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Dias frios desmentem o aquecimento global? Cientistas explicam que não

Entenda porque é equivocada a comparação feita por Carlos Bolsonaro entre as mudanças climáticas e a recente onda de frio no inverno brasileiro

12 jul 2019
17h09
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O vereador pelo Rio de Janeiro e filho do presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, voltou a questionar, em post publicado no Twitter no último domingo, 7, a existência do aquecimento global.

"Só por curiosidade: quando está quente a culpa é sempre do possível aquecimento global e quando está frio fora do normal como é que se chama?", escreveu, em referência às baixas temperaturas que atingiram parte do Brasil no início do mês.

O aquecimento do planeta e as mudanças climáticas já foram postos em cheque pelo presidente e também pelos seus outros dois filhos, Flávio e Eduardo, principalmente durante a campanha eleitoral de 2018. Na ocasião, o próprio Bolsonaro mencionou a possibilidade de retirar o Brasil do Acordo de Paris, tratado assinado por 195 países que tem como objetivo o cumprimento de medidas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE) a fim de conter o aquecimento global a menos de 2°C até o final do século.

Parte do acordo desde a sua criação, em 2015, o Brasil se comprometeu a reduzir em 37% suas emissões até 2025 e chegar a 43% em 2030. Durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, em janeiro deste ano, o presidente afirmou que, "por ora", o País permanece no acordo.

Por que é errado usar o frio para negar aquecimento global

As emissões em excesso de gases de efeito estufa, como o gás carbônico (CO2), que vêm ocorrendo desde a Revolução Industrial, promovem mudanças climáticas mais amplas do que a elevação. Uma das principais alterações é a ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos - como secas ou chuvas muito intensas. O físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) explica que a intensificação desses eventos climáticos pode ser observada no planeta inteiro.

É um reflexo do processo de aumento da temperatura média dos oceanos e da atmosfera da Terra, ocasionada pela queima de combustíveis fósseis e a emissão do CO2, que intensifica o efeito estufa. Este é de fato um fenômeno natural ocasionado pela concentração de gases na atmosfera, que serve para que o planeta se mantenha numa temperatura adequada a partir da absorção do calor dos raios solares. Sem isso, o planeta seria muito frio, inviável para a vida. Mas em excesso acaba desequilibrando o delicado sistema climático do planeta. A concentração de CO2 hoje na atmosfera é a maior dos últimos 800 mil anos.

"No verão europeu deste ano tivemos ondas de calor que elevaram a temperatura em Paris para 41,5ºC. Na Índia, os termômetros atingiram os 52ºC. O aquecimento global é um contínuo e lento aumento gradual da temperatura", explica ao Estado. As fortes ondas de calor cada vez mais constantes são um exemplo da intensificação dos eventos climáticos extremos. E o mesmo pode ocorrer com as fortes ondas de frio.

Clima é diferente de tempo metereológico

O equívoco de Carlos Bolsonaro sobre o aquecimento global começa em confundir clima com tempo, diz Magno Botelho, especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"Quando falamos em clima, o aquecimento global está no contexto de longos períodos de tempo, usamos médias e estatísticas coletadas em longos períodos. Carlos usou o tempo meteorológico para induzir que o aquecimento global não existe", explica.

O clima, segundo o especialista, diz respeito a como a temperatura se comporta em períodos longos, enquanto quando é o tempo que dá a pauta, estamos falando da sensação térmica imediata. "Desde que a temperatura da Terra começou a ser medida, estamos batendo recordes de alta temperatura a cada década que passa", resume. Os quatro últimos anos foram os mais quentes do registro histórico.

Trump também usa o frio para negar o aquecimento global

O negacionismo da família Bolsonaro sobre o aquecimento global encontra paralelo nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump também costuma tecer comentários céticos sobre o assunto.

Em 28 de janeiro, por exemplo, também via Twitter, o republicano afirmou que as temperaturas atingiram os -60ºC em território americano e fez um apelo irônico: "O que está acontecendo com o aquecimento global? Por favor volte rápido, nós precisamos de você!". Trump anunciou a retirada do país do Acordo de Paris em 2017, mas pelas regras da ONU isso só poderá ocorrer de fato no ano que vem.

O coordenador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José Antonio Marengo, afirma, no entanto, que esse frio intenso no hemisfério norte também pode ser explicado como uma consequência do aquecimento global.

"Tivemos ondas de frio na Europa e nos EUA que são associadas com o enfraquecimento da circulação polar do Ártico. O CO2 forma um buraco que faz com que o frio polar do Ártico passe para os países do Norte. Com o enfraquecimento da circulação atmosférica dessas massas de ar, o ar mais frio atinge com mais facilidade os EUA", explica Marengo.

O cientista esclarece que, no caso do Brasil, as ondas de frio que atingiram as regiões Sul e Sudeste do País na última semana correspondem à entrada de ar mais frio do continente Antártico, o que não está relacionado com as mudanças climáticas globais.

"De maneira geral, os invernos estão cada vez mais curtos, mais amenos. Não deixa de fazer frio no inverno, mas as temperaturas mínimas são mais elevadas que a média e o número de dias de frio é menor. Se Carlos pergunta onde está o aquecimento global, eu respondo: Espere um pouco até o verão chegar para você ver", conclui Marengo.

Estadão
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