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Ponte deteriorada na Raposo Tavares preocupa motoristas

Imagens de fissuras no concreto e vergalhões expostos viralizaram nas redes sociais; DER diz que não há danos estruturais, mas prepara licitação para obras no local

11 jan 2022 10h10
| atualizado às 10h34
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Fissuras aparentes na estrutura da ponte na Raposo Tavares preocupam motoristas
Fissuras aparentes na estrutura da ponte na Raposo Tavares preocupam motoristas
Foto: Epitacio Pessoa / Estadão

Uma ponte na Rodovia Raposo Tavares (SP-270), em Piraju, no interior de São Paulo, está com avarias aparentes na estrutura, o que tem preocupado moradores da região e usuários da estrada. Os problemas são mais visíveis na parte inferior da ponte sobre o Rio Taquari, no km 295,3, que tem 215 metros extensão e fica em trecho de pista simples.

As fissuras nos pilares de sustentação já expõem os vergalhões de aço e o concreto também apresenta fissuras. O trecho não é concedido e está sob administração do Departamento de Estradas de Rodagem (DER). O órgão disse que já realizou vistorias e não há danos estruturais, mas prepara licitação para obras na ponte.

Motoristas se preocupam com o risco e falam em "tragédia anunciada". Para especialistas ouvidos pelo Estadão, a ponte está em deterioração e precisa passar por uma recuperação ou reforço. Os dados disponíveis até o momento, porém, não apontam que a estrutura esteja necessariamente prestes a ruir.

O corretor de imóveis Marcelo Teruel, de Bauru, registrou em vídeo as fissuras ao passar de barco sob a ponte, quando navegava no lago formado pelo represamento do Taquari. As imagens, postadas no último dia 1º, já tiveram 2,3 mil compartilhamentos e mais de 350 mil visualizações. Segundo ele, a estrutura fazia um barulho, como estalos, conforme fluía o tráfego na parte superior.

"Vi aqueles pilares deteriorados, com o ferro (aço) exposto", comenta. O corretor diz ter passado outras vezes no local, mas que o nível da água estava mais elevado e, portanto, não era visível a desagregação do concreto. "O negócio está feio demais", descreve.

Nesta segunda-feira, 10, a reportagem esteve no local e constatou que a situação segue a mesma. Quatro dos cinco conjuntos de pilares estão com fissuras e danos no concreto. Em um deles, parte do concreto caiu e a ferragem do pilar está à mostra. A estrutura que sustenta a cabeceira também está rachada e com ferragem exposta. No tabuleiro da ponte, as juntas de dilatação apresentam desníveis, o maior deles com quatro centímetros.

O caminhoneiro João Batista Sanches Brito, de Ourinhos (SP), passa várias vezes na semana pela ponte e percebe que a estrutura balança muito quando o caminhão está carregado. "No sentido capital, tem uma saliência que causa um impacto no sistema de amortecimento do veículo. Aliás, todas as juntas estão com saliências e causam sacolejo no veículo. Fizeram a manutenção da estrada, mas não mexerem na ponte", disse.

Também motorista de caminhão, José Roberlei carrega areia há 30 anos em um porto, ao lado da ponte, e passa diariamente pelo local. Ele conta que viu o vídeo postado por Teruel e se assustou. "A gente percebe que tem algum problema por causa dos solavancos no caminhão, mas não imaginava que a ponte estava tão perigosa", disse.

Ele contou que, há dois anos, técnicos do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) estiveram no local com mergulhadores para inspecionar os pilares. Mas Roberlei afirma não saber se houve obra no local.

Roberlei contou que outra ponte, no km 314 da Raposo, também está com problemas. "É a ponte sobre o Rio Paranapanema, que tem a mesma dimensão desta", disse. A reportagem constatou que, sob a estrutura dessa outra ponte, há folga entre as placas de concreto, por onde vaza a brita do asfalto, e alguns blocos estão fixados com parafusos.

O DER informou que vai publicar edital de licitação para o reparo da ponte no km 295,3 da Rodovia Raposo Tavares nas próximas semanas, em data ainda não definida. Segundo o departamento, já foram realizadas diversas vistorias no local, incluindo subaquática, que não detectaram danos estruturais na ponte. "Os dados colhidos nessas vistorias estão servindo para a confecção do processo licitatório", informou. Já a ponte sobre o Rio Paranapanema, no km 314, também foi vistoriada, não havendo situação de risco.

Inspeção deve avaliar urgência de reparo

"Não tem risco iminente de colapso", afirma o engenheiro civil Rafael Timerman, especializado em estruturas e diretor do Instituto de Engenharia. "É um problema urgente. Necessita de recuperação, pelo estado de degradação. Mas não apresenta risco de segurança, a princípio."

Pelas imagens, é perceptível que o concreto caiu majoritariamente entre os pilares, onde não há armadura (estrutura de aço essencial para a sustentação da ponte). Porém, nos pilares, que ficam nas extremidades, o engenheiro identifica que uma parte da armadura acabou exposta.

Timerman explica que a avaliação e recuperação da estrutura neste momento, em que está emersa, é mais barato e fácil. Quando fica abaixo do nível da água, também é necessário mobilizar equipes de mergulho e, por vezes, usar outras técnicas e materiais, como aponta o também engenheiro civil Tiago Carmona, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor da Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia (Abef).

Carmona destaca que é necessária avaliação técnica em diferentes pontos da ponte para identificar a demanda por reforço ou recuperação. Pelas imagens, avalia que o concreto pode ter passado por um processo erosivo causado pela água, o que ocorre especialmente quando o material não tem resistência adequada para o ambiente e, por isso, talvez seja preciso realizar intervenções em mais trechos da estrutura.

Na inspeção, é possível, por exemplo, aferir se a parte superior (o "gabarito") segue segura para o tráfego ou se é necessário fazer restrição, como proibição temporária do tráfego de veículos pesados ou limitação das faixas disponíveis, dentre outros. Ele afirma que não é comum a identificação de estampidos ou outros sons nestes tipos de estrutura.

"Tem de ser feito o quanto antes, não dá para esperar o período da seca", ressalta. "A situação não é adequada, pode ser classificada como situação de risco. Ações de remediação têm que ser tomadas a curto prazo. Quem for fazer inspeção vai avaliar a urgência."

Estadão
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