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Ataque em Suzano: 'Tragédia dá chance de diálogo com jovens'

Especialista destaca que pais precisam escutar o que filho tem a dizer, o que ouviu do massacre e também o que viu

17 mar 2019
03h13
atualizado às 09h04
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O horror de uma tragédia como a de Suzano tem a capacidade inegável de levar medo a crianças e jovens estudantes de todo o País, que, com o mesmo perfil das vítimas, se veem como alvos em potencial de um ataque cuja maior marca é a incompreensão quanto à motivação. Para mitigar o temor, o caminho das famílias com seus filhos deve passar necessariamente pelo diálogo, defende a psicóloga Karen Scavacini.

O momento abre uma porta para ouvir os adolescentes sobre a percepção deles sobre o que aconteceu, como isso está repercutindo no núcleo estudantil mais próximo e, principalmente, dá aos adultos a oportunidade de, além de dimensionar a gravidade do crime, se mostrarem preocupados e atentos com a realidade e o cotidiano dos filhos.

Karen defendeu no ano passado sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em que foca a prevenção ao suicídio, e é fundadora do Instituto Vita Alere, que presta assistência nesses casos. Com o Estado, ela conversou sobre esse momento de luto que toda uma comunidade escolar agora atravessa.

Movimentação após tiroteio ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, na Rua Otávio Miguel da Silva, em Suzano, na Grande São Paulo, nesta quarta-feira, 13
Movimentação após tiroteio ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, na Rua Otávio Miguel da Silva, em Suzano, na Grande São Paulo, nesta quarta-feira, 13
Foto: GERO RODRIGUES/O FOTOGRÁFICO / Estadão Conteúdo

Como as famílias devem tratar com seus filhos sobre o que aconteceu em Suzano?

As famílias podem aproveitar o que aconteceu para trazer esse diálogo para dentro de casa, já que é um assunto que não é costumeiramente conversado. Os pais têm de escutar o que o jovem tem a dizer, o que ele ouviu falar sobre o caso, o que viu de fotos e vídeos. A partir daí, segue-se uma fase de orientação e acolhimento, porque é esperado que muitos jovens se sintam abalados e inseguros. Mas também pode ser o momento em que alguns vão falar que eles (os atiradores) estavam certos e isso é fundamental como um sinal de alerta.

Optar por ignorar o assunto em casa também é uma opção viável?

Sou a favor sempre do diálogo. Quando a família decide não conversar, ela terceiriza a formação de opinião, porque os jovens vão formá-la sozinhos, buscando interpretações nas redes sociais, por exemplo. O momento é excelente para iniciar um diálogo.

A senhora falou de sinal de alerta. Como isso se expressa e o que fazer diante dele?

Os pais precisam olhar o comportamento dos filhos e notar de perto as eventuais alterações que os deixam mais agressivos, mais impulsivos, e a ligação com a sensação que eles têm diante de episódios violentos. É também um gancho para uma conversa sobre bullying, não só se ele é vítima, mas também se ele pratica, coisas que por vezes é esquecida pelos pais. É preciso ter em mente que o jovem pode não ser aberto, a princípio, a estabelecer diálogos aprofundados, mas eles vão saber que há pessoas preocupadas e interessadas na vida deles - e isso pode fazer a diferença.

Como e quando transtornos evoluem de isolamento social para episódios violentos?

Isso vai ter muita relação com o que se passa na rotina do jovem e das influências que ele têm. Há três grandes campos que ajudam a entender essa situação: o da personalidade, o biológico e o biográfico. Ou seja, têm de ser levados em consideração desde traços da personalidade inerentes à pessoa, assim como a parte da genética relacionada eventualmente a transtornos mentais e também a biografia da pessoa, o que aconteceu com ela ao longo da vida. Nesse aspecto, um dos pontos importantes é o uso de álcool e drogas, que assumem um papel preponderante diante de um cérebro ainda em formação e podem induzir comportamentos impulsivos, quando as decisões não estão exatamente claras. Há ainda de se levar em consideração a importância de ensino e conversas sobre o que o jovem deve fazer quando está com raiva, e porque está com raiva. Estamos diante de uma geração de jovens que acha que o mundo tem de suprir tudo.

Qual o papel de um incentivo externo com caráter de chancela a um ato violento a ser praticado por um jovem?

Pode ser que, para pertencer àquele grupo, as pessoas notem que necessitam agir de uma maneira específica, e isso é um problema especialmente se a comunidade que o está envolvendo o encaminha para atos violentos. O peso desse incentivo pode ter um papel importante e negativo quando o jovem está em um momento de dúvida e recebe um encaminhamento forte para o lado violento. Por isso que a atenção e o apoio da família são fundamentais. Ela pode ter o papel de desincentivo também, encaminhando-o a uma direção oposta à da violência.

Agora se segue uma fase em que o luto é marcante para toda uma comunidade escolar. Como lidar com isso?

É preciso fazer uma avaliação e dedicar especial atenção para os que hoje estão mais vulneráveis e para isso uma equipe multiprofissional é importante. Não só os alunos, mas os pais e professores precisam ser acolhidos. O pronto-atendimento ágil é importante, mas é preciso que a assistência se estenda porque a retomada da rotina vai trazer todas as lembranças do que aconteceu.

Para entender

1. O ataque

Às 9h42 de quarta-feira, G.T.M., de 17 anos, entrou com um revólver calibre 38 na Escola Professor Raul Brasil, em Suzano (SP), onde havia estudado até o ano passado, e começou a atirar. Trinta segundos depois, seu amigo Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, também ex-aluno, entrou munido com uma besta, um arco e flecha e uma machadinha. O massacre resultou em duas funcionárias e cinco alunos mortos. Antes, a dupla havia matado um parente em uma loja próxima. Os dois atiradores também morreram e deixaram 11 feridos.

2. A despedida

O velório coletivo de duas funcionárias e quatro alunos reuniu 15 mil pessoas.

3. Investigação

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, foi acionado, pela suspeita de que um grupo criminoso pode ter atuado com a dupla e colaborado com "crimes relacionados a terrorismo doméstico". Um fórum que espalha ódio e se esconde nas profundezas da internet passou a ser o foco.

4. Mais uma suspeita

O adolescente de 17 anos apontado pela polícia como suspeito de participar do ataque foi ouvido pelo Ministério Público e, depois, liberado. A Promotoria não acatou o pedido feito pela polícia para apreendê-lo.

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Estadão
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