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Fumaça do Pantanal que chega a SP pode agravar doenças respiratórias e provocar infartos e AVC

Caso desça para os níveis mais baixos da atmosfera, poluição das queimadas pode causar doenças agudas cardiovasculares e piorar quadro de pessoas com alergias crônicas, fumantes, gestantes e imunossuprimidos

18 set 2020
15h19
atualizado às 18h05
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A fumaça das queimadas no Pantanal que chegou a São Paulo nesta quinta-feira, 17, pode ter um impacto grave na saúde da população paulistana. Junto com o ar seco e ao tempo frio, a fuligem presente no ar se torna um risco especialmente preocupante para idosos, fumantes e pessoas com doenças respiratórias crônicas. Caso ela desça para as camadas mais baixas da atmosfera, há também o risco de causar complicações cardiovascularesm, como infarto ou AVC, além de se instalar no pulmão e ser distribuída no sangue.

"A maior parte do que veio é o que chamamos de material particulado, com pequenas partículas que são decorrentes das queimadas da vegetação - com muito carbono e substâncias associadas. Isso geralmente consegue viajar por milhares de quilômetros e é o mesmo que aconteceu no ano passado com a queimada da Amazônia", observa Rafael Futoshi Mizutani, médico pneumologista do Instituto do Coração (InCor), do grupo de doenças respiratórias ocupacionais e ambientais.

Em agosto de 2019, o dia virou noite na capital paulista quando a fumaça de queimadas da Amazônia chegou ao Estado e causou uma chuva atipicamente escura. Na ocasião, os danos à saúde não foram tantos porque as partículas de poluição não chegaram aos níveis mais baixos da atmosfera. Entretanto, caso isso aconteça agora, Mizutani explica que as micropartículas das queimadas podem ser absorvidas pela respiração, se alojarem no pulmão e serem distribuídas para a corrente sanguínea a curto prazo, aumentando o risco de infartos, AVC e doenças agudas cardiovasculares.

"Esse material particulado fino, com menos de dez micrômetros, chega ao pulmão, é absorvido pelos capilares e vai para o sangue. Isso causa inflamações no pulmão e no corpo inteiro. No mundo todo, essa é a forma que a poluição mais mata pessoas, além de provocar crises e ataques de asma, bronquite e efizemas", explica.

"Sempre que a gente tem o ar frio, seco e poluído é a pior condição para quem tem doenças de via respiratória", aponta Silvio Cardenuto, médico assistente do pronto socorro da Santa Casa. "E essa fumaça que vem é um problema ambiental mundial, mas que está chegando a São Paulo agora, que já é uma cidade com alto índice de poluição."

Essa tríade de más condições no ar (seco, frio e poluído) atinge principalmente os grupos de risco citados acima e pode agravar quadros de bronquite e rinite crônicas, asma, idosos com "pulmão senil", gestantes, pessoas imunossuficientes e com outras doenças respiratórias. Para se prevenir, Cardenuto recomenda boa hidratação e a umidificação dos ambientes internos, com baldes de água e toalhas molhadas, e o o uso de máscaras, que pode diminuir a inalação de partículas. Ainda assim, Mizutani frisa que as máscaras comuns dificilmente filtrariam as micropartículas de fuligem.

Outra recomendação que Cardenuto indica é a de evitar aglomerações, uma medida que já deveria ser cumprida em função do novo coronavírus. Caso haja o agravamento de qualquer sintoma, como aumento de tosse, falta de ar, mudança na expectoração, cansaço anormal ou sangramento nasal, é preciso procurar atendimento médico.

"Existe uma conjunção de fatores que minimizou esse risco e a população já vinha se cuidando com o uso de máscara por causa da pandemia. Então, o impacto só não é maior por causa disso", afirma. Mesmo a chuva negra que pode chegar à capital neste fim de semana pode ser benéfica neste caso, já que ela aumenta a umidade do ar. "Ela pode minimizar um pouco a parte das vias respiratórias, mas o problema ambiental permanece, claro."

Mizutani também explica que, mesmo com a coloração atipicamente escura, a chuva negra ainda absorve as partículas das queimadas e impede que elas sejam inaladas. "É como se tivesse jogado água no carvão de um churrasco. A gotícula acaba absorvendo a partícula e fica mais difícil de a pessoa respirá-la."

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Estadão
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