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O que se sabe sobre as mortes em Paraisópolis

2 dez 2019
16h31
atualizado em 3/12/2019 às 15h18
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Nove jovens morreram após ação policial em baile funk. PM afasta das ruas agentes envolvidos na operação. Policiais e testemunhas apresentam versões diferentes. Investigações devem esclarecer pontos ainda em aberto.A Polícia Militar de São Paulo anunciou nesta segunda-feira (02/12) o afastamento do trabalho nas ruas de seis policiais envolvidos na ação realizada na madrugada de domingo, que terminou com nove mortos e dezenas de feridos durante um baile funk na comunidade de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista.

Comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo
Comunidade de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo
Foto: DW / Deutsche Welle

O afastamento - tido como uma providência comum em investigações sobre letalidade policial - foi pedido pela Ouvidoria da PM à Corregedoria da corporação, encarregada das investigações.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano, afirmou que a Corregedoria da PM analisará quais policiais serão afastados das ruas. "No primeiro momento da ocorrência, sim, foram seis policiais militares, mas cabe ao corregedor analisar e definir quem será afastado", ponderou. Segundo a PM, 38 policiais participaram da operação em Paraisópolis.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), lamentou o ocorrido, mas negou que a tragédia tenha sido provocada pela PM e assegurou que a política de segurança pública de seu governo não mudará.

"A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo", afirmou Doria em entrevista coletiva, repetindo a versão apresentada pelos policiais que participaram da ação.

"As ações nas comunidades de São Paulo vão continuar. A existência de um fato e circunstancialmente com as apurações que serão feitas, não inibirá as ações que serão feitas envolvendo Segurança Pública. Não inibe ação, mas exige apuração", acrescentou Doria. O governador acrescentou ter ordenado que o caso seja investigado rigorosamente.

Respondendo sobre o tema diante do Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro disse que também lamenta "a morte de inocentes".

Veja o que se sabe sobre o caso:

As vítimas

Na madrugada de domingo, nove pessoas - oito homens e uma mulher - morreram pisoteadas num baile funk em Paraisópolis, onde vivem 100 mil pessoas, durante uma ação da PM. As vítimas tinham entre 14 e 23 anos.

Os jovens foram identificados como Gustavo Cruz Xavier, de 14 anos, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Eduardo da Silva, 21, Bruno Gabriel dos Santos, 22, e Mateus dos Santos Costa, 23 anos.

Versões diferentes

Há duas versões sobre o caso: a da polícia e a de testemunhas. Segundo a PM, policiais do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) realizavam uma operação batizada de "Pancadão" na região, quando "dois homens em uma motocicleta atiraram contra os agentes". A moto teria fugido em direção ao baile, "ainda efetuando disparos, ocasionando um tumulto entre os frequentadores do evento".

Ainda segundo a PM, equipes da 1ª Cia e Força Tática M-16011 e M-16010 se deslocaram para dar apoio e teriam sido recebidas com arremessos de objetos como garrafas e pedras. De acordo com informações da corporação, alguém no meio da multidão disparou um tiro, e as equipes de Força Tática responderam lançando munições químicas para dispersão.

A corporação afirma, ainda, que os agentes não fizeram o uso de armas de fogo e que teve dois de seus veículos depredados. "Criminosos usaram pessoas que frequentavam o baile como escudos humanos. Pessoas foram em direção aos PMs, arremessando pedras e garrafas. A atuação dos PMs foi de proteção aos policiais", disse o tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM de São Paulo.

Testemunhas, porém, disseram que os PMs cercaram o baile e impediram sua dispersão. O cerco então levou quem estava na rua a correr para uma viela, provocando as mortes. Um vídeo da ação mostra alguns PMs dirigindo dezenas de frequentadores, a golpes de cassetete, para um beco com cerca de dois metros de largura.

Alguns também contestaram a versão de que dois homens de moto teriam entrado no baile disparando. Vídeos também mostram policiais agredindo mulheres e homens sentados a tapas e chutes.

A investigação

De acordo com o ouvidor Benedito Mariano, o afastamento dos policiais envolvidos é necessário diante da "complexidade" do caso. Ele defendeu uma mudança no modo de atuação em circunstâncias análogas. "Toda intervenção policial em baile funk tem que chegar antes do evento. Intervenção policial quando há 5 mil pessoas na rua o conflito é inerente. Há necessidade de mudar o protocolo da PM sobre bailes funk", afirmou Mariano ao portal G1.

Por decisão do comandante-geral da PM, a investigação sobre a ação está sendo conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. O comando da corporação analisará ainda a conduta dos policiais envolvidos no caso. A Polícia Civil também abriu um inquérito.

De acordo com o comandante geral da Polícia Militar, Coronel Marcelo Vieira Salles, os seis policiais afastados das ruas serão "preservados" até a conclusão das investigações. "Não haverá como condená-los antes do devido processo legal. Seguirão em serviços administrativos, no horário deles, fazendo outras coisas", afirmou ao Uol.

"É uma área complexa de trabalhar e, havendo outro evento parecido, eles poderão ser prejudicados. Estão sendo preservados. Eventos onde há morte, eles são submetidos a um trabalho de preservação, com psicólogos, análise médica. Inclusive para dar tranquilidade para apurar com inquérito, que não haja ameaças a testemunhas", acrescentou Salles.

O que precisa ser esclarecido

Entre os pontos que os investigadores precisam esclarecer sobre a tragédia estão: o objetivo da operação; se houve realmente o ataque relatado pelos policiais e quem eram os agressores; o que levou a polícia a lançar bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio, além de balas de borracha e cassetes, contra a multidão; e as causas das mortes das vítimas.

Além disso, a autenticidade dos vídeos que mostram policiais agredindo frequentadores do baile precisa ser verificada, e os agressores e vítimas, identificados.

CN/MD/ots

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