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Prisão de influencer da Cracolândia expõe novo 'carrossel'

Investigação identificou nova dinâmica do tráfico no centro de São Paulo. Feira de entorpecentes ocorre em movimento contínuo e chega a movimentar R$ 200 milhões por ano. Lorraine Cutier Bauer Romeiro, de 19 anos, era parte dessa engrenagem

30 jul 2021 03h01
| atualizado às 07h39
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Investigação da Polícia Civil identificou uma nova dinâmica de venda de drogas na Cracolândia. Com o território dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e faturamento do tráfico estimado em mais de R$ 200 milhões por ano, a feira de entorpecentes a céu aberto passou a se manter em movimento contínuo, girando entre a Estação Julio Prestes e a Rua Helvétia, em uma espécie de "carrossel do crack".

As cerca de 30 tendas itinerantes são uma resposta do crime organizado à tentativa da Prefeitura de ocupar o território a partir da realização de ao menos três faxinas por dia. As adaptações do tráfico são alvo de inquérito do 77.º Distrito Policial (Santa Cecília) que em seis meses resultou em duas fases da Operação Caronte e na prisão de 15 pessoas. Entre elas, está Lorraine Cutier Bauer Romeiro, de 19 anos, que tinha milhares de seguidores em redes sociais.

Segundo a investigação, as barracas (ou "lojas") passaram a ser agrupadas em três blocos separados, que se deslocam em grupo à medida que a varrição avança. "Para as ações de limpeza ocorrerem, há no 'fluxo' um indivíduo nominado 'salveiro', que dá o 'salve' e assim começa uma desmontagem da estrutura do tráfico", aponta relatório de inteligência da polícia, obtido pelo Estadão. "O 'fluxo' sai da Praça do Cachimbo, entra na Rua Helvétia e se fixa nesta."

Por remeter a um trem em movimento, a nova estrutura foi nomeada pelos investigadores de "vagão". "Cada um dos vagões reunia de dez a 15 mesas para os traficantes", descreve o delegado Roberto Monteiro, titular da Seccional Centro.

Imagens da Polícia Civil mostram deslocamentos contínuos na região da Cracolândia
Imagens da Polícia Civil mostram deslocamentos contínuos na região da Cracolândia
Foto: Polícia Civil/Reprodução / Estadão

Barraqueiros lucram até R$ 6 mil por dia, diz polícia

Apesar de a dinâmica do "carrossel do crack" ser nova, o modelo de negócios é muito parecido com o que se via na Cracolândia antes da megaoperação policial de 2017. As tendas são arrendadas pelo PCC que cobra, em média, R$ 1 mil por semana aos traficantes "franqueados". Pelo esquema, os barraqueiros ficam obrigados a comprar a droga da facção e, em troca, são protegidos no território.

A polícia estima que o lucro diário de cada barraca varie entre R$ 5 mil e R$ 6 mil - valor que é dividido entre os "arrendatários". Normalmente, são três por tenda. Com um casal, que foi preso tentando fugir durante a operação, os agentes chegaram a encontrar R$ 67,7 mil em espécie.

A rentabilidade do negócio atrai criminosos de diferentes regiões. Boa parte dos barraqueiros detidos vivia, na verdade, em cidades da Grande São Paulo, como Barueri, Carapicuíba e Itapecerica da Serra.

Moradora de uma casa comum em Barueri, Lorraine aparece nos relatórios de inteligência da polícia com o codinome de Lo Bauer e é acusada de atuar em uma das barracas. Em imagens colhidas pela investigação, ela foi flagrada em meio à feira de drogas, usando jaqueta, capuz e máscara preta. Na mesa à sua frente, havia calhamaços de dinheiro.

Os barraqueiros mais abastados são chamados de "VIPs" e pagam quantias maiores por regalias, como descansar durante o dia ou pernoitar em quartos de hotéis e invasões nas proximidades do fluxo. Esses imóveis são usados ainda para armazenar armas de fogo e entorpecentes, segundo a polícia destaca nos relatórios. Nesta quinta-feira, 29, a Prefeitura interditou um desses hotéis da região.

"A investigação constatou que o Hotel Avaré destina-se, primordialmente, ao recebimento em suas dependências de traficantes que buscam esconderijo e descanso, assim como de usuários de drogas, que querem permanecer fora do fluxo e protegidos pelas paredes do decadente prédio, que se encontra em situação física precária, sem nenhuma condição de funcionamento como estabelecimento hoteleiro", disse a Prefeitura.

Também aconteceriam reuniões e "Tribunais do crime" nesses locais. "Muitos prédios já foram lacrados pela Prefeitura de São Paulo, porém foram novamente invadidos e seguem sendo utilizados para finalidades criminosas, inclusive para prostituição, com a exploração de menores", afirma um dos documentos.

Na hora do transporte de barracas, os usuários de drogas ficam responsáveis por fazer o desmonte e a remontagem das estruturas em outro lugar. São os chamados "travessias". Eles que também vão buscar mais entorpecentes nos imóveis para abastecer as tendas ao longo do dia. De acordo com a investigação, a estratégia é adotada para que os dependentes sirvam de escudo, evitando que traficantes acabem incriminados.

Em paralelo ao tráfico, o PCC mantém no local uma feira de produtos furtados - com venda ilícita de celular, bicicleta, roupa, fio de cobre e até documentos para ser usados em golpes. "Essa feira estrategicamente situada serve como blindagem a qualquer intervenção dos órgãos de segurança no local, dando tempo de fuga e causando distúrbio quando há possível ameaça ao 'fluxo'", diz um relatório.

'Uber da droga' é alternativa para abastecer Cracolândia

Na quarta-feira, 28, policiais civis do 77.º DP cumpriram mandado contra o motorista de aplicativo Augusto de Oliveira Brasil Neto. A prisão mais recente pode ajudar a polícia a desvendar o atual esquema do PCC para abastecer a Cracolândia e movimentar o dinheiro do tráfico.

Segundo investigadores, Brasil Neto é suspeito de participar de esquema para transportar drogas para o território. Além da entrada contínua de pequenas porções (modalidade conhecida como "formiguinha"), a polícia acredita que parte dos produtos é entregue por motoristas - chamados de "Uber" pelos traficantes.

Dinheiro apreendido durante ação da Operação Caronte, da Polícia Civil de São Paulo
Dinheiro apreendido durante ação da Operação Caronte, da Polícia Civil de São Paulo
Foto: Polícia Civil/Divulgação / Estadão

Outra função do grupo seria recolher a quantia arrecadada com as tendas, normalmente em espécie, mais fácil de ser apreendido pela polícia, e fazer a distribuição entre lideranças da facção. Há suspeita de que a movimentação tenha passado a ser realizada por PIX, através de contas frias. Nesse esquema, o motorista ficaria com um porcentual do valor total.

A Operação Caronte ainda é considerada em andamento e deve se desdobrar em novas fases nas próximas semanas. "Todos os lojistas, seguranças e travessias fazem parte da estrutura do crime organizado que está lá há 30 anos", diz o delegado Severino Pereira de Vasconcelos, titular do 77.º DP. "Com as operações, nós temos conseguido desidratar o tráfico de drogas."

Estadão
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