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Mirando fundo de US$ 20 bilhões, governadores preparam carta com pauta sustentável a Biden

Texto deve ser enviado ao governo americano até o dia 20; ministro Salles já cobrou US$ 1 bilhão dos EUA para fixar meta de queda do desmatamento

12 abr 2021
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Governadores de 21 Estados preparam uma carta para o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, com uma série de propostas e compromissos relacionados ao clima e à preservação dos biomas. O texto foi finalizado na tarde desta segunda-feira, 12, e o grupo quer enviá-lo ao embaixador americano no Brasil Todd Chapman até o dia 20. Os gestores miram parte de um aporte de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 113 bilhões) que Biden prometeu, ainda na campanha, para combater o desmatamento de florestas tropicais.

O pedido ocorre no momento em que o Brasil está no centro das atenções por causa de elevadas taxas de desmate e por críticas à política ambiental da gestão Jair Bolsonaro. No dia 22, o presidente americano vai se reunir com 40 líderes mundiais, incluindo o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, para uma cúpula do clima em Washington, onde deve discutir a verba e outros assuntos relacionados ao tema.

O documento foi construído pelo Centro Brasil no Clima (CBC) e contou com a participação de lideranças e especialistas de outras oito instituições da área. Entre os governadores, um dos articuladores da carta foi Renato Casagrande (PSB), do Espírito Santo. Ele explica que o objetivo não é rivalizar com o governo federal na busca por recursos, mas somar esforços.

"Não queremos tirar o protagonismo do governo federal. Queremos que ele mude de posição e se interesse mais pelo tema", diz Casagrande. Ele fala que a preservação ambiental também é um assunto de cunho econômico e de relações internacionais. "Queremos puxar o protagonismo desse assunto para o Brasil. Nossa imagem está muito arranhada internacionalmente porque não houve preocupação com esse tema."

Na semana passada, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse em entrevista exclusiva ao Estadão que consegue reduzir a devastação da Amazônia em até 40% em 12 meses se receber US$ 1 bilhão dos americanos. O ministro disse ainda que o plano deve ser apresentado a Joe Biden no encontro do dia 22. Se não houver o auxílio imediato, diz o titular da pasta, é difícil estabelecer uma meta.

Para Sérgio Xavier, articulador do grupo Governadores Pelo Clima no CBC, a carta é um acordo inédito de enfrentamento às mudanças climáticas, envolvendo diferentes biomas, valorizando as comunidades locais e criando uma nova economia sustentável. "A ideia é criar canais inovadores de investimentos internacionais que possam impulsionar a economia de baixo carbono e reduzir desigualdades", fala.

Já no início do texto, os governadores se apresentam como um grupo "amplo e diverso, envolvendo progressistas, moderados e conservadores, de situação e de oposição, dos mais diversos partidos." Mais à frente, dizem possuir mecanismos para garantir a aplicação "segura e transparente" de verba internacional, o que propicia resultados "rápidos e verificáveis".

O grupo deixa claro na carta que seu principal objetivo é promover o desenvolvimento sustentável, gerando emprego e renda em cadeias econômicas verdes. Para isso, querem usar tecnologias modernas, agregando valor aos produtos da floresta.

Os governadores também propõem parcerias para impulsionar o reflorestamento, o equilíbrio climático e a redução de desigualdades. Querem, ainda, a cooperação dos Estados Unidos na preservação dos biomas brasileiros, especialmente o Pantanal, que foi palco de muitas queimadas no ano passado.

Em troca, se comprometem com a redução dos gases estufa, a promoção de energias renováveis, o combate ao desmatamento, o cumprimento do Código Florestal, a melhoria da eficiência na agropecuária, a proteção e o bem-estar dos povos indígenas e o reflorestamento massivo, entre outros pontos.

Até o momento, assinaram a carta os governadores do Acre, Gladson Cameli (PP), Alagoas, Renan Filho (MDB), Amapá, Waldez Goés (PDT), Amazonas, Wilson Lima (PSC), Bahia, Rui Costa (PT), Ceará, Camilo Santana (PT), Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), Pará, Helder Barbalho (MDB), Paraíba, João Azevêdo (Cidadania), Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), Piauí, Wellington Dias (PT), Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), São Paulo, João Doria (PSDB), Sergipe, Belivaldo Chagas (PSD) e Tocantins, Mauro Carlesse (DEM).

O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), sinalizou que vai subscrever o documento, mas ainda não formalizou a assinatura. Não assinaram os governadores de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (sem partido), Roraima, Antonio Denarium (sem partido), Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido) e Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja (PSDB).

Ambientalistas temem acordo com os EUA, mostra jornal britânico

Reportagem do jornal britânico The Guardian nesta semana mostrou que grupos indígenas, ambientalistas e ativistas temem que um acordo climático entre Estados Unidos e Brasil acabe recompensando o desmatamento ilegal de florestas e ajude a reeleger o Bolsonaro em 2022. Segundo a reportagem, eles afirmam estar sendo excluídos das conversas sobre o futuro da Amazônia.

O jornal diz que altos funcionários americanos estão realizando reuniões online semanais sobre a Amazônia e têm como interlocutor brasileiro o ministro Salles, que assistiu "ao pior desmatamento em mais de uma década", observa o texto.

A reportagem do The Guardian diz que dar dinheiro ao Brasil é um "risco" para Biden e algo que Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos e mais próximo de Bolsonaro, nunca fez. O trecho diz que o chefe do governo brasileiro "estripou agências de proteção florestal, administrou de forma fatal a crise da covid e é visto como um perigo não só para o Brasil, mas para o mundo."

Por outro lado, uma fonte ouvida pela reportagem afirmou que os Estados Unidos não podem adiar as discussões sobre a Amazônia por mais dois anos, esperando que o presidente brasileiro saia do poder.

Estadão
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