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A carta em que Galileu Galilei tentou 'maquiar' ideias 'heréticas' para evitar Inquisição

Escritos originais descobertos em arquivo mostram que o físico italiano alterou versões de textos para afastar a perseguição da Igreja - medida que acabou não sendo suficiente.

3 jan 2019
09h42
atualizado às 11h40
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A Igreja Católica condenou Galileu Galilei por heresia em 1633, após uma batalha de quase 20 anos entre o astrônomo italiano e o Vaticano.

Nova descoberta mostra que Galileu atuou ativamente na tentativa de controle de danos de suas ideias
Nova descoberta mostra que Galileu atuou ativamente na tentativa de controle de danos de suas ideias
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas a descoberta de um documento mostra como o famoso astrônomo, matemático e físico modificou um texto que ele mesmo tinha escrito para tentar evitar um confronto com a Igreja.

Isto é confirmado por uma carta assinada por "G.G.", segundo o pesquisador Salvatore Ricciardo, da Universidade de Bérgamo, na Itália, que encontrou o documento nos arquivos da Royal Society of London - sociedade científica fundada no século 17 e sediada na capital inglesa - em agosto.

A carta, que contém rasuras e correções, foi escrita e alterada pelo próprio Galilei entre 1613 e 1615, assegura Ricciardo.

Em uma primeira versão dos escritos, o físico combate a doutrina geocêntrica. Ditada pela Igreja Católica, ela pregava que o Sol girava em torno da Terra, e não o contrário, como se confirmou posteriormente.

Em uma versão posterior, Galilei suaviza suas afirmações.

Os historiadores acreditavam que a carta havia desaparecido, mas para Ricciardo, ela esteve o tempo todo no catálogo da Royal Society - arquivada, porém, em um lugar errado.

Duas cópias

Galilei escreveu a missiva a seu amigo Benedetto Castelli, matemático da Universidade de Pisa, na Itália, em 21 de dezembro de 1613.

Em um artigo sobre a descoberta de Ricciardo, a revista Nature diz que, no documento, Galilei "expõe pela primeira vez seus argumentos de que a pesquisa científica deve estar livre da doutrina teológica".

"Isso causou uma tormenta", diz a publicação.

Galileu já havia apoiado publicamente a teoria do astrônomo polonês Nicolau Copérnico de que o Sol estava no centro do Sistema Solar.

Numa época em que a maioria das pessoas acreditava que a Terra era o centro do universo, essa nova hipótese era revolucionária - mas também problemática.

Os historiadores sabiam que Castelli havia devolvido a carta a Galileu, segundo a Nature, mas não tinham conhecimento sobre o destino da carta depois disso.

Os historiadores sabiam, entretanto, que havia uma cópia da carta que caiu nas mãos do frade dominicano Niccolò Lorini, que a enviou ao Vaticano em 7 de fevereiro de 1615.

Esta versão está no Arquivo Secreto do Vaticano até hoje.

Versão corrigida

Ricciardo observou rasuras e correções nos escritos do físico italiano
Ricciardo observou rasuras e correções nos escritos do físico italiano
Foto: The Royal Society / BBC News Brasil

Dias depois de Lorini ter enviado a carta transgressora ao Vaticano, Galilei escreveu ao clérigo Piero Dini, em 16 de fevereiro de 1615, dizendo-lhe que a versão nas mãos da hierarquia da Igreja poderia ter sido alterada.

Galileu anexou a Dini uma versão maios branda da primeira carta, assegurando-lhe que esta era a correta e pedindo que ela fosse enviada aos membros do Vaticano.

Até agora, os pesquisadores não sabiam até que ponto a cópia de Lorini teria sido "alterada".

Mas, de acordo com a descoberta de Ricciardo, Galilei teria escrito os dois textos.

"Sob rasuras e correções, a cópia descoberta por Ricciardo mostra o texto original de Galileu, e é igual à versão de Lorini", diz a Nature.

Na versão de Lorini, o físico italiano diz que algumas afirmações na Bíblia "são falsas se alguém é guiado pelo significado literal das palavras".

Na versão suavizada, Galilei riscou a palavra "falsas" e a substituiu por "distintas da verdade".

"A carta de sete páginas fornece a mais forte evidência até agora de que Galileu estava ativamente envolvido no controle de danos (de divulgar suas idéias) e tentou espalhar uma versão atenuada de suas afirmações", diz o texto no site da Nature.

Autor verdadeiro?

Pintura retrata o julgamento de Galileu no Vaticano; ele foi condenado à prisão domiciliar
Pintura retrata o julgamento de Galileu no Vaticano; ele foi condenado à prisão domiciliar
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ricciardo, em parceria com os pesquisadores Franco Giudice, da Universidade de Bérgamo, e Michele Camerota, da Universidade de Cagliari, compararam o manuscrito com outros que o astrônomo italiano escreveu na mesma época e confirmaram que a versão original também pertence a ele.

"No começo, pensei que poderia ser uma cópia, não uma carta original (...) Mas, quando analisamos, percebemos que realmente era a letra de Galileu", disse Ricciardo ao jornal L'Eco di Bergamo.

A Royal Society confirmou à BBC World que a carta seria de Galileu Galilei.

Ricciardo publicará um artigo científico sobre suas descobertas em breve.

A Nature adverte que alguns historiadores se recusaram a comentar a descoberta antes de ver este artigo, mas cita Allan Chapman, um historiador da ciência da Universidade de Oxford, no Reino Unido, elogiando o achado.

"É tão valioso que nos permitirá obter novos conhecimentos sobre este período crítico (da vida de Galilei e do século 17)", disse à revista.

Em 1632, Galileu publicou o livro Diálogo Sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico e Copernicano, no qual apresentou os argumentos favoráveis e contrários à teoria heliocêntrica, na forma de uma discussão entre dois personagens.

A Inquisição então convocou o físico a Roma e finalmente o condenou, em 1633, à prisão domiciliar por heresia.

O cientista passou os últimos anos de sua vida sem sair de casa, até sua morte, em 1642.

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