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O que está acontecendo com a Amazônia em dez perguntas e respostas

As queimadas de fato bateram recorde? O desmatamento subiu? Em dúvida sobre as muitas questões envolvendo a Amazônia nas últimas semanas? Siga o fio que a gente explica tudo aqui

25 ago 2019
21h35
atualizado em 26/8/2019 às 12h11
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A Amazônia virou o foco das atenções nas últimas semanas com notícias sobre aumento do desmatamento e das queimadas, com declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro e com intensa repercussão internacional. Entenda:

1. A Amazônia está queimando mais neste ano?

O número de focos de incêndio para todo o Brasil entre 1.º de janeiro e 24 de agosto era o maior dos últimos sete anos para este período. O Programa Queimadas, do Inpe, registrou até a data 79.513 focos, alta de 82% em relação ao mesmo período do ano passado. Desde 2013, o ano com maior número de focos para esse intervalo de tempo tinha sido 2016, com 74.317 focos. Aquele foi um ano bastante seco, com ocorrência de um forte El Niño. A Amazônia (o bioma) respondeu por 52,5% dos focos deste ano. Até o dia 24, a região teve 41.867 focos, ante 22.165 nos oito primeiros meses do ano passado e 36.333 no mesmo período de 2016. Comparando somente o mês de agosto, houve mais focos do que este ano em 2005 (63.764), 2007 (46.385) e 2010 (45.018). O ano de 2005, como mostra a resposta acima, foi o último recorde de desmatamento da região e 2010 foi um ano extremamente seco.

2. A questão envolve só o Brasil?

Não. A Amazônia colombiana também tem queimadas e o país solicitou apoio a outros países. Já a Bolívia informou ontem que aceitará a ajuda externa para conter os incêndios, oferecida por Chile, Paraguai e Espanha. Ali os incêndios já consumiram mais de 745 mil hectares de terra na região de Chiquitania, na fronteira com o Paraguai, e 100 mil hectares em Beni, na Amazônia boliviana.

3. Já existe uma explicação para essas queimadas?

A principal correlação encontrada até o momento é a alta no desmatamento. A principal hipótese de especialistas é que queimadas estão ocorrendo para limpar o que foi derrubado antes. A explicação vem da Nasa. Segundo o pesquisador Doug Morton, isso é possível de aferir com uma análise das colunas de fumaça que podem ser vistas por satélite. Elas têm uma espécie de assinatura que mostram sua origem. Não são de fogo espalhado e mais baixo, que seria o indicador de queima de resíduos de campos de cultivo ou para limpeza de pasto, por exemplo, mas são centralizados e muito altos, de pilhas de troncos de árvore queimando que tinham ficado ao sol secando por meses antes.

4. A culpa pelas queimadas pode ser da seca?

Este ano de fato está mais seco, mas não tanto quanto estava 2016. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) divulgou uma nota técnica no dia 20 avaliando essa possibilidade, mas também concluiu que a maior correlação é com o desmatamento. Analisando os dados disponíveis até o dia 14, notou-se que "os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento". Segundo os pesquisadores do Ipam, esses municípios, até o dia 14, eram os responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho na região.

5. Há indícios de quem está cometendo essas queimadas?

Os focos de queimadas estão espalhados por todo o chamado arco do desmatamento, que vai do Acre, passando por Rondônia, sul do Amazonas, norte do Mato Grosso e sudeste do Pará. Ao menos no Pará, no entorno da BR-163, há uma investigação corrente, depois que foi anunciado por um jornal de Novo Progresso que produtores locais estavam convocando um "dia do fogo" no dia 10 de agosto. De fato, o Programa Queimadas do Inpe viu um aumento de incêndios na região naquele dia e os Ministérios Públicos Estadual e Federal estão investigando a questão. Neste domingo, 25, o presidente Bolsonaro pediu à Polícia Federal que também investigue o caso do Pará.

6. Houve aumento do desmatamento no Brasil?

O número oficial usado pelo governo para divulgar os dados de desmatamento anual da Amazônia - do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ainda não foi divulgado (isso deve ocorrer até novembro), mas números obtidos com uma resolução um pouco menor indicam que sim. O sistema Deter, também do Inpe, que faz detecções rápidas com satélite para orientar a fiscalização em campo, observou um aumento de 49,62% no corte da floresta entre 1.º de agosto do ano passado e 31 de julho deste ano (período histórico de análise), em comparação com os 12 meses anteriores. Os alertas do Deter observaram a perda de 6,841 km² neste período, ante 4.572 km² no período anterior. Apesar de ter uma resolução menor, nos últimos anos a tendência vista pelo Deter é confirmada posteriormente pelo Prodes.

7. Outros sistemas confirmam isso?

Outros sistemas de monitoramento independentes confirmaram a tendência de alta. O SAD, da ONG Imazon, indicou para esse período alta de 15%.Instituições estrangeiras, como a Nasa e a Universidade de Maryland, que também monitora florestas em todo o mundo, também constataram alta no desmatamento da Amazônia nos últimos 12 meses. Já o governo Bolsonaro admitiu que houve um aumento no corte da floresta, mas ressaltou que isso vem ocorrendo desde 2012. A gestão disse que talvez a perda não seja tão alta quanto mostrou o Deter e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chegou a destacar alguns erros do sistema (que tem acurácia em torno de 90%).

8. Houve desmatamentos maiores no passado?

Sim. Os anos de 1995 e 2004 tiveram as maiores taxas de perda da floresta - 29.059 km² e 27.772 km², respectivamente, de acordo com o Prodes, do Inpe, que calcula a perda anual da floresta (entre agosto de um ano a julho do ano seguinte) desde 1989. Em 2012, observou-se o menor nível histórico - 4.571 km².

9. Como foi a reação do governo?

A crise teve início em 19 de julho. Inicialmente, o presidente Bolsonaro disse que os dados de alta do desmatamento do Inpe eram "mentirosos" e que seu diretor estaria "a serviço de alguma ONG". Depois o governo admitiu que o desmate estava subindo, mas disse que isso era uma tendência desde 2012, e negou que os números fossem tão ruins - também se anunciou a contratação de um novo sistema de monitoramento, e o Ibama abriu um edital para isso. Sobre as queimadas, o governo também primeiramente alegou sensacionalismo, disse que o problema não era tão grave assim e até acusou ONGs de colocarem fogo na floresta. Após a repercussão externa, considerada exagerada pela gestão Jair Bolsonaro, o governo lançou uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO, um convênio com Estados que permite o uso de tropas das Forças Armadas em intervenções) e envio agentes da Força Nacional para os Estados da região.

10. E a repercussão internacional?

A maior parte dos veículos de mídia internacional destacou o avanço das queimadas, utilizando dados do Inpe, corroborados pela Nasa. Na maior parte das vezes, a postura adotada trouxe críticas ao governo, visto como sem interesse pela área. A cobertura e o tom subiram após o presidente francês Emmanuel Macron cobrar o Brasil pela imprensa e até dizer que foi enganado por Bolsonaro - que rebateu as queixas. Neste domingo, 25, o G-7 (grupo dos países mais ricos e industrializados) anunciou que daria apoio aos países amazônicos para conter o fogo.

Estadão
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