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Relógio com chip indica onde e com quem criança está

Acessório dá localização do filho e, dependendo do modelo, pode permitir até ouvir conversas ao redor

23 jul 2019
03h12
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Do trabalho, a analista de sistemas Rebeca Paiva Bahia, de 31 anos, consegue acompanhar o trajeto da filha Ana, de 4 anos, e saber se ela já está na aula de Inglês ou de Matemática. Também consegue falar com a garota sem que ela precise de um celular. Tudo é feito por meio de um relógio rastreador infantil, produto que tem sido apresentado como um lançamento do ano por lojas online de produtos importados.

Divulgados principalmente nas redes sociais, os relógios funcionam com um chip de celular e os pais devem instalar um aplicativo para poder usar não só a função rastreadora e para ligações, mas, dependendo do modelo, para ouvir conversas ao redor da criança.

O dispositivo também permite acionar os responsáveis em caso de risco. Rebeca comprou o produto para a filha em maio e está satisfeita. "Ela faz atividades no horário da tarde e já deu para ver que tem um poder de dar segurança. Trabalho e passo o dia inteiro longe."

Também é uma forma de manter contato com a filha sem que ela precise ter um celular. "Ela não teria maturidade para ter um celular, pela idade. Talvez soubesse mexer, mas seria fácil alguém levar (o aparelho) dela."

Proprietário da loja Eletrônicos Brasil, Michel Trovão começou a vender os relógios há três meses, após fazer pesquisas de mercado e perceber que havia demanda. "Foi uma aposta e, realmente, uma escolha acertada. Temos mais de 700 unidades vendidas. Chegam muitas perguntas e mensagens no WhatsApp."

Trovão diz que o dispositivo é comprado, principalmente, por pais de crianças que têm entre 4 e 10 anos. "É um relógio infantil. Um dos modelos tem joguinhos. O pré-adolescente e o adolescente não vão querer usar. Os pais compram para saber onde o filho está e para se comunicar com eles." A recarga é feita por cabo USB e, dependendo do uso, a bateria dura entre um e três dias. O relógio custa cerca de R$ 200.

A loja virtual de produtos importados Malui Center, que está no mercado desde novembro, começou a vender os relógios em abril, após observar buscas pelo dispositivo no Google Trends.

"A procura foi aumentando gradativamente. Por enquanto, trabalhamos com dois modelos e 70% dos compradores são mães", afirma Áquila Goulart, proprietária da loja, que vendeu mais de 300 unidades desses novos dispositivos.

Foi por receio de sequestros que a operadora de caixa Amanda Cardozo, de 27 anos, decidiu adquirir o relógio para o filho Miguel, de 7 anos. O menino fica na casa da avó nos fins de semana - enquanto ela trabalha - e, como a criança brinca na rua, a mãe fica preocupada.

"Achei muito bom para saber onde ele está sem ter de perguntar o tempo todo. Mesmo quando ele está na escola, eu olho." Ela conta que o dispositivo já deu um alerta quando ele saiu de perto da casa da avó. "Apitou, liguei para a minha mãe, mas é que tinham ido até o mercado", conta Amanda.

Presidente do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria, a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo diz que crianças devem estar sempre acompanhadas pelos pais ou por um responsável e aparelhos não devem substituir essa função. "A relação de confiança começa desde o início da vida da criança, com a transparência dos pais e ensinando o que é certo e errado. É assim que a criança vai começar a ter discernimento, obedecer, entender o que faz bem."

Segundo a especialista, é preciso ter bom senso ao utilizar equipamentos desse tipo. "A tecnologia é bem-vinda, mas tem de ponderar e avaliar a questão da segurança em determinadas situações. Se a criança vai em um acampamento, pode ser interessante usar a tecnologia. Mas no dia a dia pode atrapalhar o foco."

Para Liubiana, os pais devem conversar com os filhos, relatar experiências e deixá-los preparados para situações adversas. "O monitoramento excessivo pode gerar o apego inseguro. As crianças precisam sentir que os pais são presentes mesmo quando não estão juntos."

Na Europa, rastreador é polêmico

Em outubro de 2017, o Conselho do Consumidor da Noruega realizou testes em vários desses modelos e achou falhas de segurança, como a possibilidade de invasão. Na época, fabricantes informaram que as falhas haviam sido corrigidas. No mês seguinte, uma agência alemã proibiu a venda.

Coordenador do curso de Design de Interação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Diogo Cortiz explica que os relógios rastreadores integram uma tendência, que são as tecnologias "vestíveis". "Uma preocupação que temos é com a segurança e a privacidade."

E a invasão não é o único risco. "Tem a clonagem e a perda ou furto do celular dos pais, fazendo com que outra pessoa tenha acesso a informações sobre as crianças", afirma Cortiz.

Estadão
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