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Negro tem 2,6 vezes mais chance de ser assassinado no Brasil

Atlas da Violência mostra ainda que cresceu o número de assassinatos de índios na última década no País

31 ago 2021 10h19
| atualizado às 10h33
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Movimentação de policias militares durante operação no Rio de Janeiro
Movimentação de policias militares durante operação no Rio de Janeiro
Foto: Wilton Junior / Estadão Conteúdo

Um negro tem 2,6 vezes mais chance de ser assassinado no Brasil do que as outras pessoas. Na maior parte dos casos de homicídio, a vítima também é jovem. Os dados constam do Atlas da Violência 2021, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), divulgado nesta terça-feira, 31.

A análise foi feita com base em registros reunidos pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Por ter metodologia e abrangência nacional, o banco de dados é historicamente considerado a principal fonte para medir indicadores de violência no País e avaliar o perfil das vítimas. Como a pesquisa retroage dois anos, os resultados trazidos nesta edição do Atlas são referentes aos dados de 2019. A discrepância entre o risco de morte de negros e brancos vem em um patamar elevado ao menos desde 2008, segundo os dados. Em 2018, por exemplo, o indicador estava em 2,7.

Segundo o levantamento, os assassinatos de índios aumentaram ao longo da última década, mesmo com o recuo geral de homicídios no Brasil. O País registrou a morte de 2.074 indígenas entre 2009 e 2019 - resultado que fez a taxa de letalidade violenta praticada contra os grupos étnicos saltar 22% no período. Esta é a primeira vez que o estudo analisa esses dados de violência.

Ao todo, o Brasil notificou 186 assassinatos de índios em 2019. Embora o pico constatado seja entre 2017 e 2018 (com 247 e 240 mortes, respectivamente), o número mais recente é 36,7% maior em comparação aos indicadores de 2009. Com isso, a taxa de homicídios saltou de 15 para 18,3 casos a cada 100 mil indígenas na última década.

O comportamento estatístico da violência contra esses grupos contrasta com a diminuição de 20% na taxa geral de homicídios do País. No período, o índice caiu de 27,2 para 21,7 mortes por 100 mil. Isso fez com que os assassinatos de índios, que antes ficava em 55% do valor, tenham se aproximado cada vez mais da taxa nacional no decorrer da série histórica.

Dados do IBGE apontam 896,9 mil índios no Brasil. "Como se tratam de populações pequenas em relação a outras, elas são mais suscetíveis a qualquer nível de violência", afirma Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea e um dos participantes do estudo. "A maior preocupação é o risco de etnocídio, ou seja, a morte daquela memória ou cultura."

Barbosa avalia que o recrudescimento da violência está relacionado ao "avanço de tensões" em territórios indígenas, promovidas tanto pelo poder público quanto pelo setor privado. O contexto, marcado pela disputa de terras, envolve desde a construção de novas hidrelétricas, avanço da agropecuária e até mesmo práticas ilegais, como garimpo e exploração de madeira.

"Há um movimento de desconstrução de territórios indígenas já demarcados e também de imposição de dificuldades para demarcar novos territórios. A discussão do marco temporal é a expressão desse tensionamento", afirma o pesquisador. "Na franja dessa questão, está a violência."

Indígenas protestam contra presidente Bolsonaro e pela demarcação de terras em frente ao Planalto, em Brasília
REUTERS/Amanda Perobelli
Indígenas protestam contra presidente Bolsonaro e pela demarcação de terras em frente ao Planalto, em Brasília REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Reuters

Em números absolutos, Amazonas, Roraima e Mato Grosso do Sul registraram o maior número de assassinatos de indígenas. Foram 49, 41 e 39 casos, respectivamente.

Para Barbosa, soluções passam por aprimorar políticas de gestão territorial, combater práticas ilícitas nesses territórios e melhorar a coordenação de ações entre a Funai e os setores de inteligência das polícias. "Também é preciso pensar na população indígena que se desloca para as cidades. Nesses casos, políticas voltadas para áreas mais vulneráveis, como regiões periféricas, ajudariam na proteção."

Funai muda de lado e passa a defender marco temporal

O Estadão mostrou que a Fundação Nacional do Índio (Funai) mudou de lado sobre o marco temporal. Quando apresentou o recurso, em 2017, a Funai pregava a demarcação da terra do povo Xokleng, em Santa Catarina. Hoje, sob o governo Jair Bolsonaro, já se manifestou a favor da tese defendida pelos produtores rurais.

O caso é considerado um dos mais importantes da história do Supremo Tribunal Federal no que diz respeito às terras indígenas e, a partir desta terça-feira, 1, os ministros do Supremo vão se debruçar sobre o assunto, na tentativa de diminuir os conflitos. O critério do marco temporal prevê que só podem ser consideradas terras indígenas aquelas já ocupadas por eles no dia 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição.

Estadão
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