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Cientistas geram energia a partir da fusão nuclear; entenda como isso pode frear aquecimento global

Pesquisadores do National Ignition Facility no Lawrence Livermore National Lab, na Califórnia, conseguiram fundir moléculas de hidrogênio sem resíduos

27 jan 2022 20h49
| atualizado às 21h28
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Foi apenas por uma fração de segundos, mas ainda assim um passo importante para a geração de energia limpa. Pesquisadores do National Ignition Facility no Lawrence Livermore National Lab, na Califórnia, conseguiram desencadear uma reação de fusão. Usando 192 lasers e o triplo da temperatura do centro do sol, duas moléculas de hidrogênio se fundiram gerando energia sem resíduos. Os dados preliminares do experimento haviam sido divulgados em agosto. Na quarta-feira, 26, os resultados totais foram publicados na revista Nature.

A fusão atingiu 1,5 quatrihão de watts. A energia é liberada quando átomos de hidrogênio se fundem em hélio, o mesmo processo que ocorre nas estrelas. Ao todo foram quatro experimentos com a participação de mais de cem cientistas.

O laboratório é uma unidade voltada a pesquisas com fins militares. O experimento é como se fosse a detonação controlada de uma mini-bomba de hidrogênio. Para isso, os pesquisadores usaram a técnica de confinamento inercial, com um tubo de ouro contendo deutério e trítio congelado. Solto em uma câmara de vácuo, esse recipiente é atingido pelos lasers aquecendo rapidamente e gerando a fusão.

O objetivo dos pesquisadores, ainda distante, é gerar energia da mesma forma que o sol gera calor, com átomos de hidrogênio tão próximos uns dos outros que eles se combinam em hélio, gerando energia. De acordo com os cientistas, eles estão próximos de atingir um avanço ainda maior: a ignição. Ela ocorre quando o combustível queima por conta própria, produzindo mais energia do que o necessário para a reação inicial.

De acordo com Gustavo Canal, pesquisador da USP do laboratório de física de plasma, há ainda uma distância considerável para que isso possa ser usado para a geração de energia limpa, sem a geração de CO2, por exemplo, e a finalidade militar do experimento não pode ser deixada de lado. "Em termos de capacidade experimental, a tecnologia que desenvolveram para chegar aonde chegaram é muito grande", diz. "Se um desses lasers fosse disparado na lua seria possível ver a cratera que se formaria."

Em agosto, Mark Herrmann, vice-diretor do programa de Livermore para a física de armas fundamentais, comparou a reação da fusão com os 170 quatrilhões de watts de raios de sol que chegam à superfície da Terra. "É aproximadamente 10% disso", afirmou na época. E toda a energia de fusão emanava de um ponto quente equivalente ao tamanho de um cabelo humano, completou.

A explosão - basicamente uma bomba de hidrogênio em miniatura - durou apenas 100 trilionésimos de segundo. Ainda assim, gerou otimismo nos cientistas que há muito tempo esperavam que ela pudesse algum dia fornecer uma fonte de energia limpa e ilimitada para a humanidade. As reações surpreenderam a comunidade científica porque a fusão requer temperaturas e pressões tão altas que facilmente fracassam.

Também na época, Siegfried Glenzer, cientista do SLAC National Accelerator Laboratory em Menlo Park, na Califórnia, que liderou os primeiros experimentos de fusão na instalação de Livermore anos atrás, mas não está atualmente envolvido na pesquisa, afirmou estar animado. "Isso é muito promissor para nós, alcançar uma fonte de energia no planeta que não emita CO2."

O CO2 é um dos principais responsáveis pelo aquecimento global. De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima da ONU (IPCC), a Terra está esquentando mais rápido do que era previsto e se prepara para atingir 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na década de 2030, dez anos antes do que era esperado. Com isso, haverá eventos climáticos extremos em maior frequência, como enchentes e ondas de calor.

A redução sustentada nas emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa, no entanto, ainda pode limitar as ameaças dessas mudanças climáticas. Caso contrário, alguns dos efeitos diretos para países como o Brasil serão secas mais frequentes e a queda na capacidade de produção de alimentos.

Desde 1850, já avançamos ao menos 1,1ºC na média da temperatura global. Mais de 0,4ºC de aumento irá produzir número maior de secas severas, ondas de calor, chuvas torrenciais, enchentes, tornados, incêndios florestais e reforçar a tendência de aumento do nível do mar. Todos esses efeitos já ocorrem em nível superiores aos do passado. / com NYT

Estadão
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