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Caravanas

Depois de tudo, o PT ainda quer conduzir a caravana da esquerda, da oposição, do centro

15 jan 2020
03h10
atualizado às 07h22
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Onde se lê: A esquerda precisa sair do isolamento e se unir para as eleições de 2020 e 2022, leia-se: Os partidos de esquerda só terão espaço se libertarem-se do PT. Lula e seu partido se mantêm agarrados à cabeça de chapa. É como se o protagonismo fosse um inflexível destino. 

O PT, ainda agora, depois de tudo, quer conduzir a caravana da esquerda, da oposição, do centro e de quem mais esteve e estiver disposto a fazer o que seu mestre mandar. Uma volta ao cenário da primeira eleição de Lula.

É contra isso, o absolutismo político, ainda que suicida, que deixa pelo caminho candidatos de cara nova, ou políticos experientes abertos a novos projetos cuja passagem o PT impede, que se aplica o atual movimento do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). 

Não só dele, mas também do governador do Piauí, Wellington Dias (PT), do governador da Bahia, Rui Costa (PT), do governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e outros de antes e de agora. 

Dino chamou a atenção pela intensa investida em conversas políticas com quem está na onda: a esquerda, o centro e o PT. Esteve com Luciano Huck, que avalia candidatura presidencial, foi ao Instituto Lula, vinha de encontros com o DEM, deu entrevistas clamando por união de todos. Ao mesmo tempo, Wellington Dias reverberou a convocação da qual Rui Costa já tinha se disposto a participar. 

Então é um movimento de governadores do Nordeste? Não. São políticos aliados do PT tentando furar o bloqueio e a rigidez mórbida do partido. Eles não têm força para liderar um projeto nacional. Especialmente Flávio Dino, que está num partido pequeno, não tem base no Congresso nem instrumentos para construir um desejo de amplo alcance. 

São todos governadores que não podem mais pleitear a reeleição pois estão no segundo mandato. Mas têm futuro: querem fazer o sucessor, continuar mantendo o nome em evidência para uma candidatura ao Senado, talvez, e recusam a obediência cega à hegemonia petista. 

As agruras do Executivo fizeram esses governadores conduzir uma gestão contrária à orientação do PT. Todos eles, inclusive os petistas, promoveram a reforma da Previdência, por exemplo, sob protestos do funcionalismo. 

Mas não se pode dizer que esse seja seu projeto, ou que tenham um projeto com o qual pretendem atrair o centro e olhar para o Brasil. Dino governa com um arco de alianças onde estão do PT ao DEM. 

Wellington Dias uniu-se até ao PP de Ciro Nogueira, o símbolo do centro heavy metal, mas já romperam exatamente pela irrecuperável sofreguidão petista. Nogueira ameaça agora, inclusive, lançar candidato ao Senado para concorrer com Wellington. 

Voz ouvida no PT, depois de ouvir Lula, claro, Paulo Teixeira correu a afagar Dino para conter seu atual movimento, afirmando que ele estará numa chapa do PT seja com Lula, seja com Fernando Haddad. A exaltação, que visa neutralizá-lo, não emocionou. 

Ciro Gomes (PDT), que já tem projeto nacional e se afastou do PT e de Lula pelos mesmos motivos que agora se afastam líderes de outros partidos, seria o protagonista natural da construção de um elo entre os insatisfeitos discordantes em pensamento e obras. Mas não teve e ainda não tem têmpera para isso. Inquieto, intranquilo, Ciro precisa refazer seu plano de corrida para o abraço às urnas. 

E tem dado sinais de que está avisado. Já conversa com o PP há muito tempo e prepara-se para fechar aliança nas municipais com o partido de ACM Neto e Rodrigo Maia, o DEM, de quem o PT quer distância, em várias capitais do Nordeste. Esta sim, uma iniciativa dirigida à eleição municipal que tem conexão direta com a eleição presidencial. O jornalista Alberto Bombig revelou ontem, na Coluna do Estadão, que a aliança eleitoral do PDT com o DEM já é palanque acertado em Salvador (BA), Fortaleza (CE) e São Luís (MA). Isso sim é concreto e não é pouca coisa. 

Estadão
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