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Sob pressão, Twitter diz remover 7 posts de desinformação de covid por hora; 'É pouco', dizem especialistas

Cobrada por usuários e na Justiça, rede social suspendeu contas do empresário Luciano Hang e do pastor Silas Malafaia por violarem suas regras de fake news sobre a pandemia.

13 jan 2022 15h54
| atualizado às 17h38
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Redes sociais como o Twitter estão sob pressão por medidas contra desinformação
Redes sociais como o Twitter estão sob pressão por medidas contra desinformação
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Sob pressão de usuários e da Justiça para combater a desinformação sobre a covid-19, o Twitter diz ter removido 63.876 posts por violarem sua política contra fake news sobre a pandemia no último ano, o que equivale a sete tuítes por hora, em média.

A rede social suspendeu por esse motivo na última semana as contas de dois de seus usuários mais influentes no Brasil.

O pastor Silas Malafaia disse que que a vacinação de crianças contra a covid-19 seria um "infanticídio" e foi obrigado a apagar essa e outras mensagens consideradas "gravemente nocivas".

Seu perfil ficou fora do ar temporariamente por causa disso.

O empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, também foi suspenso. O Twitter disse que fez isso por causa de uma ordem judicial.

Hang esclareceu que o motivo teria sido um vídeo que ele compartilhou, em que um neurocirurgião que é contra a vacinação infantil para covid-19 falava sobre o assunto.

Hang e Malafaia criticaram o Twitter. Disseram que suas suspensões foram injustas e atentam contra sua liberdade de expressão.

O Twitter tem desde março de 2020 uma política específica para combater a divulgação de informações falsas e enganosas sobre covid-19.

Questionada pela BBC News Brasil sobre os resultados obtidos até agora, a empresa apresentou dados que apontam que, em 2021, foram tirados do ar em todo o mundo sete tuítes por hora por causa deste motivo.

O Twitter não divulga o número de postagens publicadas em sua plataforma, mas o site Internet Live Stats aponta que seriam cerca de 500 milhões por dia, ou 20,8 milhões por hora.

Ao todo, no último ano, foram removidos 63.876 tuítes por desinformação sobre covid-19.

Para Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais (Midiars) da Universidade Federal de Pelotas, o número é insuficiente.

"É pouco. É um número muito pequeno para a escala de desinformação que tem hoje só Brasil", avalia Recuero.

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Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS-Rio), concorda.

"Tirar do ar sete posts por hora parece pouco. considerando que o Twitter se tornou umas das principais ferramentas de mobilização e construção de mensagens que são ligadas a conteúdos desinformativos, que vão desde questionar as urnas até duvidar das vacinas", diz Souza.

Os dados do Twitter mostram ainda que, em 2021, foram suspensas 3.455 contas por violarem as regras de desinformação sobre covid-19.

Atualmente, a rede social tem no mundo 211 milhões de usuários ativos (que acessam diariamente o serviço), de acordo com a própria empresa.

O Twitter não quis comentar a avaliação dos especialistas entrevistados pela BBC News Brasil.

A rede social afirmou, no entanto, que vem aprimorando ao longos dos últimos quase dois anos sua política de combate à desinformação sobre a covid-19.

A empresa disse que a remoção de conteúdo e a suspensão de contas são atualmente apenas duas das medidas previstas.

Um tuíte pode, por exemplo, ser sinalizado por conter "informações enganosas e potencialmente prejudiciais". A rede social também pode atrelar um link à publicação para informar melhor o usuário sobre o assunto.

Recuero diz que o Twitter tem sofrido, especialmente nas últimas semanas, críticas e cobranças em relação à sua política de desinformação.

"Acredito que tenha a ver com a vacinação infantil, que provocou essa reação. Mas me parece que o Twitter tem permitido muita desinformação. Tem desinformação até na lista de assuntos mais comentados."

A pesquisadora ressalta ainda que, mesmo quando o conteúdo é removido, o tempo de reação pode comprometer todo o esforço.

"O objetivo dos posts desinformativos é viralizar e, quando viralizam, eles têm uma quantidade absurda de retuítes. Se a plataforma demora para excluir o tuíte original, ele já vai ter sido muito replicado, e a remoção do primeiro post acaba sendo ineficaz."

Isso é especialmente preocupante, segundo Souza, quando as mensagens falsas ou enganosas são publicadas por pessoas que têm muitos seguidores, como Hang e Malafaia.

"As postagens ganham uma visibilidade e repercussão ainda maior", avalia.

O que aconteceu?

Conta do empresário Luciano Hang foi suspensa
Conta do empresário Luciano Hang foi suspensa
Foto: Reprodução / BBC News Brasil

O empresário Luciano Hang tinha mais de 250 mil seguidores, por exemplo, em sua conta no Twitter que foi suspensa na quarta-feira (12/1).

Este era seu segundo perfil na rede social e foi criado após o primeiro ter sido tirado do ar por ordem do STF ainda em 2020.

O Twitter informou que a nova medida também foi tomada por ordem da Justiça, mas não deu mais detalhes.

O empresário explicou, em nota enviada à imprensa, que o motivo teria sido o compartilhamento de um vídeo em que o médico José Augusto Nasser fala sobre a vacinação infantil.

Nasser foi um dos convidados pela deputada federal Bia Kicis (PSL/DF) para falar na audiência pública promovida pelo Ministério da Saúde sobre o tema.

Na ocasião, ele se manifestou contra a imunização de crianças para covid-19.

Em reação à sua suspensão, Hang disse que a medida viola seu direito à liberdade de pensamento e de expressão.

"Um absurdo! Não é possível que se tenha uma única verdade e que você não possa questioná-la. Agora não podemos mais compartilhar informações para as pessoas tomarem suas próprias decisões?", questionou Hang.

Silas Malafaia também teve sua conta - onde tem 1,4 milhão de seguidores - suspensa nesta semana.

O pastor evangélico foi alvo da campanha #DerrubaMalafaia para que ele fosse banido.

O estopim foi uma postagem em que o pastor disse que a vacinação de crianças contra a covid-19 seria um "infanticidio", embora estudos atestem que a imunização é segura.

Os eventos adversos graves são considerados muito raros e não foram detectados até agora nas milhões de doses já aplicadas em crianças de alguns países, de acordo com especialistas.

Conta do pastor Silas Malafaia foi suspensa por 12 horas por violar regras do Twitter
Conta do pastor Silas Malafaia foi suspensa por 12 horas por violar regras do Twitter
Foto: Reprodução / BBC News Brasil

Malafaia disse ainda que "os números provam que não há necessidade [de vacinar crianças]", sem apresentar dados na ocasião.

Isso contraria as posições apresentadas até agora por autoridades em saúde do mundo, que indicam a importância da vacinação de crianças para proteção individual e coletiva no combate à pandemia.

"As vacinas que receberam autorização de autoridades regulatórias rigorosas para a indicação de idade de crianças e adolescentes são seguras e eficazes na redução da carga de doenças nessas faixas etárias", disse a Organização Mundial da Saúde (OMS).

"A redução da transmissão intergeracional é um importante objetivo adicional de saúde pública ao vacinar crianças e adolescentes", prosseguiu.

"A vacinação de crianças e adolescentes também pode ajudar a promover outros objetivos sociais altamente valorizados. Manter a educação para todas as crianças em idade escolar deve ser uma prioridade importante durante esta pandemia", afirmou a OMS.

Além disso, o Brasil é destaque negativo no mundo por morte de crianças por covid-19. Os dados oficiais mostram que houve no país até agora 1.449 óbitos de meninos e meninas de até 11 anos.

Os usuários cobraram o Twitter, que divulgou na terça-feira (11/1) que "alguns" tuítes de Malafaia violaram sua política.

A rede social exigiu que o pastor apagasse os posts problemáticos e restringiu as atividades na sua conta por 12 horas.

À BBC News Brasil, Malafaia disse que não inventou nem manipulou dados.

Ele afirmou ter se baseado em números do Ministério da Saúde divulgados em um artigo científico sobre vacina contra covid-19 para crianças e adolescentes, assinado pelos médicos Eduardo Jorge da Fonseca Lima, Sônia Maria de Faria e Renato de Ávila Kfouri.

O texto aponta que, em 2021, até 18 de setembro, 1,6% dos casos de síndrome respiratória aguda grave - doença usada como parâmetro para os números de caso de covid-19 no país - tinham ocorrido em pessoas de até 19 anos. A mesma faixa etária respondeu por 0,4% dos óbitos.

"Qual é a pressa de vacinar crianças?", questionou Malafaia. O pastor criticou o Twitter pela remoção dos seus tuítes.

"O sistema é ridículo. Um monte de gente começa a pressionar, agindo ideologicamente, e eles mandam tirar do ar senão o Twitter não volta a funcionar, quando o certo seria, se há uma acusação, que você possa se defender e então analisem se está certo ou errado", diz Malafaia.

"Um instrumento basilar da liberdade de expressão é a livre manifestação do pensamento, por mais esdrúxulo que seja. O Estado democrático de direito está sendo violado na maior cara de pau, e as pessoas estão assistindo e batendo palmas."

'Twitter pode fazer melhor', diz pesquisadora

Vacinação de crianças contra covid-19 é alvo de intensa campanha de desinformação
Vacinação de crianças contra covid-19 é alvo de intensa campanha de desinformação
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Os dois casos são um um exemplo dos problemas enfrentados pelas redes sociais para controlar a circulação de desinformação e que se tornaram mais agudos com a pandemia.

Essas empresas foram intensamente cobradas por medidas e divulgaram nos últimos dois anos medidas para coibir a propagação de informações falsas e enganosas.

Mas Raquel Recuero avalia que o trabalho do Twitter no Brasil a esse respeito deixa a desejar em comparação com o que acontece na própria rede social em inglês e com seu principal rival, o Facebook.

Em meio a um estudo sobre o engajamento provocado por posts de desinformação, os pesquisadores do Midiars buscaram os 250 posts sobre vacina mais compartilhados em fóruns públicos no Facebook e no Twitter no segundo semestre de 2020.

Foi considerado desinformação todo conteúdo atestado como falso pela rede de checagem International Fact-Checking Network.

O objetivo era criar uma amostra de posts para o estudo, mas o levantamento trouxe outros dados relevantes.

Os pesquisadores do Midiars notaram que a absoluta maioria dos posts publicados originalmente no Twitter ainda estavam no ar. "E nas fontes originais", ressalta Recuero. "Ou seja, eles nunca foram apagados."

O resultado foi diferente com o levantamento no Facebook."Não conseguimos recuperar um número bem grande de publicações originais. Elas não estavam mais no ar", diz Recuero.

Uma análise dos pesquisadores também mostrou que posts equivalentes na rede social em inglês haviam sido excluídos.

"Quando as mesmas teorias conspiratórias e desinformação circularam em inglês, foram tiradas do ar. Em português, ficou."

Ao final, entre os 250 posts mais compartilhados (que ainda permaneciam no ar), 51% continham desinformação sobre vacina no Facebook. O índice foi de 70% no Twitter.

"Por isso, me parece que o Facebook tem sido mais eficiente no monitoramento da desinformação", avalia Recuero.

O Twitter disse à BBC News Brasil que "aguarda o acesso aos dados completos da pesquisa, bem como os links dos conteúdos considerados como desinformação, para fazer sua análise e, assim, estar apto a comentar as conclusões".

Os desafios do controle da desinformação

O controle da desinformação é delicado, porque transita em meio à linha tênue entre opinião e informação.

Opiniões vêm acompanhadas me muitos casos de argumentos supostamente científicos que podem ter sido distorcidos ou já terem sido refutados.

A situação fica mais difícil porque a polarização política contaminou o debate sobre a pandemia, que também se radicalizou em extremos opostos.

Em uma rede social como o Twitter, fazer esse controle da desinformação é ainda mais complicado por causa da forma como a rede social funciona, explica Carlos Affonso Souza, do ITS-Rio.

Trata-se de um serviço construído em torno da ideia de conversas públicas, sobre temas de interesse público, em que são debatidas opiniões e pontos de vista.

"Por isso, tem um olhar sobre a liberdade de expressão no sentido de não prejudicar esse debate e deixar certas posições no ar para que elas sejam desacreditadas e contraditadas pelos próprios usuários", afirma Souza.

O problema é que nem todos que participam dessa conversa têm o mesmo peso ou influência.

"Não é uma conversa entre iguais", diz Souza. "No final, vira um palanque para quem consegue falar mais alto, um lugar para promover discursos enganosos."

São justamente nomes influentes que mais contribuem para propagar a desinformação sobre a covid-19.

"Autoridades emprestam sua credibilidade para essa informação, que acaba sendo republicada milhares de vezes. Elas precisam ser responsabilizadas pelo que dizem publicamente, porque o que elas publicam viraliza, tem muita força e impacto", diz Recuero.

Mas a pesquisadora faz um alerta: "Se você fizer uma pesquisa sobre vacina e infanticídio no Twitter, vai ver a quantidade de tuítes que tem parecidos ao que foi excluído".

"Não foi só ele que falou isso, então, não adianta tirar só o post dele do ar."

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