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Parentes sentem a dor da espera pelos desaparecidos de Brumadinho

Duas semanas após rompimento de barragem da Vale em Minas Gerais, parentes que aguardam resgate tentam continuar a vida

9 fev 2019
21h36
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BRUMADINHO - Dezenas de familiares de pessoas cujos corpos não foram localizados mais de 15 dias após a tragédia de Brumadinho, a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte, vivem o drama da ausência dos parentes após o desmoronamento da barragem, que deixou um rastro de morte e destruição e um risco de vítimas jamais serem achadas. Até ontem, a lista de buscas na área do desastre contava 182 desaparecidos.

"Voltamos para BH. Não estava aguentando mais", confessou o taxista José Maria da Silva, de 68 anos, pai do engenheiro da Vale Alexis Adriano da Silva, de 41 anos, que até a última sexta-feira permanecia na lista dos não encontrados pelo resgate.

Tentando achar um jeito de retomar a vida sem a companhia do filho, um parceiro semanal de partidas de futebol na capital, José Maria e a mulher, Sônia, passaram a segunda semana sem notícias de Alexis envolvidos com a tarefa que os tem ajudado a suportar essa ausência: o cuidado com os netos.

Três anos atrás, Alexis perdeu a mulher, Flaviana, aos 36 anos, e passou a contar com os pais no cotidiano da criação de Gabriel, hoje com 7 anos, e Samuel, de 3, sob a guarda dos avós. "As crianças vão para a escola agora", explicou o avô na última terça-feira, ao meio-dia.

Assim como José Maria e Sônia, a mesma angústia atormenta Paloma Cunha, de 22 anos. Ela é sobrevivente do desastre em que perdeu o marido, Robson Gonçalves, 26 anos, encontrado e sepultado dois dias após a tragédia, mas sofre com a ausência do filho, Heitor, de menos de 2 anos, desaparecido na lama da barragem que atingiu a casa da família. A irmã Pâmela, de 13 anos, foi localizada e identificada ontem.

Pressão. Além do sofrimento, cresce também a dor do temor de jamais encontrar os parentes. "Isso aconteceu aqui em Niterói", lembrou Francisco de Souza, de 58 anos, presidente da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, no Rio, onde em 2010 morreram ao menos 48 pessoas após o desmoronamento de um lixão. "Houve 48 mortes confirmadas, mas oito pessoas nunca foram encontradas", afirmou. Ele recordou que houve soterramento com até oito metros de lama, o que impediu as buscas.

"O pessoal de Brumadinho tem de se organizar para pressionar o Ministério Público, a Justiça, porque depois que o caso some da mídia, as vítimas são esquecidas", afirmou. "Eles têm de buscar logo a Justiça para manter as buscas e obter os documentos. Depois, começa um outro período de dificuldades para as famílias."

Na Justiça mineira, magistrados admitem o risco de pessoas não serem achadas, mas preferem aguardar o fim das buscas para tratar de documentos, como a "declaração de óbito" para desaparecidos. Segundo o promotor Rômulo Carvalho, da força-tarefa de apoio às famílias, a ideia é de uma ação conjunta para obtenção de documentação.

3 PERGUNTAS PARA TÂNIA MARIA ALVES

Médica do Instituto de Psiquiatria do HC/USP

1.Há uma dificuldade maior em lidar com a perda de um familiar quando o corpo não é encontrado?

Sim. O luto se instala quando vem uma confirmação externa da perda. Se não há corpo, não há confirmação, então há o retardamento da entrada no processo de luto, necessário para a superação. Sem o corpo, o familiar não se sente autorizado a considerar a morte, se obriga a ainda ter esperança. Não é ele que vai considerar a pessoa morta porque isso gera uma culpa.

2. No caso de uma tragédia como Brumadinho, o fato de haver vários mortos e desaparecidos piora o clima no local para os sobreviventes?

Por incrível que pareça, uma tragédia coletiva não é um fator agravante, é um fator protetor. Isso porque, como muitas pessoas passaram pela mesma situação, se cria uma solidariedade por identificação e aquele sentimento de descrença com o mundo e com o ser humano é minimizado por esse apoio mútuo.

3. Pessoas que passaram por esse trauma costumam desenvolver problemas psíquicos?

Há maior chance de desenvolverem depressão, estresse pós-traumático, dependência química, síndrome do pânico. O risco de suicídio também aumenta. Por isso, é preciso que todos os sobreviventes e familiares de vítimas passem por triagem psicológica para checar a necessidade de acompanhamento. O ser humano tem dificuldade de lidar com muitas perdas ao mesmo tempo e, nesse episódio, foram várias: muitos perderam um ou mais familiares, a casa, o emprego, a renda, o animal, as memórias, tudo. / FABIANA CAMBRICOLI

Estadão
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