PUBLICIDADE

Por que gasolina vai continuar cara mesmo com troca do presidente da Petrobras

Demissão de Silva e Luna não deve mudar política de preços da estatal, assim como saída de Castello Branco em 2021 não alterou, avaliam economistas.

28 mar 2022 22h14
| atualizado em 29/3/2022 às 11h39
ver comentários
Publicidade
Demissão de Silva e Luna não deve mudar política de preços da estatal, assim como saída de Castello Branco em 2021 não alterou, avaliam economistas
Demissão de Silva e Luna não deve mudar política de preços da estatal, assim como saída de Castello Branco em 2021 não alterou, avaliam economistas
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / BBC News Brasil

A demissão do presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna — ainda não oficializada, mas confirmada pelo Ministério de Minas e Energia nesta segunda-feira (28/3) —, não deve mudar a política de preços da estatal, avaliam economistas que atuam no mercado financeiro.

Segundo os analistas, a demissão é uma ação política do presidente Jair Bolsonaro (PL) para deixar claro à sua base em ano eleitoral seu descontentamento com a alta de preços dos combustíveis, após o forte reajuste promovido pela Petrobras no início de março, com aumento de 25% do diesel, 19% da gasolina e 16% do gás de botijão.

Mas, assim como aconteceu com a demissão de Roberto Castello Branco em fevereiro de 2021, após um reajuste de 14,7% no diesel e 10% na gasolina pela estatal naquele mês, os economistas avaliam que a saída de Silva e Luna não deve resultar em uma mudança significativa nos rumos da empresa.

Ainda mais que o nome escolhido para substituir Silva e Luna é o do consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e que foi conselheiro para a área de energia da campanha de Aécio Neves (PSDB) em 2014.

O novo presidente da Petrobras foi um feroz crítico da política de controle de preços durante o governo de Dilma Rousseff (PT) e é um defensor vocal da paridade internacional — modelo em que o preço dos combustíveis no mercado interno segue a variação de itens como o preço do barril de petróleo no exterior e a cotação do dólar.

Em entrevista à BBC News Brasil ao fim de fevereiro, por ocasião do início da guerra na Ucrânia, Pires defendeu que o petróleo em alta é bom para o Brasil, apesar de gerar inflação, porque o país é produtor e exportador do óleo e, portanto, a arrecadação de impostos da União, Estados e municípios cresce quando os preços sobem.

'Não é fácil alterar a política de preços'

"A mudança é ruim, porque mostra que o governo está interferindo na empresa", avalia Gabriel Leal de Barros, sócio e economista-chefe da gestora de recursos Ryo Asset.

"Não quero minimizar essa interferência política, mas acredito que o mercado já entendeu que a forma de Bolsonaro conduzir é ruidosa, sem que no final do dia tenha mudança material na política da empresa", observa.

"Foi o que aconteceu com a entrada do Silva e Luna. Estamos vivendo novamente o que vivemos quando Castello Branco saiu, que o mercado ficou superapreensivo e, no fim das contas, o Silva e Luna não alterou [a paridade de preços]. A verdade é que não é fácil alterar a política e o mercado entendeu isso", conclui o analista.

Para José Francisco Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, a descrença do mercado com relação a uma mudança na política de paridade se reflete na pequena queda das ações da Petrobras nesta segunda-feira.

As ações ordinárias da empresa (aquelas com direito a voto) caíram 2,63%, negociadas a R$ 34,08, e as preferenciais (sem direito a voto) recuaram 2,17%, cotadas a R$ 31,60.

Os papéis já estavam em queda mesmo antes da notícia da provável demissão, devido à baixa nos preços do petróleo nessa segunda-feira, com o endurecimento do lockdown contra a covid-19 na China, que gera preocupações sobre o crescimento da economia do país asiático.

"Uma queda de 2,6% é pouca coisa, aparentemente o pessoal não está levando muito a sério", observa Gonçalves.

"Como já aconteceu isso [a demissão de um presidente da Petrobras sob Bolsonaro após reajuste de preços], isso é visto mais como uma 'esperneada', uma tentativa de Bolsonaro de dizer 'eu faço o que consigo, mas o pessoal não ajuda', como ele tem feito recentemente", observa.

Traseunte passando pela fachada da Petrobras
Traseunte passando pela fachada da Petrobras
Foto: Arquivo/Agência Brasil / BBC News Brasil

Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, compartilha da visão dos colegas, de que a mudança de política é improvável, mas reforça que ela seria muito negativa para a economia e bastante malvista pelo mercado.

"Seria bem negativo, não só para a Petrobras, mas também do ponto de vista fiscal, porque controle de preços nunca é bem visto. Não funciona para a controlar a inflação e só cria mais estresse, porque o preço represado gera mais expectativa de inflação no futuro", diz Vitória.

"Se de fato houver uma mudança na política e uma redução forçada de preços, isso pioraria a expectativa de juros, num momento em que o Banco Central finalmente conseguiu ancorar as expectativas de alta para a Selic em 12,75%. O BC ter que subir mais juros, se as expectativas piorarem novamente, pode impactar no crescimento da economia", acrescenta.

'Petróleo em alta é bom para o Brasil'

Cotado para assumir a presidência da Petrobras, o consultor do setor de energia Adriano Pires é um defensor histórico da política de paridade de preços.

A Petrobras adotou o chamado PPI (Preço de Paridade de Importação) em 2016, após anos praticando preços controlados, sobretudo no governo Dilma Rousseff. O controle de preços era uma forma de mitigar a inflação, mas causou grandes prejuízos à petroleira.

Por essa política, em momentos como o atual, em que o petróleo está mais caro no mercado internacional devido aos efeitos da guerra na Ucrânia, os preços dos combustíveis ficam mais caros no mercado interno.

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), foi conselheiro de Aécio Neves (PSDB) em 2014 e crítico feroz do controle de preços durante o governo Dilma Rousseff (PT)
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), foi conselheiro de Aécio Neves (PSDB) em 2014 e crítico feroz do controle de preços durante o governo Dilma Rousseff (PT)
Foto: Divulgação/CBIE / BBC News Brasil

Em entrevista à BBC News Brasil em 24 de fevereiro, quando o barril do petróleo chegou a valores acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2014, Pires disse que o petróleo em alta é bom para o Brasil, apesar de gerar inflação.

"O Brasil hoje, ao contrário do passado, virou um grande produtor e exportador de petróleo. Então o petróleo caro aumenta a arrecadação de Estado, município e União no Brasil. Isso é notícia boa, um país importador está muito pior do que Brasil", disse Pires, na ocasião

"Às vezes o pessoal me liga e pergunta: 'Adriano será que o petróleo volta para US$ 50?' Eu digo: o Brasil é exportador, eu quero que o petróleo vá a US$ 200. Pergunte à Arábia Saudita se ela prefere petróleo a US$ 200 ou a US$ 50, agora nós somos do time da Arábia Saudita", completou.

Pires defendeu então usar parte do aumento de arrecadação gerado pela alta do petróleo para criar programas sociais voltados a públicos específicos, como subsidiar as tarifas do transporte urbano, dar um auxílio aos caminhoneiros autônomos e aumentar o número de famílias beneficiadas com o auxílio-gás aprovado no Congresso ano passado.

Em fevereiro, o Senado aprovou um projeto para que o governo federal repasse aos municípios, Estados e Distrito Federal o valor da gratuidade dos idosos no transporte público urbano. A proposta evitaria aumento da passagem esse ano, segundo prefeituras, mas ainda aguarda votação na Câmara.

O Senado também aprovou projeto que amplia acesso ao auxílio-gás para 11 milhões de famílias e um auxílio-gasolina para taxistas, motoristas de aplicativos e entregadores. As propostas também aguardam votação na Câmara, mas o auxílio para motoristas só seria possível em 2023, devido à legislação eleitoral.

Gonçalves, do Fator, e Leal de Barros, da Ryo Asset, veem o nome de Pires com bons olhos.

"O Adriano é um cara do setor, um técnico cuja especialidade é o setor de óleo e gás. Isso minimizaria o receio do mercado de um 'cavalo de pau' na política de preços", diz Leal de Barros.

"A mudança é ruim de qualquer forma, mas um fator que minimiza é o custo reputacional de um próximo presidente especialista no setor de topar esse desgaste de credibilidade [que seria gerado por uma mudança na política de preços]. Não é todo mundo que topa jogar seu nome no lixo para atender uma demanda política", completa.

Segundo Barros, a reação seria muito diferente se o escolhido for um nome como o de Caio Mario Paes de Andrade, atual secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia e antes presidente da Serpro (estatal de processamento de dados do governo).

O nome de Andrade circulou no mercado como possível substituto de Silva e Luna nos últimos dias.

"Ele não tem nenhuma experiência no setor e o mercado com certeza ia ver com maus olhos", conclui o economista da Ryo Asset.

Sabia que a BBC está também no Telegram? Inscreva-se no canal.

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Publicidade
Publicidade