0

Especialistas defendem dados de monitoramento da Amazônia divulgados pelo Inpe

Bolsonaro disse que quer ter acesso prévio aos índices de desmate para não ser 'pego de calças curtas'

23 jul 2019
03h12
  • separator
  • 1
  • comentários

SÃO PAULO - A comunidade científica do Brasil e especialistas em sensoriamento remoto e avaliação do desmatamento vem se manifestando desde domingo em defesa dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E da transparência dessa informação como a melhor forma de combater o problema.

Nesta segunda-feira, 22, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que quer acesso aos dados de desmatamento da Amazônia antes de eles serem divulgados para não ser "pego de calças curtas". Ele criticou o que considera uma quebra de "hierarquia e disciplina" e voltou a dizer que a divulgação das informações pode causar um "enorme estrago para o Brasil".

A declaração foi dada em meio a uma série de críticas que o presidente tem feito desde sexta-feira ao Inpe, órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e responsável, entre outras coisas, por monitorar o desmatamento na Amazônia e oferecer a taxa oficial de perda anual da floresta.

"Os dados do Inpe são respeitados e inquestionáveis. É consenso na comunidade internacional de que o sistema de monitoramento da Amazônia é de excelência", comentou o pesquisador Gilberto Câmara, ex-diretor do Inpe (entre 2006 e 2013) e hoje diretor do secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO).

O GEO é um organismo intergovernamental, ligado às Nações Unidas, de uso de dados de observação da Terra para monitoramento das condições do planeta. Basicamente todo mundo que trabalha com imagens de satélites está reunido ali. "O respeito a essas informações se dá justamente porque são abertas e podem ser checadas por outras instituições internacionais."

"Os países que contribuem com o Fundo Amazônia entendem os dados do Inpe como a referência (para atestar se o desmatamento caiu) e para pagar pelos resultados", complementou Câmara. "Sem um dado oficial de credibilidade para atestar a situação do combate ao desmatamento na Amazônia, como o Fundo Amazônia poderá ter continuidade?", questiona o pesquisador.

Câmara lembrou que o trabalho do Inpe em monitorar o desmatamento surgiu em 1988 depois que o Banco Mundial divulgou um relatório alertando que o Brasil estava desmatando cerca de 80 mil km2 por ano. "Foi aí que o Prodes começou a verificar e calculou algo em torno de 20 mil km2. Ainda assim era altíssimo, mas 1/4 do que o governo estava falando", conta. "Se o governo parar com os dados do Inpe, quem vai ter credibilidade para contestar qualquer outro dado que surgir lá fora?"

O pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que trabalha com sensoriamento remoto, lembra que houve tentativas de outros presidentes de controlar a regularidade de publicação dos dados do Inpe em momentos de crise. "Nos anos 1990 e até o início dos anos 2000, a divulgação dos dados era mais restritiva. Passavam pela presidência e, inclusive, pela área militar do governo. É uma queda de braço que não é inédita", afirma.

"Mas hoje o Inpe é reconhecido internacionalmente como fonte confiável de dados por causa de sua transparência", diz o cientista. Para ele, levar a medida adiante é jogar fora um trabalho de décadas. "Como consequência, o mercado buscará outras fontes de dados produzidas por ONGs ou instituições estrangeiras poderão se tornar o novo parâmetro para julgar o desmatamento no Brasil."

"Assim como os dados de todos os levantamentos do IBGE, dados de monitoramento de desmatamentos nos biomas brasileiros devem ser divulgados publicamente, pois podem guiar políticas públicas de controle de desmatamentos ilegais - que são a grande maioria na Amazônia - e também orientar o setor privado responsável", comentou o climatologista Carlos Nobre, um dos principais especialistas em mudanças climáticas do País.

"Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do Inpe gera uma imagem negativa do País e da ciência que é aqui realizada. Reafirmamos nossa confiança na qualidade do monitoramento do desmatamento da Amazônia realizado pelo Inpe, conforme a carta anteriormente enviada ao Presidente da República, e manifestamos nossa preocupação com as ações recentes que colocam em risco um patrimônio científico estratégico para o desenvolvimento do Brasil e para a soberania nacional", destacou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em manifesto apresentado no domingo.

A Sociedade Brasileira de Física (SBF) também divulgou nota em apoio ao Inpe e a seu diretor, Ricardo Galvão. "O presidente colocou em dúvida, de forma leviana, não apenas os dados científicos obtidos pelo Inpe como também a idoneidade do seu diretor, Ricardo Galvão." Na sexta-feira, Bolsonaro disse à imprensa estrangeira que os dados que vêm mostrando alta no desmatamento são "mentirosos" e que Galvão está "a serviço de alguma ONG".

Em nota divulgada em seu site, a SBF lembrou que "as atividades experimentais sempre foram um ponto forte do Inpe", que "trabalha em colaboração com a Nasa e outras organizações nacionais e estrangeiras". A entidade destaca que "a história de grandes iniciativas do Inpe traduz a sua capacidade em dar respostas científicas às demandas da sociedade e dos desafios científicos e tecnológicos".

Quanto a Galvão, a SBF disse que "questionar sua postura ética é não apenas um ataque a todos os pesquisadores altamente qualificados no Inpe, mas também um ataque à ciência e tecnologia no Brasil. Somam-se a esta declaração irresponsável do presidente os recentes ataques às universidades públicas e os recentes cortes de recurso para educação, ciência e tecnologia no Brasil".

A sociedade disse ainda que "de fato, o desmatamento da Amazônia traz um grande prejuízo para a imagem do Brasil no exterior". Mas, na visão da SBF, "este desgaste não será revertido com a omissão na divulgação de dados científicos, mas sim através de políticas de desenvolvimento sustentável para a região, que preservem a Amazônia para as futuras gerações de brasileiros. Atribuir este problema internacional à obtenção e divulgação das informações pelo Inpe é como tentar curar a febre quebrando o termômetro."

Estadão
  • separator
  • 1
  • comentários
publicidade