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Crivella escapa de impeachment, mas continua alvo

12 jul 2018
21h00
atualizado às 21h07
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Câmara do Rio nega abrir processo de afastamento contra prefeito, acusado de privilegiar evangélicos em seu governo. Político ainda terá que responder ao TCM e ao MP. Analista fala em interesse eleitoral da oposição.A Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro rejeitou nesta quinta-feira (12/07), por 29 votos a 16, a abertura de um processo de impeachment contra o prefeito Marcelo Crivella (PRB). A votação foi realizada em sessão extraordinária na Casa, que teve seu recesso interrompido.

As duas representações contra Crivella, feitas pelo vereador Átila Alexandre Nunes (MDB) e pelo Partido Socialismo e Liberdade (Psol), tinham como fato motivador uma reunião secreta realizada pelo prefeito com 250 pastores e líderes de igrejas evangélicas revelada pelo jornal O Globo.

No encontro, ele colocou seus assessores à disposição dos líderes religiosos para que tivessem acesso privilegiado a serviços públicos. Crivella sugeriu a possibilidade de mudar o local de pontos de ônibus para mais perto das igrejas e posições melhores em filas de cirurgias na rede pública.

"Nós estamos fazendo o mutirão da catarata. Contratei 15 mil cirurgias até o final do ano. Então, se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, se os irmãos conhecerem alguém, por favor falem com a Márcia [assessora]. É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar, e daqui a uma semana ou duas eles estão operando", disse o prefeito na reunião.

"Vamos aproveitar esse tempo que nós estamos na prefeitura para arrumar nossas igrejas. Se vocês quiserem fazer eventos no parque Madureira, está aqui o nosso líder, que é o doutor Valmir. Se vocês tiverem problema, tem o Manassés, o nosso companheiro, que cuida das pessoas com problema de vícios em drogas", acrescentou.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, sustenta que as denúncias contra o prefeito merecem investigação, mas avalia que a oposição aproveitou a impopularidade do prefeito para capitalizar politicamente a situação.

"A oposição quis marcar posição, ainda mais com o apoio de parte da mídia. Mesmo que o impeachment não tenha sido aprovado, esse movimento ajuda a cristalizar uma imagem negativa do prefeito. O cálculo político do Psol já mira a eleição municipal de 2020 e as eleições estaduais deste ano", analisou.

"Entendo que, nesse caso, é mais pertinente que o Tribunal de Contas do Município e o Ministério Público ajam, em vez da Câmara", conclui.

O vereador Tarcísio Motta, líder do Psol na Câmara do Rio, defendeu a abertura de análise do impedimento de Crivella na Casa por entender que o prefeito cometeu crime de responsabilidade e improbidade administrativa.

"Pouco importa se naquela reunião estavam evangélicos ou sindicalistas. Ao oferecer vantagens aos presentes, ele fere o princípio mais básico do nosso Estado de Direito, que é a igualdade entre todos os cidadãos. Nenhum cidadão, por ser aliado do prefeito, pode ter vantagens sobre os demais", afirmou.

O vereador nega que o movimento pelo impeachment tenha motivação eleitoral. "Não procede, porque o impeachment também favoreceria Eduardo Paes, nosso rival na disputa pelo governo estadual neste ano. Estamos endossando o trabalho de fiscalização que fazemos diariamente."

Sessão tumultuada

O vereador Otoni de Paula (PSC), da base de Crivella, celebrou a decisão da Câmara como a derrota do "golpe". Em sua visão, é falso o argumento de que o prefeito governa para seu grupo religioso.

"Isso é história de quem perdeu na urna. Tenho muitas críticas ao Crivella, mas não posso aceitar sacanagem. Vamos passar impeachment produzido por repórter da Globo, por fitinha gravada?", contestou. "Eu era a favor de uma CPI. Agora, os que não passaram o impeachment querem uma CPI".

O parlamentar protagonizou o momento de maior polêmica da sessão desta quinta-feira, marcada por intensa participação de apoiadores e críticos do prefeito nas galerias da Casa.

Por diversas vezes, os vereadores tiveram a fala interrompida. Em uma dessas ocasiões, Otoni fez um gesto com o corpo considerado homofóbico pelo público e pelo vereador David Miranda (Psol), gay assumido e defensor da causa LGBTI.

"Isso é coisa de quem tem preconceito na cabeça. A melhor coisa que existe é um homossexual bem resolvido", argumentou Otoni, dizendo ainda ter mostrado que "não tremia" ante a pressão da galeria.

Com a fala embargada, Miranda afirmou que vai abrir uma representação no Conselho de Ética da Câmara já nesta sexta-feira, além de buscar ações diretas para a cassação do mandato do parlamentar do PSC.

"A cada 19 horas, assassinam um de nós. Esse gesto legitima isso. Não foi a primeira vez que ele se manifestou dessa forma. Sabe o que é sofrer homofobia a vida inteira, chegar aqui e ser o único gay, após a morte da Marielle?", desabafou.

Crivella continua alvo

Apesar de ter obtido vitória na Câmara Municipal, Crivella terá sua força política testada nos próximos meses. Já foram coletadas 16 assinaturas para a abertura da "CPI da Márcia".

Também nesta quinta-feira, o Tribunal de Contas do Município (TCM) determinou que o prefeito terá 30 dias para apresentar novas informações sobre o déficit de 1,6 bilhão de reais nas contas do ano passado.

O relatório do conselheiro Nestor Rocha observou que o prefeito não adotou as medidas necessárias para equilibrar o orçamento anual. Com isso, há indícios de que pode ter havido desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal.

O vereador Tarcísio Motta afirmou que os parlamentares do Psol poderão solicitar um novo pedido de impeachment se forem confirmados crimes de responsabilidade no parecer final do TCM.

Além disso, o Ministério Público Estadual abriu ação de improbidade contra o prefeito na última quarta-feira. Investigações conduzidas pelo órgão desde agosto do ano passado apontam que ele vem utilizando a máquina pública do município para atender a integrantes de igrejas evangélicas.

Fora a reunião com pastores no Palácio da Cidade, a promotoria do MP menciona a realização de eventos da igreja dentro de escolas públicas, o corte de patrocínio de eventos religiosos de matrizes afro-brasileiras e o uso gratuito da Cidade das Artes, um pavilhão cultural, para o Festival de Cinema Cristão.

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