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Suspeito de hackear Moro diz que outro investigado pretendia vender conteúdo ao PT

Advogado de Gustavo Santos diz que seu cliente nega participação em crime e não sabe se operação sugerida por Walter Delgatti se concretizou

24 jul 2019
23h14
atualizado às 23h27
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Gustavo Santos, um dos suspeitos de ter invadido contas do aplicativo de mensagens Telegram de autoridades, contou nesta quarta-feira à Polícia Federal (PF) que outro investigado, Walter Delgatti Neto, lhe disse que pretendia vender ao PT conversas interceptadas do ministro da Justiça, Sergio Moro.

O conteúdo do depoimento à PF foi revelado a jornalistas pelo advogado de Santos, Ariovaldo Moreira.

Moro reportou à PF uma tentativa de invasão do seu celular em 4 de junho
Moro reportou à PF uma tentativa de invasão do seu celular em 4 de junho
Foto: MAURO PIMENTEL/AFP / BBC News Brasil

"O Walter disse (a Gustavo Santos) que a intenção seria vender ao PT. Meu cliente não sabe se ele (realmente) vendeu ou não, se entregou de graça para alguém, meu cliente não sabe", disse Moreira.

Santos, que é amigo antigo de Delgatti, nega que tenha participado da invasão de contas de Telegram de autoridades. Segundo Moreira, seu cliente estava afastado de Delgatti, após ele próprio ter sido hackeado pelo amigo.

Delgatti, então, teria mostrado as mensagens no seu computador, por meio de uma ligação de vídeo com Santos, numa possível tentativa de reaproximação.

Moro reportou à PF uma tentativa de invasão do seu celular em 4 de junho. Já os procuradores da Lava Jato em Curitiba notaram ação semelhante em abril, segundo a polícia.

Santos, Delgatti e mais duas pessoas foram presas provisoriamente na terça, suspeitos de formar uma organização criminosa.

A polícia não apresentou, até o momento, evidências que confirmem ou descartem que a atuação do grupo tenha relação com as conversas que vêm sendo reveladas desde 9 de junho pelo site The Intercept Brasil, envolvendo Moro, o chefe da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, e outros procuradores. Caso os diálogos sejam verdadeiros, indicam uma atuação ilegal de Moro a favor da acusação nos casos da Lava Jato.

No Twitter, no entanto, o atual ministro da Justiça relacionou as prisões desta terça-feira com as mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil.

A polícia não apresentou evidências que confirmem ou descartem que a atuação do grupo tenha relação com as conversas que vêm sendo reveladas pelo site The Intercept Brasil
A polícia não apresentou evidências que confirmem ou descartem que a atuação do grupo tenha relação com as conversas que vêm sendo reveladas pelo site The Intercept Brasil
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Parabenizo a Polícia Federal pela investigação do grupo de hackers, assim como o MPF e a Justiça Federal. Pessoas com antecedentes criminais, envolvidas em várias espécies de crimes. Elas, a fonte de confiança daqueles que divulgaram as supostas mensagens obtidas por crime", escreveu.

O Intercept Brasil diz que recebeu o conteúdo de uma fonte anônima, semanas antes do dia 4 de junho, quando Moro reportou a invasão. Todas as conversas divulgadas até agora envolvem Dallagnol, indicando que o material em posse do site veio da conta de Telegram do procurador.

Como teria sido a invasão?

A investigação da Polícia Federal que levou às prisões indica que o hackeamento de autoridades ocorreu na conta do aplicativo de mensagens do Telegram, por meio da interceptação do envio de um código pelo aplicativo para sincronizá-lo fora do aparelho celular, em computadores.

Segundo a polícia, os investigados usaram tecnologia VOIP (serviços de voz sobre IP), que permite a realização de ligações via computadores, telefones convencionais ou celulares de qualquer lugar do mundo.

O serviço utilizado no caso foi prestado pela microempresa BRVOZ, aponta a investigação. Por meio desse serviço, diz a decisão, "o cliente/usuário da BRVOZ utilizando a função 'identificador de chamadas' pode realizar ligações telefônicas simulando o número de qualquer terminal telefônico como origem das chamadas".

Com essa tecnologia, os investigados teriam solicitado o código de acesso para ativar o serviço Telegram Web (uso do aplicativo de conversas no computados) por meio de ligação telefônica.

O invasor, então, teria realizado diversas ligações para o número de Sergio Moro, com objetivo de manter a linha ocupada, para que a ligação contendo o código de ativação do serviço Telegram Web fosse direcionada para a caixa postal da vítima.

O ministro havia relatado ter recebido ligações de seu próprio número no dia 4 de junho, o que pode configurar essa tentativa de bloquear a linha.

O uso desse mesma tecnologia permite que sejam feitas ligações para a caixa postal, com o uso simulado da linha telefônica da vítima. Com isso, é possível ouvir a mensagem enviada pelo Telegram com o código para acesso no computador.

Segunda a decisão judicial, a PF passou, então, a "verificar as rotas e interconexões das ligações efetuadas para o telefone que era utilizado pelo Sr. Ministro da Justiça e Segurança Pública, notadamente das ligações que foram originadas do próprio número telefônico da vítima".

"Assim identificou-se a rota de interconexão com a operadora Datora Telecomunicações Ltda que transportou as chamadas destinadas ao número do Sr. Ministro Sérgio Moro, após ter recebido as chamadas através da rota de interconexão baseada em tecnologia VOIP", continua a decisão.

Após a análise do sistema da BRVOZ, a PF identificou que todas as ligações efetuadas para o telefone de Moro partiram do usuário cadastrado em nome de Anderson José da Silva.

Essa foi também a origem de ligações destinadas a outras autoridades públicas que tiveram o aplicativo Telegram invadido de forma ilícita, como o desembargador Abel Gomes (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), que julga casos da Lava Jato no Rio de Janeiro na segunda instância judicial, além do juiz federal Flávio Lucas (18ª Vara Federal do Rio de Janeiro) e os delegados de Polícia Federal Rafael Fernandes (SR/PFISP) e Flávio Vieitez Reis (DPF/CAS/SP).

A investigação identificou ainda que "os clientes BRVOZ" realizaram 5616 ligações em que o número de origem era igual ao número de destino.

Paulo Guedes relata ter sido vítima

Segundo o delegado João Vianey Xavier Filho, cordenador geral de inteligência da PF, agentes encontraram equipamentos compatíveis com essas práticas nos endereços dos suspeitos, durante as buscas realizadas na terça. Ele disse que há conversas das contas hackeadas que foram baixadas pelos investigados e armazenadas nos computadores - o material será ainda periciado.

"Encontramos um computador contendo vários atalhos para acesso de contas de aplicativos de mensagens, confirmando as suspeitas de que havia captura sistemática de contas de aplicativos de mensagem", contou, em breve apresentação a jornalistas.

"Dos cruzamentos preliminares realizados, verificou-se que aproximadamente mil números de telefone foram alvo desse mesmo modus operandi por essa quadrilha", ressaltou ainda.

De acordo com o perito criminal federal Luiz Spricigo Júnior, diretor do Instituto Nacional de Criminalística, outro indício do envolvimento dos presos preventivos nas recentes invasões dos celulares de autoridades foi a identificação de uma conta salva como Paulo Guedes, nome do ministro da Economia, no material apreendido na operação.

"Mas ainda precisa ser confirmado na perícia (que se trata da conta de Telegram do ministro)", ressaltou.

De acordo com perito criminal, foi encontrada uma conta salva como Paulo Guedes, nome do ministro da Economia, no material apreendido
De acordo com perito criminal, foi encontrada uma conta salva como Paulo Guedes, nome do ministro da Economia, no material apreendido
Foto: REUTERS/Adriano Machado / BBC News Brasil

Guedes relatou ter sido hackeado nesta segunda.

O delegado e o perito não aceitaram responder perguntas de jornalistas após a breve apresentação, sob a justificativa de que as investigações ainda estão em andamento, sob sigilo.

Na casa de um dos investigados, também foram encontrados quase R$ 100 mil em espécie. Para Vianey, eles "estão de alguma forma ou outra vinculadas a fraudes bancárias eletrônicas, em diferentes graus".

Os presos

Os outros dois presos, além de Gustavo Santos e Walter Delgatti Neto, são Danilo Cristiano Marques e Suelen Priscila de Oliveira, namorada de Santos.

Para chegar aos quatro suspeitos, a PF analisou os IPs (protocolos de internet) atribuídos aos dispositivos (computador ou smartphone) que se conectaram ao VOIP da empresa BRVOZ. Os endereços dos usuários desses IPs foram descobertos por meio dos registros cadastrais fornecidos pelos provedores de internet.

"As prisões temporárias dos investigados são essenciais para colheita de prova que por outro meio não se obteria, porque é feita a partir da segregação e cessação de atividades e comunicação dos possíveis integrantes da organização criminosa, podendo-se com isso partir-se, sendo o caso, para provas contra outros membros da organização e colheita de depoimentos de testemunhos sem a influência ou interferência prejudicial dos indiciados", justificou o juiz.

Um relatório de informações financeiras apontou movimentações suspeitas de Gustavo Santos e Suelen Oliveira. Segundo a PF, ele movimentou em sua conta bancária R$ 424 mil entre 18 de abril e 29 de junho deste ano, enquanto em seu cadastro no banco conste a renda mensal de R$ 2.866.

Já Oliveira movimentou R$ 203,5 mil entre sete de março e 29 de maio, tendo renda mensal cadastrada de R$ 2.192.

Por causa dessas movimentações, a decisão judicial autorizou a quebra de sigilo bancário dos quatro suspeitos para "realizar o rastreamento dos recursos recebidos ou movimentados pelos investigados e de averiguar eventuais patrocinadores das invasões ilegais dos dispositivos informáticos (smartphones)".

O advogado de Santos disse que o valor movimentado vem de operações com bitcoin (moeda virtual) e que seu cliente apresentará provas disso.

O juiz autorizou, ainda, a quebra do sigilo nas comunicações dos quatro por emails.

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