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Os bichos ressurgiram: tartaruga, marsupiais e anfíbios que estavam desaparecidos voltam à cena

Diabo-da-Tasmânia selvagem e possível centenária de Galápagos ganharam destaque porque podem recuperar populações de espécies consideradas extintas; no Brasil, pesquisadores localizam animais desaparecidos e procuram 'sumidos'

5 jun 2021 13h02
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Cientistas têm encontrado bichos que se pensava estarem extintos na natureza, despertando interesse mundo afora. Animais raros como o diabo-da-Tasmânia (Sarcophilus harrisii) em estado selvagem, um mamífero marsupial da Austrália, e uma tartaruga de Galápagos (Chelonoidis phantasticus), "queridinha sumida" dos seguidores do naturalista britânico Charles Darwin, deram as caras no mês passado como recém-nascidos e reservados anciãos. As surpresas não param aí. Recentemente, pesquisadores brasileiros localizaram animais que estavam desaparecidos em algumas áreas do País.

Um estudo de pesquisadores de herpetologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no Parque Nacional de Itatiaia, Rio de Janeiro, concluído em 2020, revelou o "ressurgimento" da rãzinha-verrugosa-da-serra-de-luederwaldt (Holoaden luederwaldti). O pequeno anfíbio, coberto de bolinhas, não era visto naquele local desde 1957.

A rã mede entre três a cinco centímetros e integra a lista nacional das espécies ameaçadas de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio). É avaliada como "espécie com dados insuficientes". "A gente acreditava que ela não existisse mais no Parque Nacional de Itatiaia", diz Paulo Christiano de Anchietta Garcia, que coordenou o estudo, financiado pelo CNPq e pela organização internacional The Mohamed bin Zayed Species Conservation Fund, dos Emirados Árabes, ao lado da pesquisadora Bárbara Zaidan.

A descoberta ocorreu em área de divisa entre os municípios de Itamonte (MG) e Itatiaia (RJ) no Parque Nacional do Itatiaia, área de morros (entre Rio e Minas Gerais). O cientista explicou que há registros da presença desse pequeno animal em outros locais do Brasil, mas a rãzinha não era vista no parque havia 60 anos.

"Agora, vamos para outra fase do projeto para tentar entender o desaparecimento mesmo dentro de ambientes ainda íntegros", explica o pesquisador. A proposta é aumentar a área de busca dentro e fora do parque para avaliar se o animal é da mesma espécie de anfíbios encontrados em outras áreas de mata e se há possibilidade de ampliação da população.

Antes da rãzinha-verrugosa-da-serra-de-luederwaldt, outra espécie, igualmente desaparecida na região por décadas, a Hylodes regius, havia sido encontrada pelo projeto "Diversidade desaparecida - procura de espécies de anfíbios consideradas desaparecidas no Parque Nacional de Itatiaia", coordenado por Garcia na pós-graduação em Zoologia e em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre.

Segundo o professor, há histórico de ocorrência da espécie desde São José dos Campos, mais precisamente São Francisco Xavier, municípios paulistas, até Itamonte (MG). "Já estava sendo considerada extinta no parque. De 2009 para cá, tivemos registros da espécie em Sapucaí Mirim e Campos do Jordão e em outras localidades do nordeste e no sul de Minas, na Serra da Mantiqueira", afirma.

Diabo e tartaruga

Para o cientista Paulo Garcia, as localizações de animais que se supunha estarem perdidos para sempre na natureza são fatos científicos importantes. No caso da tartaruga de Galápagos, porém, a localização de um único indivíduo não pode ser vista como recuperação da espécie.

"Encontrar uma tartaruga não significa que a espécie não está extinta, porque se ele não tem como se reproduzir, não está formalmente extinto, mas quando esse representante morrer, ela estará, sim, extinta", afirma. "Uma espécie extinta, que foi redescoberta, com base num único indivíduo?", questiona. "Precisamos ver se há condições de reprodução".

Já Luís Fábio Silveira, ornitólogo do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, o caso da reprodução do diabo-da-Tasmânia na Austrália não se qualifica como um caso de extinção porque a espécie, de fato, nunca desapareceu por completo. "Na Austrália continental, a espécie havia sido extinta há 3.000 anos e os exemplares que foram reintroduzidos lá se reproduziram, como esperado. Nada de mais, mas sempre uma boa notícia", diz o pesquisador do Museu de Zoologia da USP.

Para Silveira, o caso da tartaruga de Galápagos é o que chama mais atenção. "Sim, é um fato notável", afirma. "É um caso clássico de uma espécie que era dada como extinta e que um indivíduo foi reencontrado". Mas ele faz uma ressalva: "Do ponto de vista técnico, apenas um indivíduo não ajuda muito, porque a possibilidade dessa espécie se reproduzir é nula, a não ser que seja uma fêmea grávida", pontua. "Aponta para a possibilidade de procurar por novos indivíduos remanescentes no mesmo habitat onde este animal foi encontrado".

Sumiço da pararu-espelho

Silveira é um estudioso da vida animal e um especialista em aves. Na última semana de abril, com um grupo de cientistas, publicou um artigo na revista científica Frontiers in Ecology and Evolution sobre um raro pombo de floresta, a pararu-espelho (Paraclaravis geoffroyi). Esta ave da região da Mata Atlântica não é vista na natureza pelo menos desde os anos 1990.

"Os registros inequívocos da presença dessa espécie na natureza datam da década de 1990. Depois disso, mais nada", afirma o pesquisador do Museu de Zoologia, que assina a pesquisa com colegas. Os dados atuais e as modelagens apontam para uma situação crítica da espécie.

A ave tem como preferência ambientes com a presença de bambu, que fornece alimento para a espécie com sementes, floração e brotos.

"As principais áreas de ocorrência foram bastante trabalhadas, sem sucesso em encontrar a ave. Há algumas poucas áreas que não suficientemente inventariadas no Brasil e na Argentina, e que eventualmente podem abrigar alguns poucos indivíduos. Mas, dado o esforço de busca e os dados que temos disponíveis, a espécie deve ser considerada como provavelmente extinta", diz o cientista.

Estadão
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