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Brasil tenta recompor sua imagem depois de queimadas na Amazônia, diz Financial Times

Reportagem ressalta campanha Brazil by Brazil que, segundo a publicação, 'tem ecos nacionalistas e como alvo o público americano e europeu'

22 set 2019
11h17
atualizado em 23/9/2019 às 16h14
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LONDRES - Após um mês de controvérsia sobre o manejo de incêndios que devastaram a floresta amazônica, o governo de direita do Brasil está tentando dar um novo impulso à sua imagem internacional antes da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na próxima semana. O texto sobre o País foi publicado neste domingo na versão online do jornal britânico de economia Financial Times.

A publicação ressalta que a campanha de marketing "Brazil by Brazil" foi lançada na sexta-feira, quando começou a assembleia em Nova York. "Ela tem ecos nacionalistas e como alvo o público americano e europeu com mensagens na televisão e nos jornais, divulgando as regulamentações ambientais do Brasil e o papel do agronegócio na alimentação de uma grande fatia da população global", avaliou o FT.

O diário lembrou que o Brasil tem algumas das regulamentações ambientais mais rigorosas do mundo há décadas e muitos grandes agricultores estão envolvidos em práticas sustentáveis para reduzir a degradação ambiental. No entanto, grande parte da controvérsia sobre a Amazônia foi desencadeada pelo "estilo pugnaz" do líder de extrema direita Jair Bolsonaro, que desenvolveu um relacionamento amargo com alguns líderes europeus e que foi exacerbada por protestos contra os incêndios na floresta e o crescente desmatamento.

O FT destacou que Bolsonaro, que abrirá a Assembleia Geral da ONU na próxima semana, disse à Record TV do Brasil que seu discurso em Nova York "reafirma a questão de nossa soberania". Otávio Rêgo Barros, seu porta-voz, disse que seu chefe fará um "discurso sincero" no qual rejeitará a noção "de que o Brasil não cuida da Amazônia, não cuida do meio ambiente".

O periódico ressaltou também que o importante setor agrícola do Brasil está ficando cada vez mais temeroso com os boicotes à produção brasileira de produtores ocidentais preocupados com a destruição da maior floresta tropical do mundo. No início deste mês, a H&M, a segunda maior varejista de moda do mundo, parou de comprar couro do país latino-americano, citando preocupações ambientais. A decisão segue movimentos semelhantes das marcas de calçados Vans e Timberland, bem como do grupo de roupas para o ar livre The North Face.

"Estamos perdendo a guerra de informação para movimentos que estão interessados em nos prejudicar", disse Soraya Thronicke, senadora do partido conservador PSL, o mesmo de Bolsonaro. Após inicialmente parecer culpar os incêndios contra grupos sem fins lucrativos, o FT recordou que Bolsonaro acusou as nações europeias de violar a soberania do Brasil questionando sua tutela na Amazônia. "A retórica do presidente não ajuda em nada. De fato, isso atrapalha, mas os líderes europeus estão usando o Brasil para obter seus próprios ganhos políticos em casa", disse um alto funcionário do governo Bolsonaro ao jornal.

O embate mais destacado do presidente brasileiro sobre o assunto ocorreu com seu colega francês, Emmanuel Macron. Na reunião do grupo dos sete países mais ricos do mundo (G-7) no mês passado, Macron ofereceu um pacote de ajuda de US$ 20 milhões das nações do G-7 para extinguir os incêndios e depois reflorestar e proteger a floresta tropical. Bolsonaro criticou a oferta por tratar o Brasil como uma "colônia". As coisas ficaram pessoais depois que Bolsonaro ecoou insultos direcionados à esposa de Macron no Facebook. "Este não é o comportamento de um presidente", retrucou Mácron.

Macron também ameaçou não ratificar um dos maiores acordos comerciais do mundo recentemente acordados entre países europeus e um bloco de países da América do Sul (Mercosul), cujo membro mais importante é o Brasil. Na quarta-feira, um comitê no parlamento da Áustria rejeitou o acordo devido a preocupações com incêndios na Amazônia, em uma decisão vinculativa para o governo. "A floresta tropical é incendiada na América do Sul para criar pastagens e exportar carne com desconto para a Europa", disse Elisabeth Koestinger, ex-ministra da Agricultura do conservador Partido Popular. "A UE não deve recompensar isso com um acordo comercial."

"O Mercosul definitivamente não era popular e o fato de ser encarnado por Bolsonaro tornou-o ainda mais impopular", explicou François Heisbourg, da Fondation pour la Récherche Stratégique (Fundação pela Pesquisa Estratégica), um "think tank" de Paris.

Estadão
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