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Violência da ditadura 'veio das forças golpistas', diz Serra

Ex-governador depôs à Comissão da Verdade da Câmara de SP na condição de ex-presidente da UNE. "Quem praticou a violência foi quem fechou a democracia", declarou

1 abr 2014
15h52
atualizado às 16h37
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O ex-governador José Serra (PSDB) afirmou nesta terça-feira em depoimento à Comissão da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, que a violência que marcou o período de ditadura no Brasil partiu de setores da direita que compuseram as “forças golpistas” do país, e não da esquerda .

Serra falou à comissão na condição de ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) à época do golpe
Serra falou à comissão na condição de ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) à época do golpe
Foto: Janaina Garcia / Terra

Serra falou à comissão na condição de ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) à época do golpe que, em 1º de abril de 1964, destituiu o presidente eleito João Goulart e instaurou um regime militar que se estenderia até 1985.

A declaração do tucano contraria o que não apenas defensores da ditadura, como os próprios militares afirmam há décadas: que militantes de esquerda eram adeptos da luta armada na tentativa de, supostamente, se instalar um regime comunista no País. “Quem praticou a violência foi quem fechou a democracia; foram as forças golpistas”, defendeu Serra, para quem “o negócio da direita era derrubar, sem mais - ela tinha muito mais objetividade no que queria”.

Em entrevista coletiva, o ex-governador reforçou: “A violência foi fruto do represamento da luta democrática, do fechamento dos canais de participação da sociedade”.

"Achava que coquetel molotov era um drink"
“No Brasil pré-64 não havia da parte da população nenhum tipo de preparo para a luta armada, ou para organização de atentados. Eu era presidente da UNE. É óbvio que, se houvesse esse preparo, eu tomaria conhecimento”, declarou, para completar: “Eu achava que coquetel molotov era um coquetel com gin, com vodca, que o ministro de relações exteriores da União Soviética do Stálin tomava. Não sabia nem o que era isso.”

No plenário da Câmara, o ex-governador destacou que setores da mídia também apoiaram os militares. "Havia uma figura sinistra na mídia brasileira que era o (fundador do conglomerado Diários Associados) Assis Chateaubriand." E frisou: "Entre os abusos cometidos pelo regime, ao lado de torturas e assassinatos de presos políticos, estavam também as prisões arbitrárias." 

"Curiosamente, isso passa batido hoje. E isso também é uma questão de direitos humanos”, reclamou Serra, que foi condenado “por propaganda subversiva para derrubar a ordem estabelecida pelas armas, pela violência”, e acabou exilado no Chile.

Na entrevista, porém, Serra negou que as prisões arbitrárias da ditadura tenham qualquer tipo de semelhança, por exemplo, com as “detenções para averiguação” de que a Polícia Militar de São Paulo se valeu nas manifestações de rua. Entidades de direitos humanos contestaram esse formato de prisão, alegando, também, que seriam arbitrárias.

“Hoje você não tem violência política, comparativamente ao que tinha”, resumiu. Sobre as afirmativas de que eventuais atos violentos da PM atualmente derivem do regime militar - como já alegaram, em mais de uma oportunidade desde a eclosão das manifestações recentes, especialistas em segurança pública -, Serra refutou: “Acho que não tem nada a ver.”

Comissão quer ouvir ex-assessor de Delfim
Para o presidente da Comissão da Verdade, vereador Gilberto Natalini (PV), os depoimentos de Serra e do ex-presidente da UNE, Duarte Pacheco Pereira, "cumpriram com o esperado".

"Queríamos trazer a visão do movimento estudantil da época do golpe, e isso foi feito em depoimentos de cunho muito pessoal. Agora, queremos ouvir militares ligados à repressão e um ex-assessor do ex-ministro Delfim Neto: queremos que ele explique a passagem de chapéu de militares a empresários paulistas que financiaram o Doi-Codi (palco de torturas e um dos principais organismos da repressão). Ele está correndo, mas vamos buscá-lo e tentar que a Comissão Nacional da Verdade o convoque, ao invés de o convidar", pontuou Natalini.

A previsão da comissão municipal é apresentar o relatório final de seus trabalhos em dezembro deste ano.

Fonte: Terra
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