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Quando religião, pedras lunares e Sith Lords se encontram

Religião e ciência não se misturam? Algumas vezes é até intencional,, como a Catedral de Washington, que tem sua própria pedra lunar!

10 mai 2021 20h35
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Costumamos achar engraçado as imagens dos bispos ortodoxos benzendo foguetes russos, mas a relação entre espaço e religião é bem mais antiga, e bem menos conflituosa do que o Fã-clube de Galileu discorde com veemência.

Eita nós!
Eita nós!
Foto: Roscosmos / Meio Bit

O Observatório do Vaticano (Sim, Virgínia, o Vaticano tem um observatório) é o mais antigo em funcionamento, suas origens datam de 1582 quando o Papa Gregório XIII resolveu reformar o Calendário, diminuindo a zona completa que era o Calendário Juliano e criando o Gregoriano, que usamos até hoje e é menos zoneado.

A Teoria do Big Bang, que faz um monte de religiosos ter urticária, foi criada por Georges Lemaître, um matemático, astrônomo e padre francês. Uma das maiores crateras da Lua se chama Clavius, em homenagem a um astrônomo Jesuíta chamado Cristóvão Clavius. A Lua aliás está abarrotada de jesuítas, em sua imensa maioria, cientistas.

Cristóvão Clavius
Cristóvão Clavius
Foto: Wikimedia Commons / Francesco Villamena (1566–1624) ) / Meio Bit

Em outros lugares, Hindus, Muçulmanos e Budistas estudavam os céus, aprendendo seus ciclos e formando suas tradições religiosas em torno deles. Enquanto alguns ignoravam o Céu, outros o temiam, um grupo o adorava e outro grupo o estudava.

Alguns grupos acharam herética a idéia de homens abandonando o Planeta Terra, criado especialmente para eles, mas em sua maioria a reação das igrejas foi positiva, principalmente entre os grupos cristãos, com o conceito de evangelizar terras distantes.

A Cratera Clavius
A Cratera Clavius
Foto: Contraditorium / Meio Bit

Em 1968 a Apollo VII entrou em órbita da Lua, no dia 24 de Dezembro. Véspera de Natal. A NASA resolveu fazer uma graça e planejou com os astronautas uma surpresa; Bill Anders, Jim Lovell e Frank Borman leram os dez primeiros versos do Gênesis.

Foi um momento singelo e bonito, um pedido de paz em um momento em que o mundo estava na pior fase da Guerra do Vietnã. O trecho em si é bonito, como a maioria dos mitos de Criação, uma interpretação poética e simbólica, inofensiva a qualquer um, independente de comungar ou não daquela fé em particular.

Claro, isso não poderia ficar assim e uma tal de Madalyn Murray O'Hair, fundadora de um grupo chamado American Atheists, alegando que a leitura da Bíblia afetava a separação Igreja-Estado, ela entrou na Justiça contra a NASA, que em meio a todos os problemas de cumprir o prazo de pousar na Lua até o final da Década, tinha agora que arrumar advogado pra se defender.

Entre apelos e segundas instâncias, o Processo passou pela Corte Distrital do Texas, Tribunal de Apelação, etc, etc e durou até 1971, quando a Suprema Corte se recusou a apreciar o caso.

Com medo de outro caso como o de Madalyn, a NASA negociou um consenso com Buzz Aldrin.

Ele era um Ancião na Igreja Presbiteriana, e conversando com seu Pastor, teve a idéia de realizar uma cerimônia de Comunhão na Lua, como um simbolismo de tudo que haviam passado para chegar até ali.

A NASA autorizou, desde que ele enviasse uma mensagem genérica. Buzz ganhou do Pastor um cálice de prata miniatura, e levou uma hóstia e um pequeno vidro com vinho. Durante o período de descanso pós-pouso, ele transmitiu uma mensagem pedindo a todos que estivessem ouvindo que por um momento parassem e agradecessem, da forma que quisessem.

Cálice usado por Buzz Aldrin na Lua
Cálice usado por Buzz Aldrin na Lua
Foto: Arquivo familiar / Meio Bit

Em seguida ele leu, fora do rádio, somente para Neil Armstrong e si mesmo João: 15:5:

"Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma."

A cena foi lindamente reencenada no épico Da Terra à Lua:

A relação entre astronomia e religião não acabou ali. Em 1971 as duas áreas se uniram mais uma vez de forma inusitada. Com aprovação do Presidente Nixon, o Administrador da NASA, Thomas O. Paine, doou uma pedra lunar para a Catedral Nacional de Washington.

Com 7.18 gramas e 3.6 bilhões de anos de idade, a pequena rocha basáltica foi protegida em uma estrutura de vidro, com atmosfera 100% de Nitrogênio, para evitar reações com outros gases. Depois de muita deliberação foi decidido construir um vitral, criado pelo artista plástico Rodney Winfield.

O vitral, com a rocha lunar ao centro
O vitral, com a rocha lunar ao centro
Foto: NASA / Meio Bit

O teto da construção, próximo ao vitral é ornado com uma cornita que quando descoberta daqui a alguns séculos depois do colapso da Civilização trará calafrios ao descendente do Tsoukalos:

Parte do teto da Catedral Nacional de Washington.
Parte do teto da Catedral Nacional de Washington.
Foto: Wikimedia Commons / Meio Bit

Como toda boa obra de igreja, o vitral só ficou pronto em 1977, mesmo ano em que apareceria o final e mais inusitado personagem relacionando religião, igreja e espaço: Darth Vader.

Tradicionalmente catedrais ornam seus telhados com estátuas bem diferentes da iconografia religiosa normal. Originalmente criadas para representar seres do dia-a-dia, essas estátuas, chamadas de Grotescos começaram a representar pecados, monstros e entidades malignas.

E não, gárgula é um nome específico pras estátuas ligadas ao sistema de drenagem de água de chuva, não às exclusivamente decorativas.

Tendo em mente isso, durante uma renovação arquitetônica nos Anos 80 a Catedral e Washington criou um concurso para novos gárgulas (eu sei eu sei todo mundo chama de gárgula mesmo).

Um garoto chamado Christopher Rader enviou um desenho de Darth Vader, e acabou sendo um dos vencedores. Esculpido por Patrick J. Plunkett, o busto de ex-Cavaleiro Jedi pode ser visto na face Norte da Catedral, mas só de binóculos.

Não se engane, do chão você só vê um pontinho.
Não se engane, do chão você só vê um pontinho.
Foto: Wikimedia Commons / Meio Bit

O Gárgula de Darth Vader se tornou tão popular que a Catedral faz excursões regulares e vende miniaturas da estaria, e é divertido uma das atrações mais populares ser um vilão, de outra religião, matador de criancinhas, mas o simples fato dos fãs, dos fiéis e da direção da Catedral conseguirem diferenciar ficção de realidade, e entender que as pessoas podem gostar de Darth Vader sem comungar com seus atos ou pensamentos, mostra que eles são muito mais maduros que boa parte da militância da Internet.

Ou Vader usou a Força pra convencer todo mundo a deixar a estátua onde está. Sei lá, não discuto religião antiga, muito menos com quem é muito bom com armas igualmente antigas.

PS: E como mais uma prova de que religião seguirá o Homem em sua expansão para o Espaço, tecnicamente existe um Bispo da Lua.

Quando começaram as grandes explorações, foi definido que o Bispo responsável pelas novas terras descobertas seria o da comarca mais próxima de onde a expedição havia partido, portanto o Bispo da Lua é o Bispo de Orlando, e quando em 1969 o Bispo William Donald Borders revelou isso a um espantado Papa Paulo VI, todos riram, mas o Papa explicou que a piada era boa, mas para o Bispo parar de se apresentar assim.

Quando religião, pedras lunares e Sith Lords se encontram

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