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'Tem que vir com atitude construtiva', aconselha presidente da Assembleia Geral da ONU a Bolsonaro e outros estreantes

Em sua última entrevista coletiva no cargo, que deixa nesta terça-feira, equatoriana María Fernanda Espinosa diz que assembleia é 'lugar de diálogo e conversa' quando questionada sobre presença de Bolsonaro.

17 set 2019
09h14
atualizado às 10h41
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Em sua última entrevista coletiva como presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, na segunda-feira, em Nova York, a diplomata equatoriana María Fernanda Espinosa aconselhou ao presidente Jair Bolsonaro e aos demais chefes de Estado que farão sua estreia no encontro a virem com uma "atitude construtiva" ao evento principal, marcado para o próximo dia 24.

Questionada pela BBC News Brasil sobre que conselho daria ao presidente brasileiro e aos outros líderes estreantes, Espinosa disse que a ONU é um lugar de 'diálogo', 'concordância' e 'conversa'
Questionada pela BBC News Brasil sobre que conselho daria ao presidente brasileiro e aos outros líderes estreantes, Espinosa disse que a ONU é um lugar de 'diálogo', 'concordância' e 'conversa'
Foto: ONU Foto/Manuel Elias / BBC News Brasil

Questionada pela BBC News Brasil sobre que conselho daria ao presidente brasileiro e aos outros líderes estreantes, Espinosa disse que a ONU é um lugar de "diálogo", "concordância" e "conversa".

"Esta é a casa do diálogo. Esta é a casa da concordância. Esta é uma casa para se conversar. Esta é uma casa onde nos reunimos e fazemos acordos sobre coisas que faremos para melhorar o mundo", disse. "Então, eu diria que, quem quer que venha, tem que ter uma atitude construtiva. Com uma atitude que compreenda que todos fazemos parte da comunidade global e que todos pertencemos à mesma espécie, a espécie humana."

No cargo desde o ano passado, Espinosa passa nesta terça-feira o bastão para o nigeriano Tijjani Muhammad-Bande, que assume como presidente da 74ª Sessão da Assembleia Geral.

Em entrevista à TV Record veiculada na segunda-feira, Bolsonaro confirmou que viajará para Nova York no próximo dia 23, onde fará o discurso de abertura da Assembleia Geral - uma tradição que o Brasil mantém desde a época da criação da ONU, após a Segunda Guerra Mundial. Em 1947, o diplomata Oswaldo Aranha era chefe da delegação brasileira e presidiu a primeira sessão da Assembleia.

"Falei há um tempo atrás que iria de qualquer maneira, nem que fosse de cadeira de rodas", disse o presidente, que deixou o hospital na segunda-feira, após passar por uma cirurgia de correção de uma hérnia decorrente da facada que recebeu durante a campanha eleitoral, em setembro do ano passado.

"Já comecei a rascunhar o discurso, um discurso diferente dos que me antecederam. É conciliatório, sim, mas vai reafirmar a questão da nossa soberania e do potencial que o Brasil tem para o mundo, coisa que poucos ou quase nenhum presidente teve... na ONU."

'Se eu for presidente eu saio da ONU, não serve pra nada esta instituição', disse Bolsonaro no passado
'Se eu for presidente eu saio da ONU, não serve pra nada esta instituição', disse Bolsonaro no passado
Foto: MARCOS CORRÊA/PR / BBC News Brasil

Diversidade

No ano passado, 49 países elegeram novos chefes de Estado - como Bolsonaro, no Brasil - ou tiveram seus líderes reeleitos.

Ainda no comentário sobre os estreantes, Espinosa destacou sua defesa à diversidade.

"Somos todos iguais, apesar de eu ser uma grande defensora da diversidade. Não apenas o multilinguismo, mas também a diversidade cultural, religiosa e geracional", afirmou a chefe da Assembleia, cujo mandato foi marcado por uma maior abertura à imprensa, uma aproximação entre a assembleia e comunidades e pela defesa à igualdade de gênero em cargos de liderança.

Sem qualquer menção direta ao mandatário brasileiro, o comentário vem em um momento de ansiedade em torno do tom que será adotado pelo presidente brasileiro em sua fala, que precede à de seu colega americano, Donald Trump, que neste ano fará seu terceiro discurso no imponente salão projetado a partir de desenhos de Oscar Niemeyer e Le Corbusier.

Em 2017, em sua estreia na megaconferência da ONU, Trump fez piada com o líder norte-coreano Kim Jong-un, chamando-o de "rocket man" ("homem do foguete", em tradução livre) e dizendo que ele estava em uma "missão suicida". A fala, vista como pouco diplomática, ganhou manchetes em todo o mundo e respostas duras de Kim Jong-Un, que disse posteriormente, em nota, que "cachorro assustado late alto".

Na ONU, em 2017, Trump chamou líder norte-coreano de 'rocket man' ('homem do foguete')
Na ONU, em 2017, Trump chamou líder norte-coreano de 'rocket man' ('homem do foguete')
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A Assembleia Geral da ONU é vista como o principal fórum de debate da ONU, já que é o único órgão das Nações Unidas que inclui representantes de todos os países-membros. Membros podem discutir qualquer assunto que esteja na Carta da ONU, de segurança internacional ao orçamento da instituição. A Assembleia pode fazer recomendações, baseadas em suas deliberações - mas não tem poder para forçar os países a agirem de acordo com suas decisões.

Em assuntos-chave, incluindo os de segurança internacional, uma maioria de dois terços é necessária para adotar uma resolução. A Assembleia Geral se encontra por três meses do ano, a partir de setembro, e para sessões especiais e de emergência.

Sua sessão anual começa com um "Debate Geral", em que cada país-membro faz uma declaração sobre sua perspectiva dos eventos mundiais. É este o evento marcado para o próximo dia 24.

'Sair da ONU'

Bolsonaro fara seu primeiro discurso no imponente salão projetado a partir de desenhos de Oscar Niemeyer e Le Corbusier.
Bolsonaro fara seu primeiro discurso no imponente salão projetado a partir de desenhos de Oscar Niemeyer e Le Corbusier.
Foto: AFP / BBC News Brasil

Bolsonaro tem um histórico de críticas às Nações Unidas e seus líderes.

O último episódio aconteceu no início de setembro, quando o presidente brasileiro atacou Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atual Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU.

"Senhora Michele Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Parece que quando tem gente que não tem o que fazer, como a senhora Michelle Bachelet, vai lá para a cadeira de direitos Humanos da ONU", disse o brasileiro a jornalistas. Alberto Bachelet, pai de Michelle, era general e resistiu ao golpe militar de Augusto Pinochet, que completou 46 anos neste mês. Ele foi preso, torturado e morto pela ditadura militar.

Pelo Twitter, junto a uma foto de Bachelet, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, Bolsonaro escreveu: "Michelle Bachelet, Comissária dos Direitos Humanos da ONU, seguindo a linha do Macron em se intrometer nos assuntos internos e na soberania brasileira, investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares."

A ira do presidente veio de uma fala de Michelle Bachelet em 4 de setembro, em Genebra. Principal autoridade ligada a direitos humanos na ONU, Bachelet alertou sobre o que percebe como uma "redução do espaço democrático" no Brasil e criticou ataques e assassinatos de defensores de direitos humanos e comunidades indígenas.

"Dissemos ao governo que é preciso proteger os defensores dos direitos humanos e do meio ambiente, mas também examinar as medidas que podem desencadear violências contra esses defensores", disse Bachelet.

Em 18 de agosto do ano passado, já à frente nas pesquisas de intenção de voto para a presidência, Bolsonaro disse que retiraria o Brasil do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

"Se eu for presidente eu saio da ONU, não serve pra nada esta instituição", disse. "(O Conselho de Direitos Humanos) É uma reunião de comunistas, de gente que não tem qualquer compromisso com a América do Sul, pelo menos", disse o candidato do PSL.

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