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Cartunistas protestam contra censura a exposição crítica a Bolsonaro

Mostra de charges com críticas a Bolsonaro e Trump foi retirada da Câmara de Vereadores de Porto Alegre

5 set 2019
20h31
atualizado às 22h12
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Após a Câmara de Vereadores de Porto Alegre ter determinado a retirada de uma exposição de charges do saguão do prédio, por conter críticas aos presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, os cartunistas integrantes da mostra fizeram, ontem, protesto em frente à sede do Legislativo municipal.

Com réplicas dos desenhos em tamanho reduzido, os artistas se manifestaram contra o que entendem ter sido um ato de censura da presidência da Câmara Municipal. A exibição, batizada de O Riso é Risco - Independência em Risco, trazia 36 obras de 19 cartunistas diferentes.

Foto: Reprodução

Os trabalhos, em tamanho A3, tinham permissão para ficar no hall da Câmara até 19 de setembro, porém foram retirados menos de 24 horas depois de entrar em cartaz. Na descrição da mostra, os artistas dizem que, "armados com seus lápis, pincéis e tintas", o objetivo é denunciar o "autoritarismo, a intolerância e a violência".

Durante o protesto, os trabalhos foram expostos em um varal improvisado junto ao portão do Legislativo, incluindo uma tarja com a palavra "censurado" em cada cartoon. Para o jornalista Celso Schröder, cartunista desde 1974, a manifestação ganhou proporções além da própria exibição.

"Essa censura, burra e estúpida como toda censura, acabou fazendo a exposição circular muito mais do que se ela ficasse no âmbito da Câmara. Além disso, a defesa da exposição mostra uma preocupação com a liberdade e a independência brasileira de nós indivíduos", advertiu. Em função da repercussão, Schröder cogita acionar a Justiça para retomar a apresentação na Casa.

Responsável por suspender a mostra, a presidente da Câmara Municipal, vereadora Mônica Leal (PP), afirmou ter sido comunicada do conteúdo da exibição por pessoas de fora do Legislativo. Ela justifica que o pedido para receber a mostra partiu do vereador Marcelo Sgarbossa (PT), sem indicar o conteúdo de todos os desenhos.

"Verificou-se que o que estava ali exposto caracterizava clara falta de respeito ao presidente da República, falta de limite e de bom senso. O exercício da liberdade de expressão, um importante direito que a democracia conquistou, não exime as pessoas de suas responsabilidades e noções de limite e de coletividade. Os espaços da Câmara Municipal são destinados para exposições de arte, de memória e de história. O respeito, o bom senso e a ponderação são princípios básicos que devem orientar o poder público e não podem ser deixados de lado", defendeu Mônica Leal.

Surpreso negativamente com o cancelamento da exposição, Sgarbossa deixou claro que o pedido de uso do espaço partiu dos próprios cartunistas, sem interferência política do PT. Presente no ato, o vereador petista colocou em xeque o Estado democrático de direito. "A repercussão que teve o caso da censura da exposição dos cartunistas, tanto no Brasil quanto no exterior, nos dá mais força porque está escancarando essa falsa democracia que estamos vivendo", criticou.

Chargista ácido, Carlos Latuff lamentou o episódio, ao recordar das vezes em que foi censurado por autoridades de países como Egito e Turquia. "A atitude arbitrária é perigosa para um país que se apresenta como democracia. A Câmara de Vereadores de Porto Alegre, tendo a frente Mônica Leal, agiu de maneira autoritária, bem característica de regimes ditatoriais, violando inclusive a Constituição do Brasil em seu artigo 5°. Parece que a vereadora tem saudade dos tempos da censura do regime militar", alertou.

Já o artista Leandro Dóro, um dos organizadores da mostra, lembrou ainda o ano de 1990, quando de "forma escancarada" um grupo de artistas gaúchos foi censurado, quando a Revista DumDum sofreu ataques de lideranças políticas, depois de ter recebido recursos do Fumproarte. "A censura que sofremos significa um retrocesso democrático. Nós realizamos essa exposição pensando sobre a democracia e a soberania nacional. Será que agora somos proibidos de pensar sobre nosso próprio país?", questionou.

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Estadão
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