantio direto e as florestas plantadas. Desde 2016, 93 mil hectares de pastagens degradadas foram recuperadas. Os 7,8 mil agricultores fizeram um curso de 56 horas e 1.957 foram selecionados para receber um acompanhamento mensal de 18 meses com técnicos do Senar, que os auxiliaram na implementação das tecnologias. Os Estados beneficiados são Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Piauí e Tocantins.

A técnica adotada pela família de Valadares, que tem cerca de 500 cabeças de gado no interior de Minas, em Arinos, é a da integração entre lavoura e pecuária. Eles decidiram plantar, em 50 hectares, sorgo e pastagens. Com a colheita do grão, foi possível ter alimentos para os animais durante a seca, já que está caro comprar de fazendas vizinhas ou alugar pastos. Além disso, com o manejo adequado da pastagem, os animais passaram a ter uma fonte de alimento em maior abundância, o que nem sempre ocorria. "Estávamos em uma situação muito difícil e hoje, fazendo tudo conforme as técnicas, temos mais alimentos para os animais, produzimos mais e com uma durabilidade muito maior das pastagens", disse.

Para Mateus Tavares, coordenador do ABC Cerrado e assessor técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, é necessário que cada vez mais produtores adotem as tecnologias para aumentar a eficiência e produzir mais na mesma área.

"O produtor precisa receber informação e auxílio, e a assistência técnica se mostrou uma ferramenta bastante eficiente", afirmou. "Quando comparamos um produtor que recebeu assistência a um que não, vemos que eles usaram 34% mais tecnologias sustentáveis. A assistência técnica é a ferramenta indispensável para que ocorra transformação na forma de se produzir."

O produtor rural concorda e usa sua mãe, que fez o curso de 56 horas de capacitação, como exemplo. "Em qualquer a idade a pessoa pode absorver informações tecnológicas novas. Não tem idade para se fazer, é questão de boa vontade para fazer a transformação." Hoje, a fazenda deles, de 1,7 mil hectares, é vista como um modelo para outros agricultores da região.

Estadão
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