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Vítimas de Paraisópolis tinham de 14 a 23 anos; veja perfis

Muitos não eram moradores da zona sul de São Paulo e tinham ido ao local para aproveitar o baile funk. Caso está sob investigação da Polícia Civil e da Corregedoria

2 dez 2019
10h41
atualizado em 3/12/2019 às 09h38
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SÃO PAULO - Os jovens que morreram pisoteados no baile funk em Paraisópolis neste domingo, 1, tinham entre 14 e 23 anos, de acordo com informações que constam do boletim de ocorrência do caso. Alguns deles chegaram até a zona sul vindos de diferentes pontos da capital e de cidades da região metropolitana e tinham o objetivo comum de se divertir naquela grande festa de rua.

Veja a lista das vítimas de Paraisópolis

  • Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos
  • Marcos Paulo Oliveira dos Santos, de 16 anos
  • Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos
  • Mateus dos Santos Costa, de 23 anos
  • Eduardo da Silva, de 21 anos
  • Gabriel Rogério de Moraes, de 20 anos
  • Gustavo Cruz Xavier, de 14 anos
  • Luara Victoria Oliveira, de 18 anos
  • Dennys Guilherme dos Santos Franca, de 16 anos

Gustavo era conhecido como 'Risadinha'

"Risadinha" era um dos apelidos de Gustavo Cruz Xavier, de 14 anos, uma das nove pessoas que morreram pisoteadas em um baile funk em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, após ação da Polícia Militar na madrugada deste domingo, 1°.

Gustavo Cruz Xavier tinha 14 anos
Gustavo Cruz Xavier tinha 14 anos
Foto: Reprodução / Estadão

A lembrança de como o jovem era conhecido é do tio, o ascensorista Roberto de Oliveira, de 44 anos. "Ele era muito querido. Enquanto a gente estava resolvendo as coisas, procurando por ele, umas 100 pessoas apareceram na casa dele. Colegas, amigos de infância, parentes. Ele tinha o apelido de 'risadinha'. Ria de tudo, não ficava mal. Era muito feliz."

As expressões sérias apareciam apenas para as fotos para as redes sociais, relembra o tio. Oliveira diz que o adolescente não dava trabalho para a família e que os bailes eram a sua diversão. "Ele só tinha tamanho, era um menino bom. Tanto que o pai dele já é falecido, morreu há uns oito anos, e ele não entrou para o crime."

O corpo está sendo velado e será enterrado em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, na tarde desta segunda-feira, 2. "Muita gente está vindo. Vão reservar um ônibus para trazer as pessoas para cá. Teve amiguinho dele que veio a pé."

Ao longo do domingo, a família do garoto procurou por ele já com a certeza de que Xavier era uma das vítimas. Ele aparecia desacordado e caído no chão em um dos vídeos que circularam nas redes sociais. À noite, o corpo foi reconhecido pelos familiares. "Ali, o mundo acabou para a gente."

Bruno Gabriel foi de Mogi a Paraisópolis

O operador de telemarketing Bruno Gabriel dos Santos tinha completado 22 anos no dia 28 de novembro. Morador de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, ele saiu de casa dizendo que ia comemorar na noite do último sábado. Na saída, pediu para a mãe fechar o portão "bem fechado" e avisou que não dormiria em casa.

"Saiu com uma sacolinha na mão. Tinha acabado de fazer aniversário e disse que ia dormir na casa de um amigo, que eles iam comemorar por ali ou comer uma pizza. Nunca nem soube que ele tinha ido nesse baile. Nós somos de Mogi das Cruzes. O que o Bruno foi fazer nesse lugar?", relatou, muito emocionada, a irmã adotiva do jovem, a professora Vanini Cristiane Siqueira, de 39 anos.

A notícia da morte chegou por volta da hora do almoço. "Chegaram quatro amiguinhos perguntando por ele. Aí, eles começaram a chorar e mostraram um vídeo com o meu irmão caído com o corpo para cima, com o rostinho para cima. Parece que não deu para ele se defender."

Os colegas contaram para ela que houve uma correria e as pessoas levaram garrafadas. "Ele foi o único que correu para o lado errado. Os outros conseguiram se salvar. Agora, a gente quer pedir justiça e saber o que realmente aconteceu. Por que eles não puderam se defender? Por que foram pegos tão de surpresa?" Vanini acredita que o irmão foi agredido. "Tudo indica que ele foi pego na cabeça ou foi atingido de frente."

Chorando muito, ela descreveu Santos como um jovem tranquilo. "Era um menino calmo, quieto, não era de responder ninguém."

Denys Henrique cresceu na zona norte de SP

A vendedora Maria Cristina Quirino Portugal estava com raiva do filho Denys Henrique Quirino da Silva, de 16 anos. Ele havia saído para trabalhar na tarde de sábado e até a manhã deste domingo, 1º, não tinha dado notícia. A informação sobre o seu paradeiro veio do pior modo possível: o hospital telefonou informando sobre a morte do jovem em tumulto no baile funk de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Mais oito pessoas morreram na confusão, que começou após chegada da PM ao local.

Maria Cristina contou que cresceu na Brasilândia, na zona norte, onde a muvuca de bailes funk a incomodava bastante. Sobre a ação policial, porém, acredita que poderia ter sido feita de forma a evitar a confusão. "Nasci e cresci em periferia e sei que nem todo mundo ali é bandido. Ao contrário. Sou a favor da polícia, mas isso que aconteceu não poderia ter acontecido, sou cidadã. A estratégia tem de ser diferente, sem bala de borracha, sem gás. Tem de acabar com os bailes antes de começarem. Caso contrário, outras mães vão perder seus filhos", disse.

O irmão de Denys, Danylo Amílcar, de 19 anos, reforçou o protesto contra a ação policial. "Meu irmão não era um bandido e morreu. Precisamos ter uma investigação justa. Foi uma ação truculenta na favela. É muito fácil falar que foram pisoteados e ficar por isso mesmo." À noite, ele sustentava que a ausência de marcas na roupa do irmão sugeria que não houve um pisoteamento e que ele teria sido morto de outra forma.

Mateus não era frequentador assíduo do baile

Flamenguista, rapaz tranquilo, trabalhador, amigo de todos e adorava o estrogonofe de frango feito pela cunhada. É dessa forma que Mateus dos Santos Costa, de 23 anos, ficará na memória da cunhada, a empregada doméstica Silvia Ferreira, de 48 anos, casada com o irmão mais velho de Costa.

Costa era de Maracás, na Bahia, e tinha se mudado para São Paulo há cinco anos em busca de oportunidades. Lá, deixou os pais e dez irmãos. Morava em Carapicuíba, na Grande São Paulo, e trabalhava vendendo produtos de limpeza de porta em porta. Veio tentar uma vida melhor ao lado do irmão mais velho, que saiu da cidade natal há 15 anos.

Há três anos, conseguiu independência para morar sozinho. "Estava feliz. Tinha conseguido alugar uma casa para ele perto da gente. Foi triste buscar as coisas dele e entregar as chaves para o dono do imóvel. Tudo arrumadinho", afirmou a cunhada.

A cunhada do jovem diz que ele não era um frequentador assíduo do baile.

"Era raro ele vir para cá. Em Carapicuíba, não tem nada. Aqui, tem tudo. Meu filho também gosta do DZ7, é um divertimento."

Apesar de saber que os jovens gostam do evento, a família não aprovava a presença deles. "A gente cansava de avisar para ele não ir para lá. Eu falo para o meu filho, mas é maior de idade. Quando a gente fala para eles não irem, eles já foram. Mas o Mateus nunca reclamou de nada, dizia que era tranquilo."

Os parentes souberam da morte dele à noite, quando um amigo da filha de Silvia ligou para comunicar o ocorrido. "A gente só queria saber se era verdade". Agora, a família quer entender o que ocorreu e lutar por justiça. Fatalidade. Ninguém espera receber uma notícia de morte, ainda mais brutalmente", lamentou Silvia.

"Ele era trabalhador. A ação da polícia foi uma imprudência. Não tem como entrar desse jeito em um lugar cheio de jovens."

Ela também questionou a morte por pisoteamento. "O atestado de óbito diz agente contundente. O que isso significa? Alguma coisa acertou ele. O rosto dele e o peito ficaram muito machucados. Algum objeto o perfurou e queremos se foi bala ou pedaço de pau. Vamos aguardar a conclusão do laudo. Isso não vai ficar impune."

O traslado do corpo já foi providenciado de São Paulo pra a Bahia. O enterro deve acontecer nesta terça-feira, 3.

Estadão
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