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Como uma explosão solar registrou a chegada dos vikings à América

Lascas de madeira e uma explosão solar registraram chegada dos vikings ao continente americano em 1021, 471 anos antes de Colombo

22 out 2021 11h35
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Fato: os vikings (o termo não era o usado pelos povos nórdicos para se auto denominarem, mas foi o que pegou) chegaram ao norte da América séculos antes de Cristóvão Colombo aportar nas Índias Ocidentais, hoje as Bahamas. Há evidências de que eles já andavam pela ilha de Terra Nova, no Canadá, desde o fim do século X, mas não sabíamos quando exatamente os europeus modernos puseram os pés no Novo Mundo pela 1ª vez. Até agora.

De acordo com um novo estudo publicado na revista Nature, que analisou fragmentos de madeira usados nas construções do sítio arqueológico de L'Anse aux Meadows, os pesquisadores cravaram que foi 1021 o ano em que os povos do norte desembarcaram por aqui, exatos 1.000 anos atrás e 471 anos antes de Colombo. A datação foi possível com uma ajudinha bem oportuna do Sol.

Vikings veio recheada de erros históricos, mas em uma coisa a série acertou: os nórdicos eram navegadores ousados
Vikings veio recheada de erros históricos, mas em uma coisa a série acertou: os nórdicos eram navegadores ousados
Foto: Reprodução/TM Productions/Take 5 Productions/Octagon Films/MGM / Meio Bit

Segundo a Dra. Margot Kuitems, arqueóloga da Universidade de Groningen na Noruega e uma das co-autoras do artigo, as novas descobertas permitiram pela primeira vez definir uma data concreta para a possível primeira expedição de travessia transatlântica realizada por uma civilização humana. Se formos considerar feitos humanos em outras regiões, vale lembrar que os polinésios conquistaram o Pacífico muito, muito antes disso.

Até então, as fontes históricas disponíveis para as aventuras dos vikings no Novo Mundo vinham de suas sagas, contos orais passados entre gerações, que teriam sido compostos pelo menos 200 anos depois da chegada das primeiras famílias a Terra Nova. Embora sirva para dar uma ideia de como eles chegaram e viviam, não é o suficiente para determinar a data precisa.

A solução foi cavar, claro. O sítio de L'Anse aux Meadows, situado na porção mais norte da ilha, era conhecido por arqueólogos e historiadores desde 1960, quando foram redescobertos pela arqueóloga Anne Stinge Ingstad e seu marido, o explorador Helge Marcus Ingstad. Na época, acreditava-se que os vikings pudessem ter se estabelecido na região do norte de Massachusetts, pois as sagas mencionavam uma região traduzida como "Vinland", presumindo-se que eles cultivavam uvas.

Os Ingstad nunca compraram essa ideia. Ao invés disso, eles acreditavam que o nome era uma referência a uma região de prado, com uma península. Além disso, os nórdicos não se sentiriam confortáveis o bastante para descer tanto assim a costa americana, considerando que na época já haviam se estabelecido na Islândia e na Groenlândia.

Em 1960, um pescador chamado George Decker entrou em contato com os Ingstad, e os conduziu a uma região no norte de Terra Nova, que era conhecida pelos locais como um antigo acampamento indígena, montes cobertos de grama que pareciam ser casas. Escavações conduzidas entre 1961 e 1968 concluíram que os sítios eram restos de construções erguidas por nórdicos, dada a semelhança das estruturas com as encontradas nas ilhas acima citadas.

Restos de 7 construções vikings em L'Anse Aux Meadows, escavadas pelos Ingstad
Restos de 7 construções vikings em L'Anse Aux Meadows, escavadas pelos Ingstad
Foto: Clinton Pearce/Wikimedia Commons / Meio Bit

A pesquisa dos Ingstad e de outros arqueólogos fixaram a permanência dos vikings em L'Anse Aux Meadows como de curta estadia, tendo ocorrido entre 990 e 1050 da Era Comum, acabando de vez com a ideia de que Colombo foi o primeiro a navegar o Oceano Atlântico entre a Europa e a América.

Embora a Groenlândia seja parte da América, os nórdicos tenham chegado lá antes e ficado na ilha por pelo menos 500 anos, a ocupação em Terra Nova é considerada a primeira continental, dada a proximidade com a costa.

A única coisa que os pesquisadores não tinham era a data exata em que os povos nórdicos se estabeleceram em solo canadense, que foi o foco do atual estudo.

Sol registrou chegada dos vikings

A pesquisa da Dra. Kuitems e seus pares analisaram três fragmentos de madeira deixados pelos vikings em L'Anse Aux Meadows, que vieram de três árvores diferentes. Com a ausência de objetos e utensílios na região, os pesquisadores só poderiam contar com o método de datação de carbono, mas ele não é preciso o suficiente para atestar uma data. No máximo, ele fornece um alcance medido em décadas.

Se sabe que os povos nativos da região não usavam ferramentas de metal, como as marcas nas lascas evidenciavam, o que serviu para determinar que ar árvores foram cortadas por nórdicos. Porém, as amostras tinham uma outra marca deixada por uma tempestade solar massiva, que fato conhecido, ocorreu no ano de 993 EC.

Amostra de madeira usada na pesquisa
Amostra de madeira usada na pesquisa
Foto: Petra Doeve, University of Groningen / Meio Bit

A radiação solar deixou uma assinatura bem nítida nas três amostras, e usando ela como base, os pesquisadores só precisaram contar os elos adicionais das árvores até chegar à casca, que marca quando as árvores foram cortadas. Nas três lascas, os cientistas chegaram ao mesmo ano, 1021 EC.

A pesquisa é importante porque determina, com exatidão, o exato momento da história em que a humanidade conseguiu pela primeira vez completar uma volta no globo, visto que cruzar o Atlântico foi o último achievement. Ainda assim, os vikings não chegaram à Terra Nova com a intenção de se estabelecerem de forma definitiva. De acordo com a pesquisa, é muito mais provável que eles se aventuraram rumo ao ocidente em busca de suprimentos, especialmente madeira, para levar de volta à Groenlândia.

De acordo com o prof. Dr. Michael W. Dee, que liderou a pesquisa, o estudo servirá como base para outras pesquisas, que buscam determinar a extensão do impacto ambiental causado pela presença nos nórdicos na América, desde se houve interação com os nativos, tendo gerado descendentes e introduzido material genético europeu em suas populações ancestrais, se eles cultivaram plantas não nativas, ou se trouxeram ou não, de forma não intencional, doenças e espécies invasoras de fauna e flora.

De qualquer forma, a pesquisa proveu finalmente uma data bem definida para a chegada dos nórdicos no continente americano, deixando Colombo para trás em definitivo, com uma janela de tempo de quase 5 séculos entre o navegador genovês e os exploradores vikings.

Referências bibliográficas

KUITEMS, M. et al. Evidence for European presence in the Americas in AD 1021Nature (2021), 16 páginas, 20 de outubro de 2021. Disponível aqui.

Fonte: National Geographic

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