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Mulheres sofrem em silêncio com violência doméstica durante a pandemia no Brasil

5 mar 2021
18h48
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Fernanda Fernandes, delegada que comanda a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), durante investigação 
03/09/2019
REUTERS/Pilar Olivares
Fernanda Fernandes, delegada que comanda a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), durante investigação 03/09/2019 REUTERS/Pilar Olivares
Foto: Reuters

Durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19 no Brasil, a delegada Fernanda Fernandes estava certa de que os casos de abuso doméstico estavam aumentando, mas não havia muito que ela pudesse fazer, já que poucas mulheres se apresentavam para denunciá-los.

"O fato de a vítima estar junto ao agressor, em confinamento, isso por si só já gera uma dificuldade dela sair. Porque, antigamente, ela saía para registrar quando o autor ia trabalhar", disse Fernandes, que comanda a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), em Duque de Caxias (RJ).

Mas o número de queixas aumentou à medida que o surto de Covid-19 arrefecia, e mais mulheres saíram de casa para fazer denúncias à polícia, disse ela.

Em todo o mundo, policiais, equipes de apoio a vítimas e movimentos de mulheres, assim como a Organização das Nações Unidas (ONU), relatam um crescimento da violência doméstica durante as quarentenas ocorridas pelo coronavírus. No Brasil, a pandemia deixou muitos casais desempregados, o que agrava as tensões no lar, afirmou Fernandes.

A economia encolheu 4,1% no ano passado, e a recuperação brasileira provavelmente continuará lenta, já que o país está enfrentando uma nova onda brutal de infecções, com novos recordes diários de mortes por Covid-19 nesta semana.

O Brasil registrou 649 feminicídios durante a primeira metade de 2020, de acordo com cifras do Fórum Brasileiro de Segurança Pública -- uma alta de 2% em relação ao mesmo período de 2019. Mas outros crimes contra as mulheres, como agressão e estupro, que geralmente exigem que as vítimas registrem uma queixa policial, caíram durante este período, segundo o fórum.

"Apesar da aparente redução, os números não parecem refletir a realidade, mas sim a dificuldade de realizar a denúncia durante o isolamento", disse a entidade em relatório.

A comerciante Fabiana Antunes disse que finalmente criou coragem para ir à polícia em maio do ano passado depois da agressão mais recente de seu ex-parceiro, um ilustrador que ela conheceu cinco anos atrás.

Com um ano de relacionamento, ele se tornou violento, disse ela. Fabiana o deixou dois anos depois, mas eles ainda viviam sob o mesmo teto no início da pandemia, quando ele piorou.

"A pandemia, o fato de estar dentro de casa piora muito, porque somos obrigadas a viver com isso", disse.

Em maio, ele a acertou no estômago durante uma briga, disse Fabiana, e ela entrou em contato com a polícia. Um juiz expediu medida cautelar contra o ex-companheiro de Fabiana, que se mudou, segundo a delegada Fernandes e documentos judiciais.

No entanto, Fabiana ainda se preocupa. Seu ex-parceiro desenhou esboços --que ela mostrou à Reuters-- de uma mulher que se parece com ela assassinada por um homem empunhando um cutelo.

O ex-parceiro disse que Fabiana se orgulhava de figurar em seu trabalho artístico. Ele confirmou que a medida protetiva foi expedida, mas negou qualquer agressão física ou verbal.

CAMPANHA NACIONAL

A delegada Fernandes --cuja equipe lidou com 4.121 casos de violência doméstica em 2019, o maior número de qualquer Deam do Estado do Rio-- realiza sessões no Facebook Live para informar as pessoas sobre a necessidade de relatar sinais de abuso doméstico.

Parte do desafio, disse ela, é convencer algumas mulheres de que o abuso é inaceitável. Outras não percebem o perigo de sua situação, pois não acreditam que seus parceiros sejam capazes de matá-las.

Taylaine Alves, de 19 anos, mãe de dois filhos, sofreu queimaduras graves em um ataque de 2019 e mais tarde morreu no hospital devido aos ferimentos. O namorado dela foi denunciado e está na prisão aguardando julgamento. Seu advogado, da defensoria pública, não quis comentar.

"Nós mães nunca esquecemos", disse Jozilene Pereira Alves sobre a perda da filha. "A vida continua, mas um pedaço de mim está morto."

Em 2006 com a Lei Maria da Penha -- batizada em homenagem a uma mulher que ficou paraplégica após levar um tiro de seu marido, passaram a vigorar no Brasil penas duras em relação à violência contra a mulher.

No entanto, só em 2015 o Brasil reconheceu oficialmente o feminicídio como crime -- anos depois de a maioria dos outros países da região, incluindo Colômbia, Chile, Argentina e México.

Paulo César da Conceição, que dirige um centro de reabilitação para homens envolvidos em violência contra mulher, chamado CR Homem, disse que a maioria dos agressores tem dificuldade para aceitar sua responsabilidade, culpando suas vítimas por provocá-los.

Conceição disse que, em sessões de grupo, sua equipe orienta as conversas para ajudar os homens a verem sua própria responsabilidade pela violência doméstica.

"Os homens chegam no grupo muito fechados e resistentes, e tentamos quebrar isso", disse.

Daniela Gasparin, de 38 anos, disse que vive com medo do ex-parceiro, que foi preso depois de atacá-la com uma faca em um ônibus na cidade de Boituva (SP).

"Mesmo ele preso, ainda tenho medo de ele sair e vir atrás de mim, porque ele manda carta, ele pede perdão, ele fala que ama. É um amor que a gente não consegue entender, como uma pessoa pode amar e fazer isso, tentar matar?"

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