PUBLICIDADE

Risco de rompimento de reservatórios criam medo em Minas

Moradores dizem não conseguir dormir, enquanto alertas tomam conta das redes sociais

11 jan 2022 05h10
| atualizado às 07h33
ver comentários
Publicidade
A Prefeitura de Pará de Minas (MG) emitiu um alerta máximo e pediu aos moradores abaixo da Usina do Carioca, que deixem suas casas imediatamente devido ao alto risco de rompimento da barragem da hidrelétrica 
A Prefeitura de Pará de Minas (MG) emitiu um alerta máximo e pediu aos moradores abaixo da Usina do Carioca, que deixem suas casas imediatamente devido ao alto risco de rompimento da barragem da hidrelétrica
Foto: Reprodução Instagram Prefeitura de Pará de Minas - 09/01/2022 / Estadão

As chuvas que atingem Minas Gerais colocaram novamente a população sob a sombra do rompimento de barragens, após os desastres de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, há três anos. Deslizamentos e enchentes também assustam. Cinco pessoas da mesma família - três adultos e duas crianças - foram encontradas mortas, após o carro em que estavam ser soterrado. Com medo, moradores dizem não conseguir dormir, enquanto alertas tomam conta das redes sociais.

"Isso não é fake news. Pedimos que desocupem suas casas", avisou Elias Diniz (PSD), prefeito de Pará de Minas, a 85 quilômetros de Belo Horizonte. O vídeo correu pelo WhatsApp de moradores do município e outros da redondeza. O motivo do alerta, feito na noite de domingo, era o risco alto de rompimento da barragem de uma usina no município.

"Quando veio o aviso, a gente assustou. Eu, particularmente, apavorei, e olha que moro no alto", diz Wanderley Oliveira, de 37 anos, morador da região. Famílias na área de inundação da barragem deixaram suas casas na madrugada, mas pacientes de uma clínica de reabilitação em uma fazenda ficaram ilhados e só puderam ser socorridos horas depois - até os celulares ficaram sem bateria. "A maioria do povoado nem dormiu com medo de acontecer o pior com eles."

Morador de um distrito de Pará de Minas há 30 anos, Itamar Souza, de 46, foi retirado de casa com a mulher, Waldirene Souza, e o neto de 4 anos. A família mora a 800 metros da barragem. Eles foram para a casa de amigos que moram na área urbana - fora de risco.

Poucos pertences foram levados por causa da urgência da saída. "A Defesa Civil está correndo para lá e para cá para alertar sobre os riscos. Felizmente, a barragem não se rompeu e muita gente já saiu." Já Waldirene está em choque. A barragem, da empresa Santanense, continua sendo monitorada. A companhia afirma que a estrutura está preservada. "Há anos não se via tanta água como neste fim de semana. O duto principal fraturou", explicou o prefeito. Cento e quarenta e cinco municípios estão em situação de emergência.

O alerta sobre a situação das barragens em Minas diante do volume recorde de chuvas começou no sábado, quando o dique de uma mina transbordou em Nova Lima, região metropolitana, interditando a BR 040, ligação com o Rio. Moradores de uma casa na área de inundação foram removidos. A Vallourec, responsável pelo dique, informou que o nível de emergência do reservatório melhorou. Pistas da rodovia foram liberadas na segunda-feira.

Em Congonhas, a 81 quilômetros de Belo Horizonte, a situação de uma das maiores barragens da América Latina foi parar na Justiça, que autorizou a entrada da Defesa Civil municipal para fiscalizar a estrutura da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Vídeos mostram deslizamentos de terra nas proximidades da barragem Casa de Pedra. Com o avanço das chuvas, moradores de Congonhas passaram a "fiscalizar" - por conta própria e como podem - o reservatório.

"Estou há quatro dias fotografando o mesmo lugar. Os pedaços estão caindo e eles (a empresa) falam que não tem problema nenhum", diz Sandoval de Souza, da União das Associações Comunitárias de Congonhas. A barragem é cinco vezes maior do que a que se rompeu em Brumadinho, causando a morte de 270 pessoas, em janeiro de 2019.

A técnica de enfermagem Juliene Silva, de 46 anos, acompanha, em pânico, as imagens da estrutura que surgem nas redes sociais diariamente. Nos últimos dois dias, não dormiu com medo de a barragem se romper e teve de pedir abrigo na casa da mãe, que mora mais distante do reservatório, para ao menos conseguir cochilar.

Moradora da área rural do município de Jeceaba, Juliene está na rota de escoamento dos rejeitos, se o reservatório em Congonhas ruir - dois bairros no município estão bem mais perto, a poucos metros da barragem. Com as chuvas, a preocupação aumenta. "Enchente a gente ainda reverte, tira o que der, mas a barragem não tem nem como se salvar." Uma vizinha, conta ela, passou a ter medo de tomar banho e ser pega de surpresa pela tragédia. "É uma bomba-relógio."

Por meio de nota, a CSN informou que a barragem de Casa de Pedra é segura e estável. "Ocorreu um escorregamento de terra em terreno natural e não na barragem", afirma a empresa. A Agência Nacional de Mineração (ANM) fez vistoria na barragem - o relatório ainda não foi divulgado.

Na segunda-feira, Corpo de Bombeiros localizou os corpos de uma família, cujo carro foi soterrado por um deslizamento de encosta em Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. Henrique Alexandrino, de 41 anos, Deisy Alexandrino, de 40, e os filhos do casal Vitor, de 6, e Ana, de 3, foram encontrados mortos. Também morreu Geovane Vieira, de 42 anos, integrante da família. O grupo seguia para o Aeroporto de Confins, quando desapareceu na estrada, sábado.

Estadão
Publicidade
Publicidade