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Novas técnicas de produção mostram como produzir mais carne sem grilagem

Há caminhos para criar gado de corte sem prejudicar o ambiente. Mas técnico alerta: sociedade precisa exercer pressão sobre o setor

5 set 2021 02h02
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"A conta está chegando", afirma o engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), analisando os impactos do desmatamento no meio ambiente da região. Autor de estudo sobre uma exploração econômica sustentável da criação de gado na região, Barreto lembra que a demanda por carne deve crescer nos próximos dez anos no País, mas sustenta que é possível produzir sem desmatar e com gasto menor, melhorando a produtividade.

"A conversa que a gente ouve é sempre assim: vamos dar crédito e assistência técnica e está resolvido. Esse é um diagnóstico simplista", disse o engenheiro florestal em entrevista ao Estadão na semana passada, na véspera da publicação do estudo "As políticas para uma pecuária mais sustentável na Amazônia". No trabalho, ele defende que é possível produzir gado de corte sem devastar o ambiente local. Barreto justifica que para aumentar a produção sem derrubar a floresta já há recursos de crédito.

Para avançar, explica, os produtores precisariam de um valor que pode variar entre 3% e 9,5% do crédito rural contratado para a região em 2020. É dinheiro aplicado na compra de novos animais, mas que poderia ser destinado à recuperação das pastagens degradadas.

Mas o pesquisador não duvida de que, para a fórmula funcionar, além de mudar a distribuição do crédito rural apostando na recuperação das pastagens degradadas, é necessário que haja a pressão da sociedade sobre o Estado no combate à grilagem de terras. "É preciso fechar essa fronteira da grilagem, essa ocupação desgovernada na Amazônia", diz. "Ela cria várias distorções porque sempre o grileiro pressiona para ter regularização depois, com anistia. Essa regularização é, geralmente, um presente porque ele paga um preço mais baixo do que o preço de mercado da terra", conta o pesquisador. "Há uma competição injusta", afirma.

Bom exemplo

Mas ele pondera que há áreas no ambiente amazônico nas quais produtores seguem as melhores técnicas de produção. "Na região de Paragominas, por exemplo, ou no Mato Grosso, que adotam práticas como a reforma de pasto, o pastejo rotacionado e o confinamento, com bons resultados", cita. No estudo, ele mostra que entre 1974 e 2019, o rebanho bovino nos municípios da Amazônia Legal cresceu quase dez vezes e atingiu 89 milhões de cabeças. Nesse período, o rebanho da região saiu de 9% para 42% do total do Brasil.

O autor do estudo argumenta que o desmate não considera o custo ambiental da derrubada. E que além disso há um custo global maior já detectado, como os incêndios, além da diminuição de água no ecossistema e os impactos das secas em outros ambientes de outros Estados.

Legislação

Um dos principais entraves na proteção do bioma da Amazônia é uma tentativa constante de enfraquecimento do conjunto de leis e normas de fiscalização imediata para contenção da pressão na região. A opinião é da advogada Brenda Brito, pesquisadora do Imazon. "Mais do que buscar aprimoramento da legislação, o momento é de defesa do que já foi conquistado e que está sob forte ameaça", afirma. Na gestão Jair Bolsonaro, o total de multas pagas por crimes ambientais na Amazônia despencou 93%, mostrou estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Um exemplo claro desse quadro ameaçador, adverte, é a ocupação fundiária. "Hoje temos leis para reconhecer as ocupações, mas essas leis, especialmente as estaduais, acabam incentivando o processo de ocupação de terras públicas", argumenta a advogada.

Ela cita ainda o exemplo dos prazos legais. "A maioria das leis não tem um prazo. Precisamos definir prazos nas leis", critica. Em Estados como Amazonas, Acre, Tocantins e Maranhão "não há esses prazos". E quando há, pode ser alterado para permitir regularizações.

A pesquisadora do Imazon acrescenta que é preciso reforçar a legislação no campo da grilagem de terras. Ela explica que o País tem a lei 4.947/66, mas alerta que as penas são baixas. Segundo ela, esse é outro ponto que não anda no Congresso, o que termina por incentivar a prática da grilagem de terras. "É necessário que isso seja observado logo para que se possa combater a grilagem com urgência", defende a advogada.

Estadão
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